Relacionamento

Por que mulheres como Ivana não conseguem largar parceiros destrutivos como Max?

TV Globo
Max (Marcello Novaes) critica a aparência e o comportamento de Ivana (Letícia Isnard) frequentemente imagem: TV Globo

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Quem acompanha as emoções da turma do Divino em “Avenida Brasil” sabe que Max (Marcello Novaes) vem tratando Ivana (Leticia Isnard) cada vez pior. Se no início da novela o vilão inventava cansaço ou colocava remédio no copo de água da mulher para não ter de transar com ela, agora, já não disfarça sua impaciência: faz críticas pesadas, debocha de sua aparência e até já a humilhou em público. Ivana, por sua vez, até derrama umas lágrimas, mas costuma varrer o sofrimento para baixo do tapete e perdoa as mancadas de Max.

Segundo a especialista em comportamento humano Sandra Maia, autora de "Eu Faço Tudo por Você: Histórias e Relacionamentos Codependentes" (Editora Celebris), a personagem tem uma visão distorcida do amor e suporta tudo o que Max apronta por se sentir grata a ele. Afinal, Max surgiu quando ela já não tinha mais esperanças de arrumar um companheiro. "Ivana acredita que, em um casamento, a mulher tem de aguentar o temperamento do marido, que isso faz parte do que é amar. Tanto que, quando a família intervém e censura os modos de Max, ela o defende", diz.

Assim como Ivana, no mundo da não-ficção muitas mulheres simplesmente não conseguem se desvencilhar de relacionamentos destrutivos e abusivos. Tudo começa quando se envolvem com homens manipuladores e espertos, que de cara percebem seus pontos fracos. "São mulheres com baixa autoestima, inseguras, dotadas de pouco autoconhecimento e que tendem a se desqualificar. Elas depositam no parceiro todos os seus desejos e anseios de aceitação", afirma a psicóloga Sandra Samaritano, que explica ainda que, nesse tipo de relação doentia, um alimenta o vício do outro. "O homem precisa da mulher submissa porque se apoia no controle que exerce sobre ela. E ela necessita dessa manipulação para se sentir amada", diz.

A vítima que se mantém em um relacionamento abusivo traz complicações psicológicas comumente desenvolvidas na infância, ou por ter sido abusada ou por presenciar abuso emocional no ambiente familiar. "É como se a pessoa acreditasse intimamente que merece esse tipo de tratamento ruim ou que não vai conseguir nada melhor", diz a educadora e mediadora de conflitos Suely Buriasco, autora de "Mediando Conflitos no Relacionamento a Dois" (Novo Século Editora). "Em casos como o que presenciamos na novela, fica claro que a vítima acredita que não terá forças para viver sem o amor do agressor. Ela aceita a situação porque prefere viver assim a não estar mais com ele", afirma.

  • TV Globo/João Miguel Júnior

    Ivana (Letícia Isnard) mudou o visual para elevar a autoestima depois de ser humilhada pelo marido

Na maioria das vezes, o relacionamento não se desfaz porque a mulher insiste em acreditar que, com amor, carinho, complacência e tolerância, haverá uma grande transformação na personalidade do parceiro e ele passará a ser o homem ideal. É essa esperança que sustenta o ciclo vicioso de brigar, chorar, perdoar.

Para encerrá-lo, o primeiro passo é entender que isso não vai acontecer, pois dificilmente pessoas que apresentam características agressivas mudam por si só. A sugestão é que a mulher modifique suas próprias atitudes. "Mas não como a Ivana, que alterou o visual na tentativa de chamar a atenção de Max. Ela fez isso por ele, não por ela, o que só mostra o quanto vem se anulando", diz Sandra Maia.

O ideal é que a mulher analise o que a faz se sentir tão dependente nos relacionamentos, já que a tendência é que tal comportamento se repita, mesmo que o parceiro seja outro. Tentar elevar a autoestima fazendo uma lista das próprias qualidades também é um bom exercício, assim como enumerar tudo o que espera de uma relação amorosa. Ao confrontar essas informações com a realidade, a mulher será capaz de avaliar se o romance será ou não benéfico para sua vida. As especialistas recomendam ajuda profissional para os casos mais extremos, em que há dificuldade de encarar o relacionamento como ele realmente é.

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