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Para especialistas, ter marido ainda é fundamental para muitas mulheres

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Querer se casar não significa que a brasileira não almeje sucesso profissional imagem: Thinkstock

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Por mais que a independência feminina tenha tornado a mulher dona de suas próprias escolhas –criar um filho sozinha ou priorizar a carreira em vez das realizações afetivas–, a maioria delas ainda sonha em se casar e constituir família, segundo especialistas em comportamento humano consultados por UOL Comportamento. Entre os que defendem essa teoria está Mirian Goldenberg, antropóloga e coautora do livro "Tudo o que Você Não Queria Saber sobre Sexo” (Ed. Record), em parceria com o cartunista Adão Iturrusgarai. 

Para Mirian, marido é uma espécie de bem capital para a brasileira. Desde 2007, ela realiza grupos de discussão com mulheres de mais de 40 anos daqui e da Alemanha e tem observado diferenças interessantes, que refletem, inclusive, nossa herança cultural. Enquanto as alemãs se dedicam com mais afinco à realização profissional e intelectual, as brasileiras dão ênfase à importância de ter marido e filhos e sentem que "falta homem no mercado".

"Isso não significa que no Brasil a mulher não seja ambiciosa e não almeje ter sucesso e prestígio na profissão. Ela faz questão disso, sim, porque não quer abrir não de nenhum papel feminino", diz a antropóloga. "Enquanto as alemãs tomam decisões com maior racionalidade, as brasileiras são mais emocionais. E não querem fazer concessões, pois se sentem na obrigação de dar conta de tudo: casa, carreira, filhos, marido etc." 


Ter marido e filhos oferece uma sensação de segurança, de poder contar com alguém, mesmo que a prática mostre que esse conforto é ilusório. Segundo Mirian, mesmo com a mudança dos costumes existe o ranço machista (que não vem somente dos homens) de que a mulher que não se casou é uma "fracassada social", uma "coitada". "A mulher sozinha ainda é estigmatizada. Ela não se sente à vontade para ir sem companhia a um restaurante ou ao cinema, por exemplo, porque sente receio do que os outros pensarão", conta.

Para Mirian, mesmo aquelas que escolhem ser solteiras não se sentem confortáveis em estarem sós em determinadas situações sociais. Esse cenário, segundo ela, só mudará a partir do momento em que mulheres públicas e a mídia, em especial as novelas, tratarem a mulher solteira por opção de forma natural. 
 

Realização e qualificação pessoal

 
Não é só o status social que motiva a busca por um marido. Ter uma relação estável proporciona a possibilidade de compartilhar a vida. Por isso, segundo as pesquisas de Mirian Goldeberg, as brasileiras que se dizem mais satisfeitas são as casadas.

O psicólogo Ailton Amélio, professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) e autor dos livros "Relacionamento Amoroso" (Publifolha) e "O Mapa do Amor" (Editora Gente), afirma que o ser humano é "um animal que se casa". "Existem forças e pressões sociais que induzem ao casamento, como a regulação do sexo –quem vai transar com quem– e a criação dos filhos. Mas, embora o homem seja ligeiramente mais propenso à poligamia, a maior parte das pessoas quer, sim, viver ao lado de alguém durante a vida toda", conta.

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Para Carlos Henrique Kessler, diretor da Clínica de Atendimento Psicológico do Instituto de Psicologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), ainda é fundamental para a mulher moderna estar com alguém. "Mesmo que o papel masculino de provedor tenha caído em desuso, para a mulher, contar com um parceiro é um elemento de realização. É atingir um objetivo entre os vários que a mulher se dispõe a buscar", conta.

Mas para o homem, essa questão também é importante. "Todo mundo quer se sentir valioso para outra pessoa e ser capaz de ser amado e amar", diz. O problema é que, segundo a psicoterapeuta Sandra Samaritano, a mulher é mais cobrada e se cobra mais em relação à realização afetiva.

"Ser casada faz com que a mulher se sinta mais valorizada. É um meio de qualificá-la para si mesma e para os outros", diz Sandra. Mais fundamental ainda do que ter uma relação estável é qualificá-la com papel passado e, melhor ainda, na igreja, de acordo com a psicoterapeuta. "O peso da instituição ainda é muito grande. Por mais que o comportamento tenha evoluído, valores antigos ainda norteiam as atuais gerações", afirma.
 
 

Falta homem?

 
A queixa de que falta homem no mercado, de acordo com os especialistas, não têm razão de ser. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que há, sim, mais mulheres do que homens no Brasil. "Mas a maior concentração está na faixa dos 50, 60 anos, e é formada principalmente por viúvas", afirma José Luís Petrucelli, um dos pesquisadores do Censo 2010. O que acontece é que há uma maior quantidade de solteiras nas grandes cidades –e é o comportamento das metrópoles que se torna mais conhecido pelo país. No campo, porém, predominam os homens disponíveis.
 
Na opinião de Amélio, existem alguns desencontros sociais em nossa cultura, que seguem certos padrões biológicos. "As mulheres mais procuradas e desejadas, tanto para sexo quanto para casamento, estão na faixa dos 20 anos [fase em que os níveis de fertilidade são altos]. E os homens, de modo geral, se casam com parceiras cerca de três anos mais novas do que eles", diz.

A partir dos 30 anos, aquelas que ainda não se casaram, por concentrar energias na carreira ou algum outro motivo, começam a ficar mais preocupadas com o futuro, já que a fertilidade começa a dar sinais de declínio. Para algumas, há, também, o medo da solidão. "Essa inquietação deixa a mulher mais suscetível às más escolhas amorosas e às decepções", afirma Sandra.

Mirian Goldenberg também concorda que há homens disponíveis. O problema é que muitas mulheres idealizam demais o parceiro. "É claro que terão dificuldade de encontrá-lo". Para ela, apoiar-se no discurso de que homem tem medo de mulher independente é desculpa para não lidar melhor com a própria condição e agir. E é a justificativa usada tanto por aquelas que buscam um marido quanto por quem fez a opção de viver sozinha.
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