Sexo

Vergonha ou imagem negativa da região íntima prejudicam a vida sexual das mulheres

Julia Bax/UOL
Para ter mais intimidade com a vagina, ginecologistas recomendam observá-la com a ajuda de um espelho imagem: Julia Bax/UOL

Cléo Francisco

Do UOL, em São Paulo

Por mais estranho que possa parecer, ainda há muitas mulheres que desconhecem a própria região genital. Com isso, elas abrem mão de explorar o potencial de prazer de seus corpos e perdem o poder de negociar seus desejos com os parceiros, acabando numa situação de submissão a o que o outro quer, sem igualdade de poder com o homem na cama.

De acordo com profissionais que lidam com a intimidade das mulheres, são muitas as que ainda têm problemas para apenas olhar a própria vulva. Com 35 anos de profissão, o ginecologista e sexólogo Eliezer Berenstein afirma que é comum que as pacientes não encaram bem o exame de vulvoscopia. “A câmera do equipamento permite que elas vejam  a vulva e o canal vaginal, mas normalmente elas não querem olhar. Elas têm certa repulsa”. 

O ginecologista Eliano Pellini, chefe do setor de Saúde e Medicina Sexual da Faculdade de Medicina do ABC, acredita que a maioria das mulheres valoriza menos essa área do corpo do que as demais. “Elas precisam fazer as unhas e cabelos toda semana. Mas ir ao ginecologista é uma vez por ano para fazer o exame de papanicolau e olhe lá", diz Pellini. “Durante o exame, elas dizem ‘nossa, como a vagina é feia! Por que será que os homens gostam disso?’". 

Plástica íntima

O cirurgião plástico André Colaneri, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, tem visto dobrar a quantidade de mulheres que o procuram pedindo cirurgias íntimas. “Faço pelo menos uma por semana. Todas dizem que não vão contar para ninguém, só para o marido ou para a mãe. Elas têm vergonha”, diz o médico. De acordo com o especialista, a queixa geral é de desconforto estético.

 

Entre as cirurgias mais procuradas está a ninfoplastia ou labioplastia, que é a diminuição dos pequenos lábios vaginais -quando grandes, eles ficam aparentes, como uma sobra de pele flácida que sai pela fenda vaginal.  Há também casos de gordura em excesso no monte de vênus (em cima do púbis, região onde ficam os pelos). “Se for só gordura, faz-se uma lipo na região. Se houver excesso de pele, é feita uma cirurgia e fica uma cicatriz semelhante à da cesária”, diz o médico. Há também o caso de grandes lábios flácidos. “Com o envelhecimento, é comum que a região fique com aparência flácida. Para quem se incomoda com isso, há a possibilidade de se enxertar gordura da própria paciente e pronto”.

 

Colaneri já teve que fazer algumas mulheres mudarem de ideia. “Muitas não têm noção do que é normal. Algumas chegam dizendo que seus grande lábios são flácidos, quando, na verdade, são normais. É preciso ter muito bom senso”.  

A experiência de 20 anos no consultório mostra para a ginecologista e sexóloga Glene Rodrigues que cerca de 30% das mulheres não têm muita intimidade com sua área genital. “Elas agem como se essa parte do corpo não fosse delas. Não encostam a mão, não querem olhar, sentem vergonha. E desse porcentual, uns 10% delas lidam de forma traumática, como se ter a vagina fosse pecado, algo sujo”, diz Glene.

A má educação
Há muitos motivos que explicam esses sentimentos e reações negativas das mulheres com relação à vagina. A começar pela cultura na qual o pênis é idolatrado. “Quando um menino nasce, os pais dizem orgulhosos ‘olha o tamanho do pênis do meu filho’. Mas você já ouviu alguém falar ‘nossa, mas minha filha tem um clitóris lindo?’”, diz Eliezer Berenstein. Para ele, os meninos têm também a vantagem anatômica de poder ver seu órgão. Mais que isso: eles têm autorização para se tocar desde a infância. "O menino brinca com o pênis e os pais, geralmente, não se importam. Acham até uma graça. Mas se a menina faz o mesmo, logo é repreendida. Desde cedo elas entendem que é um lugar proibido”, diz Sandra Vasques. 

A relação do homem com o pênis é muito mais positiva, segundo a psicóloga, educadora e terapeuta sexual Ana Canosa. “O pênis é objeto de admiração e de exposição por parte dos homens. Eles gostam de verdade de seu órgão sexual e querem que a parceira o admire também”, afirma.

Outra questão importante é a ideia de submissão da mulher. “Elas eram condenadas a servir o homem, casar virgem, não podiam ter prazer nem mostrar o corpo. Tudo isso acabou se refletindo no modo como tratamos a vagina”, diz Ana Canosa. Para ela, é preciso também observar diferenças entre os apelidos dados ao órgão genital masculino e feminino. “No caso do pênis, são usados nomes que têm a ver com poder e força. No caso da vagina, ela ganha nomes de animais peçonhentos ou é chamada no diminutivo com nomes como florzinha, borboletinha”, diz.

A questão religiosa também tem peso, segundo a ginecologista e sexóloga Glene Rodrigues. “A ideia de não poder se masturbar porque é pecado acaba transformando essa parte do corpo em geradora de culpa. Isso pode desenvolver o sentimento de nojo na mulher, que não vai deixar o parceiro fazer sexo oral nem tocá-la com a mão. Ela não vai se permitir ter prazer”.

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Vida sexual afetada
Não ter intimidade ou sentir algum tipo de repulsa pela região genital afeta a vida sexual da mulher e, consequentemente, do casal. Assim, os jogos sexuais que têm a ver com intimidade e exploração do corpo serão evitados para não expor a região íntima. Para Ana Canosa, esse tipo de mulher não costuma ter autonomia sexual por não reconhecer o próprio desejo. "Ela fica em segundo plano, se submete ao que o outro quer. Quem vai imprimir o ritmo à relação é o homem. Ela não terá poder de negociar o próprio prazer na relação sexual”, diz.

Outro problema é a anorgasmia, a  falta de orgasmo. “A mulher que não gosta do genital vai escondê-lo. Não vai explorá-lo ou não vai curtir sexo oral. Que orgasmo ela vai ter? A relação fica sem graça e ela começa a não querer transar mais, o que resulta em falta de desejo sexual”, diz Ana. 

Como reverter esse quadro
O ginecologista Eliezer Berenstein costuma dar uma  lição de casa para pacientes sem intimidade com suas vaginas: que elas comecem a olhar seus genitais com a ajuda de um espelho. “É uma forma de desmistificar a região e de integrar essas mulheres à sua genitália. Isso ajuda a mudar o que pensam sobre essa parte do corpo”, diz.

Em outra fase, a exploração física conta com a ajuda do parceiro. “A ideia é que a mulher se exponha para ele, divida essa a imagem num ritual de contemplação, porque muitos homens também desconhecem o órgão sexual feminino”, diz Berenstein. Depois disso, a visão da mulher sobre a área costuma mudar. “Cerca de 70% começa a achá-la bonita”, diz o médico. 

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