Equilíbrio

Sorte, acaso, coincidências: temos controle sobre o nosso destino? Saiba o que diz a ciência

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Para o físico americano Leonard Mlodinow, o acaso existe e nossas ações não afetam nossa sorte imagem: Orlando/UOL

Andrezza Czech

Do UOL, em São Paulo

O físico norte-americano Leonard Mlodinow não só defende como afirma dever sua existência ao poder do acaso. Seu pai esteve em um campo de concentração nazista na Segunda Guerra Mundial e lá perdeu sua família, mas conseguiu sobreviver. Acabada a guerra, mudou-se para os Estados Unidos, onde conheceu aquela que seria sua nova mulher e com quem teria novos filhos, entre eles, Leonard. Muitos anos depois, o filho do sobrevivente da guerra estava nos arredores do World Trade Center quando ocorreram os atentados de 11 de setembro. Mas, assim como seu pai, ele também sobreviveu.

Alguns podem dizer que a família Mlodinow é azarada, afinal, passaram por situações terríveis. Outros podem dizer que eles são sortudos por terem escapado. O físico, autor do best-seller "O Andar do Bêbado – Como o Acaso Determina Nossas Vidas" (Ed. Zahar) e co-autor de livros ao lado do físico e cosmólogo Stephen Hawking, concorda com ambas. "Eu fui azarado por estar no 11 de setembro, mas sortudo porque sobrevivi", afirma.

Para Mlodinow, nossas ações não afetam a sorte ou o azar. "Nós temos certo controle sobre algumas coisas. Mas geralmente acreditamos ter mais controle do que realmente temos", afirma ele. "Por exemplo, pessoas acreditam mais em bilhetes de loteria quando elas escolheram os números do que quando levam um bilhete com números aleatórios”, diz.

Todas as pessoas, ao longo da vida, são afetadas por lances de sorte ou de azar, segundo o filósofo e jornalista Jacob Petry, autor de "O Óbvio que Ignoramos" (Ed. Lua de Papel) e "Ninguém Enriquece por Acaso" (Ed. LeYa). Mas, para ele, muitas vezes, um evento é consequência de uma sucessão de pequenas escolhas que podem ter sido ignoradas e, por isso, acreditamos ser obra da sorte ou do azar. "Dizer que você pode fazer o que quiser da vida, mas que, no final das contas, a sorte irá definir o que irá acontecer é confortável, mas perigoso, pois tira de nós a responsabilidade das escolhas".

Para o professor Moacyr Duarte, pesquisador do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ) e especialista em análise de acidentes e controles de emergência, as situações que não controlamos não podem ser atribuídas à sorte ou ao azar. "Se você vai a um bom restaurante e tem um arrastão, logo pensa ‘isso foi acontecer justo no dia que decidi vir aqui’. Mas isso já vinha acontecendo antes, havia uma estatística de assaltos. Interpretar isso como azar não tem sentido prático nenhum".

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Nada é por acaso
Quando Duarte faz as análises de acidentes, observa encadeamentos de eventos que parecem coincidências incríveis. "Mas toda coincidência tem origens claras e passíveis de correção", diz. Ao elaborar os planos de emergência de um estádio de futebol, por exemplo, Duarte toma por princípio a conhecida Lei de Murphy, ou seja, se algo pode dar errado, dará. Assim ele considera que brigas, bêbados, ladrões, problemas meteorológicos, falta de luz e água podem acontecer ao mesmo tempo. "Pensamos que tudo poderá dar errado. Do ponto de vista da crença, trago um agouro terrível. Só chego para por defeito e pensar no pior".

Como não poderia ser diferente, o presidente da Sociedade Brasileira de Céticos e Racionalistas, Renato Sabbatini afirma que sorte e azar não existem. Sabbatini, que é neurocientista e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, dá um exemplo: "Se você jogar na roleta, no preto ou vermelho, tem 50% de chances de ganhar. É um fenômeno aleatório. Mesmo se você acertar quase todos e levar uma bolada de dinheiro, é muito fácil de descrever as probabilidades para que isso tenha acontecido. Não depende da sorte ou do azar”, afirma.

Sabbatini cita o exemplo de uma pessoa que decide que a sorte estará do seu lado e que irá mudar de emprego. "Ela começa a enviar currículos e um dia recebe uma proposta, e atribui isso à sorte, mas isso só aconteceu porque ela mesma modificou as probabilidades", afirma. 

A ciência explica
Segundo o neurocientista, nosso cérebro tende a interpretar duas coisas que acontecem, uma após a outra, como uma relação de causa e efeito. E daí surge a crença. "Se um predador fizer um barulho perto de um rato e ele escapar, sempre que ouvir esse ruído ele vai se esconder", exemplifica. "O primeiro cara que passou debaixo de uma escada e algo caiu sobre sua cabeça associou ao azar. Isso é biológico, evolutivo, fundamental para a sobrevivência". Segundo ele, o ser humano tem o cérebro voltado para a fé, e as pessoas acreditam em coisas irracionais.

Mlodinow, porém, afirma que as pessoas tendem a crer que tudo tem um motivo e buscam justificativas. "Mesmo as pessoas que acreditam na sorte frequentemente acham que podem influenciar os acontecimentos pelo modo como se comportam ou por ter Deus ao lado delas".

Livre arbítrio x destino
Mlodinow escreve em "O Andar do Bêbado" que “o desenho de nossas vidas, como a chama da vela, é continuamente conduzido em novas direções por diversos eventos aleatórios que, juntamente com nossas reações a eles, determinam nosso destino". Jacob Petry questiona o que de fato define o rumo de cada um: o destino ou o livre arbítrio? Se for o destino, tudo depende da sorte ou do azar. Se for o livre arbítrio, depende apenas de nossas escolhas.

Para ele, não há como negar que certas coisas nos fogem do controle. "Não escolhemos nossa família, nossa educação, estado econômico do nosso país de nascimento, e tudo isso influencia nossos resultados”, diz. Por isso, ele conclui que ambos têm papel fundamental na nossa vida. Ou seja, embora exista aquilo que não controlamos, temos o livre arbítrio para agir sobre nossa sorte ou azar conforme desejamos.

A sorte é a chave do sucesso?
Para Leonard Mlodinow, a sorte não é a única maneira de alcançar o sucesso, mas é fundamental. “O sucesso depende tanto do acaso quanto das habilidades e trabalho duro", diz.

Para Jacob Petry, quando uma pessoa busca algo intensamente, é possível que consiga quando menos se espera. "Embora acidentais, essas descobertas só aparecem porque buscamos. A pessoa provoca esses resultados, mesmo que de forma indireta”, diz. Para ele, se você apostar na mega-sena e acertar, é um "acidente positivo" que você criou. "Sorte é você estar distraído andando na rua e pisar numa coisa estranha, olhar e ver que é uma pepita de ouro. Você não fez nada para ela aparecer, mas isso causou um grande impacto na sua vida".

Influência psicológica
Embora a existência da sorte seja alvo de discórdia, os especialistas concordam que as pessoas que se consideram sortudas podem aproveitar melhor as oportunidades. "A sorte é muito mais um estado mental favorável criado por elas mesmas. Estão sempre atentas a coisas que possam afetá-las positivamente, por isso as detectam mais facilmente", afirma Petry.

O mesmo vale para quem se diz azarado. “Se há uma tendência de enxergar tudo negativamente, a pessoa vai interpretar os fatos como azar", diz Jason Gallas, professor de física da UFPB (Universidade Federal da Paraíba). Para ele, o mais importante é se conscientizar de que cada um faz sua sorte ou azar. "Temos mania de chamar de acidentes coisas que são previsíveis", afirma Gallas. 

A psicóloga e psicodramatista Cecília Zylberstajn diz que quem se considera sortudo tende a ser mais otimista, expansivo e criativo, capaz de encarar a vida positivamente. "Se você sempre busca oportunidades, as coisas vão acontecer para você", diz. Não custa nada tentar.

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