Equilíbrio

Pressão para ser feliz deixa as pessoas mais infelizes, dizem especialistas

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Para a psicóloga Maria Teresa Reginato, ser feliz virou moda e isso compromete a satisfação genuína imagem: Stefan/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

No último capítulo de uma novela, todos se casam com os amores de suas vidas. Se falta par para algum personagem, logo um estrangeiro rico aparece e se apaixona pela mais condenada das solteironas. Nos comerciais de TV, a exemplo dos clássicos anúncios ensolarados de margarina, todos são muito felizes. E têm todas as contas pagas, filhos perfeitos, carros que não quebram e dentes sem cáries. Tamanho volume de informações, e histórias que não se parecem com as da vida real, acaba funcionando como pressão para conquistar a felicidade –ainda que ela não seja tão fácil de se resumir.

Tanta pressão tem provocado o efeito oposto: as pessoas estão ansiosas, tensas, inquietas e, consequentemente, infelizes, segundo especialistas procurados por UOL Comportamento. A psicóloga Maria Teresa Reginato diz que "ser feliz virou moda”. E como acontece com toda tendência, há o risco de muita gente se sentir na obrigação de abandonar o próprio estilo para corresponder a um padrão fantasioso de felicidade. “Até porque essa felicidade pregada vem acompanhada de critérios de sucesso que também são momentâneos, como ter emprego estável, atingir certo patamar financeiro, ter vida amorosa bem-sucedida, adquirir carro e casa, ter curso superior e especializações, esbanjar beleza e popularidade”, diz Maria Teresa. Assim, quem se sentia razoavelmente feliz –porque felicidade completa é uma utopia– passa a achar que é um tolo por ter se sentido, até então, satisfeito com tão pouco.

Para a psicóloga Heloisa Schauff, essa sensação de obrigação pode ser positiva ao instigar as pessoas a refletirem se estão satisfeitas ou não com suas próprias vidas. “Indivíduos com senso crítico, centrados, maduros e conscientes não se deixarão levar. Vão avaliar como estão gerenciando suas vidas e quais seus planos para o futuro”, explica. Já os imaturos e inseguros podem cair na armadilha de acreditarem e aceitarem que ser feliz é ter o carro novo ou fazer uma viagem para um destino exótico. “Por causa disso, muitas vezes, as pessoas se perdem em despesas ou desenvolvem sentimentos depressivos. Acham que como não têm certas coisas suas vidas são incompletas”, diz Heloisa.

Falsa felicidade
Aparência se sobrepõe à realidade frequentemente. Quem não é feliz tem de dar um jeito de ao menos parecer ser. Com o atual exibicionismo geral, todo mundo sente, vez ou outra, que "a grama do vizinho é mais verde". Como lidar com a frustração se nem sempre a gente teve um dia divino, uma balada incrível ou uma viagem para exibir? Parece que todo mundo se diverte e curte a vida, menos nós, que temos de trabalhar (e muito) para pagar as contas. Então, vale a falsa felicidade . “Por uma questão da cultura atual, em que o ter é o que importa e as aparências é que abrem portas, a deterioração dos valores acaba impedindo a possibilidade de viver a realidade, mascarando-a”, fala Heloisa Schauff. Segundo a psicóloga Maria Teresa Reginato, as pessoas usam as redes sociais para mostrar somente a imagem que interessa cultivar. “Mesmo quem é mais centrado acaba achando que tem algo de errado com sua vida. A cultura das aparências é uma diversão semelhante a uma festa à fantasia em que, por uma noite, é possível fingir ser outra pessoa para os outros e muitas vezes para si mesmo”, explica.

Obviamente, quando se olha para a vida de alguém, só vemos a superfície, a não ser quando há muita intimidade. É como a ponta de um iceberg: por baixo tem muito mais que não enxergamos. “Isso vale tanto para a felicidade como para a infelicidade”, afirma Maria Teresa, que declara ainda que as pessoas desenvolvem a frustração quando não têm coisas interessantes para postar sobre si mesmas. “E isso se acentua quando veem as coisas bacanas que foram postadas pelos outros. Muitas pessoas criam uma personalidade para exibir nas redes”, conta. As especialistas dizem que a valorização extrema do mundo virtual tira a atenção dos contatos reais e do sentido de privacidade, gerando atrito nas relações interpessoais e piorando a qualidade de vida, entre outras consequências.

Busca interna
A profusão de livros de autoajuda oferece fórmulas mágicas para todos os tipos de problemas: financeiros, amorosos, de autoestima, com os filhos, com os sogros, no trabalho etc. Tanto material à disposição indica, de maneira implícita, que só é infeliz quem quer. “Esses livros pregam coisas, mas não ensinam como alcançá-las; dizem, por exemplo, para as pessoas pensarem positivo, mas não ensinam como elas podem parar o pensamento negativo”, diz Deborah Epelman, psicóloga especialista em programação neurolinguística (PNL). Deborah explica que a escolha entre ser feliz ou infeliz realmente é de cada um. “Só que as pessoas precisam saber como fazer, e isso acontece quando elas olham para dentro de si e transformam aquilo que impede a felicidade. Quando as pessoas pararem de olhar para fora encontrarão tudo o que existe de melhor na vida delas”. 

E há quem persiga a felicidade mais para provar algo aos outros do que por pura realização pessoal. Segundo a psicóloga Maria Teresa Reginato, é provável que uma parte razoável de nossas buscas seja motivada pela necessidade de autoafirmação e reconhecimento. “É preciso ter uma boa dose de autoconhecimento para saber se o que procuramos corresponde ao que realmente necessitamos. O que eu desejo não é necessariamente o que necessito e o que me fará feliz. Pode ser apenas uma compensação por aquilo que julgo ter faltado ou excedido em minha vida”, explica.

A obsessão em ser feliz pode tirar a atenção de coisas não tão grandiosas, mas que realmente importam. Coisas pequenas acontecem milhares de vezes em uma vida, enquanto as grandes só em poucas ocasiões. “Se você sonha com apoteoses no cotidiano viverá frustrado. Quando nos comparamos aos outros, só vemos o final do processo. Aí concluímos que as pessoas receberam aquela dádiva num golpe só, pela sorte e sem esforço. E não é verdade”, afirma Heloisa Schauff.

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