Comportamento

Ter um amigo imaginário na infância é normal; veja como lidar com seu filho nessa fase

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Não censure a criança que demonstra ter um amigo imaginário; é saudável fantasias nesta fase imagem: Thinkstock

Katia Deutner

Do UOL, em São Paulo

Na infância, conversar e brincar com um amigo invisível não deve ser motivo de preocupação para os pais, que, muitas vezes, ficam alarmados achando que há algo de errado com seu filho. É muito comum que as crianças dos três aos seis anos inventem este tipo de fantasia. “Faz parte do universo delas e é muito saudável. As experiências de faz de conta ajudam as crianças a criarem recursos para lidar com situações reais, como as de conflito, amor, ansiedade, medo ou mesmo desenvolver a própria criatividade”, afirma a psicóloga Brisa Campos, do Colégio Viver, em São Paulo.

Além de ajudar na formação da personalidade, o diálogo fantasioso aprimora a linguagem oral, pois, normalmente, as crianças ficam conversando longamente sozinhas. “Esse é um exercício para futuros diálogos com seus pares ou adultos com os quais se relaciona”, explica a psicóloga.

E não é só um personagem invisível que pode se tornar o melhor amigo de seu filho. Ele pode eleger um brinquedo ou um objeto que representa a figura humana e faz parte de sua rotina em casa ou na escola. “A criança fantasia situações do cotidiano nas quais é ela quem tem o domínio da situação. Tendo o poder de controlar, se sente importante e especial. Geralmente, imita falas e gestos dos pais, professores ou coleguinhas”, afirma a psicóloga Marta Bitetti, diretora do Colégio Ápice, também em São Paulo.

Autodefesa infantil
Muitas vezes, o imaginário surge da necessidade de uma companhia. “O motivo é sempre relacionado a questões internas que estão sendo trabalhadas e que fazem parte de uma mudança na rotina: a chegada de um irmão ou a separação dos pais, por exemplo . Mas trata-se de um recurso natural, saudável e passageiro”, conta a psicóloga e psicopedagoga Eliana de Barros Santos, diretora do Colégio Global, em São Paulo. A fantasia faz com que a criança se acalme quando está ansiosa, carente, com raiva ou sentindo medo. Muitas vezes, ainda, usam a voz de mentira para poder dizer coisas que não diriam normalmente.

 


Ao descobrir, os pais devem aceitar e entrar na brincadeira, sem se preocupar ou interferir. É melhor tratar tudo com naturalidade. “É uma fase transicional, que ficará para trás quando o vínculo com o mundo externo estiver mais consolidado e for possível ter experiências seguras com um amigo real”, diz Brisa Campos. A psicóloga infantil Paula Pessoa Carvalho concorda. “Os pais nunca devem ignorar os relatos do filho. Só é preciso ficar de olho no que fala e faz. Se deixar de brincar com os amigos ou não quiser sair de casa por causa do amigo imaginário é motivo para investigar”, declara.

É um erro repreender a criança ou dizer abertamente que seu amigo é fruto da imaginação. “Só vai deixar a criança confusa e com tendências ao isolamento ou envergonhada, mexendo muito com sua autoestima”, segundo Marta Bitetti. E passar a mentir pode ser a saída quando os pais não aceitam o amigo invisível.

Porém, também é um engano incentivar a relação invisível. “A criança pode crer que a voz do amigo tem mais repercussão no ambiente familiar que a sua própria e corre-se o risco de que ela se sinta invadida em seu processo de criação. O espaço da fantasia deve surgir de forma espontânea, porque o filho demonstra interesse, e não por uma insistência da parte dos pais”, declara Brisa Campos.

Hora do adeus
Um belo dia, seu filho lhe dirá que o amigo foi embora –e esse também é um processo normal. “Por ser uma fase passageira, normalmente, a criança encontra formas de abandoná-la sozinha. Se quiserem, os pais podem dizer que o colega foi viver a vida dele, que está bem, se divertindo e aprendendo na escola. O importante é passar segurança ao filho de que o ambiente em que vive é bom”, diz a psicóloga Brisa Campos.

Se a criança atingir sete ou oito anos e ainda manter os diálogos de conto de fadas, a família pode intervir e ajudar na transição da fantasia para a compreensão da realidade de forma espontânea. “Para isso, proponha, por exemplo, que seu filho escreva histórias com o amigo, o desenhe. Isso faz com que a criança caracterize mais este representante do seu ‘eu’ e, com isso, perceba e verbalize que ele não existe”, diz Brisa Campos.

Mas quando a brincadeira deixa de ser saudável e se torna um problema para os pais? “Quando deixar de se relacionar com colegas de seu meio ou ainda se já está na pré-adolescência e continuar acreditando”, afirma Paula Pessoa Carvalho. Nestes casos, é preciso procurar orientação profissional e contar com a parceria da escola em que a criança está matriculada para observar se ela se comporta da mesma maneira no universo estudantil. 

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