Comportamento

Noras têm mais atritos com sogras do que genros; entenda os motivos e evite conflitos

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Sentimento de posse sobre os filhos pode transformar mães carinhosas em sogras terríveis imagem: Thinkstock

Veridiana Mercatelli

Do UOL, em São Paulo

Você já teve problemas com a sua sogra? Não se sinta só. Brigas, constrangimentos, festas estragadas e até separações de casais já atingiram muitas famílias por causa da conturbada relação de homens e mulheres com as mães de seus pares. As causas das desavenças podem ser várias, mas, de acordo com especialistas consultados por UOL Comportamento, tudo começa na maternidade: as relações futuras dependem da que foi construída entre as mães e seus filhos. 

Apesar de, normalmente, as reclamações e piadas serem feitas por homens sobre as mães de suas parceiras, os conflitos são mais frequentes entre noras e suas respectivas sogras. E, pela primeira vez, essa clássica rivalidade familiar é relacionada à existência da menopausa. É o que dizem pesquisadores das Universidades Stanford (EUA), Turku (Finlândia),  Exeter e Sheffield (Reino Unido).

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O estudo --publicado em agosto de 2012, no periódico americano "Ecology Letters"-- sugere que a menopausa teria surgido para impedir que sogras continuassem a ter bebês ao mesmo tempo que suas noras.

Os pesquisadores observaram que se ambas tivessem filhos na mesma época, as chances de as duas crianças chegarem à idade adulta diminuiriam pela metade. O mesmo não aconteceria se mães e filhas gerassem filhos ao mesmo tempo, pois entre elas há mais cooperação, diferentemente da relação que costuma existir entre noras e sogras. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram registros de nascimento e morte na Finlândia entre os anos de 1700 e 1900.

Se a natureza criou a menopausa para abrandar a competitividade entre sogras e noras, e ao mesmo tempo preservar a espécie, a ciência ainda não sabe ao certo. Mas ninguém desconhece o fato de que esses desentendimentos estão presentes na TV, no cinema, no cotidiano das famílias e em diferentes grupos e culturas.

 


É claro que os genros também têm muitos atritos com as mães de suas mulheres, mas são bem menos frequentes, de acordo com uma pesquisa realizada pela psicóloga Terri Apter, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Segundo Terri, 60% das noras têm problemas com as sogras --os cuidados com as crianças e o trabalho doméstico estão entre as principais fontes de discórdia entre elas. O número cai drasticamente quando se trata dos genros que vivem em crise com as mães de suas mulheres: 15%.

A estudiosa chegou à conclusão após analisar o comportamento de cerca de 160 pessoas durante 23 anos (entre 1985 e 2009). O estudo deu origem ao livro "What Do You Want From Me?" ("O Que Você Quer de Mim", em tradução livre do inglês), da editora WW Norman. No Brasil, o livro é vendido sob encomenda e não tem tradução para o português.

Sentimento de posse

O sentimento de posse de algumas mães pode torná-las sogras terríveis. "Nem toda mulher desenvolve uma relação saudável com os filhos. Por serem responsáveis por suas vidas frágeis totalmente dependentes delas, muitas se consideram suas ‘donas’ desde o nascimento. Esse sentimento pode se manifestar de forma tão intensa que atrapalha a vida de quem elas mais amam:  os próprios filhos", diz a psicoterapeuta Marisa de Abreu, de São Paulo.

Quando um homem, que já tem "dona", resolve levar a namorada para casa, a reação imediata da sogra é encará-la como uma ameaça ao seu poder materno. E aí ela reage com críticas, veladas ou explícitas, implicâncias e, não raro, com chantagem emocional, contra a qual, na maioria das vezes, filhos não conseguem responder com firmeza.

A genética do ciúme

Além da disputa pelo poder, há outras ideias que também tentam explicar o que acontece por trás da má vontade da sogra de aceitar uma pessoa estranha no ninho que ela construiu. "A teoria do gene egoísta, do evolucionista Richard Dawkins, explica que nós, de uma maneira instintiva, defendemos com mais intensidade as pessoas com quem compartilhamos um maior número de genes. Por isso, temos uma relação mais intensa com um filho ou um irmão", explica Marisa. Imagine, então, como é vista uma pessoa que não tem nada a ver com a árvore genealógica da sogra.

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Clima de guerra entre noras e sogras

Por trás dos desentendimentos, geralmente, se esconde uma disputa pelo poder de dominar o mesmo homem. "Uma quer mostrar à outra que consegue mais atenção e afeto do que sua oponente. E nesse clima de guerra, o diálogo é difícil, pois ambas se veem em campos opostos", diz Magdalena Ramos, psicoterapeuta de casais e mediadora de conflitos familiares.

As disputas tendem a piorar quando chegam os netos. Como a sogra não consegue se separar do filho nem vê-lo como um adulto capaz de tomar suas próprias decisões, o mais provável é que a mãe possessiva (e agora avó) queira tomar para si os cuidados com o neto, até porque não acredita que ninguém possa criar a criança tão bem quanto ela. Menos ainda a sua rival, a mãe do bebê.

"É preciso conversar com a mãe [nesse caso, do homem ou da mulher] que interfere para colocar limites, deixando claro que a criação do bebê cabe aos pais dele", diz Magdalena. Mas clareza não significa rispidez. É importante que a avó não se sinta agredida nem excluída da vida de seu neto. Às vezes, sem perceber, noras atrapalham a relação da mãe do parceiro com os netos como forma de represália, e esse comportamento precisa ser evitado. 

Genros e sogras brigam menos

A relação da sogra com o genro, em geral, é mais tranquila, principalmente quando ela percebe que ele cuida bem da sua filha. "Nesse caso, a competição pode se estabelecer entre sogro e genro, principalmente se ele é um pai protetor, que não quer perder sua ascendência sobre a filha", diz o psicoterapeuta Antonio Carlos Amador Pereira, professor do curso de Psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Ninguém é santo

O psicoterapeuta Amador Pereira diz, também, que todo relacionamento é uma via de mão dupla. Ou seja: assim como existem sogras mandonas, também aparece a nora implicante e o genro folgado. Ambos também precisam aprender a descobrir seus limites e respeitar as regras dos sogros, ainda que nem sempre concordem com elas. É essencial fazer uma autoavaliação e lembrar que desavenças com noras e genros nem sempre são culpa da sogra ou do sogro.


Novos ares

Para Amador Pereira, como a organização familiar se modificou, as relações entre sogra e nora também tendem a se transformar em um convívio mais ameno, com as eventuais dificuldades que toda relação interpessoal possa apresentar, mas sem o ranço das antigas picuinhas.

O psicoterapeuta da PUC afirma que, hoje em dia, muitas sogras, na faixa dos 50 a 60 anos, fazem parte das primeiras gerações de mulheres que conquistaram o mercado de trabalho. "São profissionais ativas, com seus próprios interesses, sem disponibilidade para tomarem conta da vida de filhos adultos. Essa condição, de certa maneira, as aproxima mais da realidade da nora, diminuindo conflitos comuns entre gerações".

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