Comportamento

Para sair da sombra do "irmão perfeito", é preciso entender que ele também tem defeitos

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Uma conversa franca com seu irmão ou irmã pode ser muito saudável para ambos imagem: Thinkstock

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós", disse Jean-Paul Sartre (1905-1980). Pela lógica do filósofo francês, a melhor maneira de lidar com os problemas –no caso desta reportagem, os da infância– seria usá-los a nosso favor.

Complicado de colocar em prática, principalmente no caso de crianças que cresceram sendo comparadas com os irmãos pela família –e, na idade adulta, tentam se desvencilhar do fato de terem sempre saído em desvantagem. "Reverter esse processo é difícil, mas não é impossível", diz a psicóloga e terapeuta Letícia Dellazzana-Zanon, do Laboratório de Psicologia e Epistemologia Genética da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Segundo Letícia, esse sentimento de inferioridade é comum entre filhos de pais muito competitivos, que ensinam às crianças, mesmo que inconscientemente, a se relacionarem dessa forma. "Muitos, na tentativa de incentivar um filho que não vai bem na escola, por exemplo, acabam comparando seu esforço e desempenho com os daquele que sempre tira notas altas", declara.

Para a psicóloga Marilia Castelo Branco, da Unifesp (Universidade Federal do Estado de São Paulo), as relações com os irmãos são as primeiras que os seres humanos experimentam. "Através delas, as pessoas aprendem o que é amizade, carinho, raiva, inveja, ciúme... Essa mistura de sentimentos é perfeitamente normal", afirma. Segundo a especialista, os pais deveriam ser mais cuidadosos no trato com os filhos, respeitando sua individualidade e evitando criar expectativas de que um faça tudo igual ao outro, mesmo em famílias numerosas.

Porém, muitos pais erram sem perceber, querendo acertar. E aí os filhos que se sentem inferiorizados acabam se tornando adultos problemáticos, que continuam a viver e a nivelar as próprias escolhas e decisões em função do irmão. Como reverter isso? O ideal seria buscar em si não as mesmas qualidades e potencialidades que o irmão ou irmã tem, mas as próprias habilidades.


Foi o que fez a advogada Berenice Santos, de 31 anos, que ouviu durante toda a infância e adolescência que a irmã mais velha, Sara, de 35, era uma esportista nata, capaz de jogar bem futebol, vôlei e basquete e nadar e correr como ninguém. "E eu era o tipo de garota sempre escolhida por último para compor os times nas aulas de educação física", conta Berenice.

Por mais que tentasse imitar a irmã, nada dava certo: ela definitivamente não tinha jeito para os esportes. "E, por ser mais reservada, não sobressaía nas reuniões familiares. A situação só melhorou quando parei de querer ser alguém que não era e passei a me dedicar sem culpa às coisas que gostava, como devorar livros, por exemplo. Hoje, me orgulho do meu poder de oratória", explica.

Pare de se comparar

Para Marilia Castelo Branco, reconhecer que a comparação provoca sofrimento é o primeiro passo. "Em alguns casos, vale a pena chamar o irmão para conversar sobre o assunto. Abrir o jogo sobre o que se sente é libertador. Isso pode ajudar, ainda, a ter um olhar mais realista em relação ao próprio irmão, uma pessoa que tem habilidades que você talvez não possua, mas que se sente inferior por coisas que você nem imagina”, diz a psicóloga da Unifesp.

Essa atitude evita que a competição, velada ou declarada, atravesse gerações, por conta de prováveis disputas entre os primos, filhos dos irmãos.

Investir no autoconhecimento e na autoestima são a chave para lidar com uma infinidade de situações pela vida afora –e com essa não é diferente. Segundo Letícia Dellazzana-Zanon, que desde 2006 estuda a relação entre irmãos pela UFRGS, aprender a comemorar as próprias conquistas sempre funciona, mesmo que elas não sejam tão grandiosas quanto as do irmão aos olhos alheios. Também é fundamental valorizar os elogios recebidos.

Outra sugestão que vale a pena colocar em prática é perdoar quem quer que seja que tenha detonado o processo de comparação. "Dê um novo significado aos fatos, se possível com bom humor. Se em uma reunião familiar alguém lembrar de alguma história da infância em que você saiu perdendo em relação ao seu irmão ou comparar seu carro velho com novo dele, seja o primeiro a rir, a comentar com bom humor sua versão. Não alimente o ressentimento", diz Marilia Castelo Branco.

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