Comportamento

Não almejar a perfeição está entre os segredos para ser uma mãe feliz e sem culpa

Reinaldo Canato/UOL
A consultora de moda Danielle Ferraz, de 37 anos, mãe dos trigêmeos Bárbara, Lorenzo e Leonardo, de sete imagem: Reinaldo Canato/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Dizem que a maternidade e a culpa andam de mãos dadas, uma puxando a outra. Quando uma mulher se torna mãe, qualquer atitude ou decisão em relação à criança é internamente analisada, repensada e sofrida. E sempre há a sensação, seja qual for a situação, de que poderia ter feito melhor, se dedicado mais, se esforçado em dobro. Com o excesso de demandas da vida moderna, porém, algumas mulheres têm encontrado alternativas –cada uma a seu modo– para manter a culpa bem longe da sua rotina e, assim, se sentirem mais felizes e plenas consigo mesmas e com seus filhos. Como? Veja a seguir sete segredos:

1. Dar o melhor de si, mas não almejar a perfeição
De acordo com a pediatra Miriam Ribeiro de Faria Silveira, diretora do Departamento de Saúde Mental da SPSP (Sociedade de Pediatria de São Paulo), mães equilibradas e de bom senso evitam se tornar reféns da "síndrome da Mulher Maravilha". "Elas tentam fazer o melhor que podem para dar conta dos papéis de mãe, mulher, amiga, dona de casa, profissional, mas não querem ser as primeiras em tudo e não sofrem quando alguma coisa não sai conforme o esperado", conta.

Segundo Miriam, essas mães levam numa boa eventuais falhas, como atrasar um prazo no trabalho ou fazer um relatório correndo para atender às demandas com as crianças. E o contrário também vale, como vez ou outra apelar para o "delivery" porque voltou do escritório exausta ou deixar a garotada dormir sem tomar banho porque está jogada no sofá. 
 

2. Saber delegar
Para a psicóloga Cecília Russo Troiano, autora do livro "Vida de Equilibrista – Dores e Delícias da Mãe que Trabalha" (Ed. Évora), uma mãe que se sente à vontade consigo mesma não precisa estar o tempo todo no controle da vida do filho.

"Quando necessário, ela divide as responsabilidades com o marido, com a família e com pessoas próximas e, claro, de confiança", diz. E pede ajuda não só quando está encrencada com compromissos profissionais –por que não deixar o filho algumas horinhas na casa da avó para curtir uma tarde gostosa com as amigas, por exemplo? Delegar, na opinião da psicóloga Triana Portal, significa ter mais tempo para si mesma e incentivar a autonomia dos filhos e até do marido. "Muitos homens gostariam de poder cuidar mais das crianças, mas são podados pelas próprias mulheres", afirma.
 
 
3. Não se martirizar por ter perdido a paciência
Agredir ou humilhar verbalmente uma criança é inaceitável, em qualquer circunstância. No entanto, um desabafo como "Vocês me deixam louca!" ou "Fiquem quietos porque estou nervosa!" não precisa ser motivo para você alimentar a culpa, mesmo que tenha gritado.

"Mães são seres de carne e osso. Então, é natural ter um rompante de irritação se as crianças estão a mil e não dão o mínimo sinal de sono, justamente naquele dia que foi para lá de exaustivo", diz Miriam Ribeiro, da SPSP. Essa atitude, obviamente, não deve se tornar regra –o ideal é sempre tentar conversar com a criança e expor seus argumentos. Mas, se acontecer, não é algo que traumatizará seus filhos.
 
  • Reinaldo Canato/UOL

    A empresária Alessandra Ferreira Nicodemo, 41 anos, com a filha Bárbara, de três

4. Reafirmar suas escolhas
Segundo a psicóloga Cecília Russo Troiano, a maior parte dos filhos cujas mães trabalham fora não se incomodam de passar boa parte do dia longe delas se percebem que elas são felizes.

"Mesmo sem saber verbalizar isso, as crianças sentem orgulho das conquistas e das realizações maternas", diz. Por isso, mais do que explicar que é preciso ter um emprego para ganhar dinheiro, o importante é mostrar que o trabalho gera satisfação.

A empresária Alessandra Ferreira Nicodemo, 41 anos, de São Bernardo do Campo (SP), é dona de uma cervejaria e é mãe de Bárbara, de três anos. "Meu tempo livro é todo dedicado a ela, mas quando saio para trabalhar vou feliz, porque gosto. Quero que ela tenha um bom exemplo e que, no futuro, também encontre alguma atividade que lhe traga prazer", afirma.
 
5. Abrir mão das coisas sem olhar pra trás
Quem, ao planejar ter um filho, acredita que será possível manter a mesma rotina de antes está fadada a sofrer uma grande frustração. Ser mãe, mesmo sem estar ao lado da criança 24 horas por dia, ocupa muito tempo e domina por completo os pensamentos de qualquer mulher.

Mas para viver feliz e sem culpa não se deve perder tempo fazendo comparações inúteis entre a vida antes e depois da maternidade. A consultora de moda Danielle Ferraz, de 37 anos, mãe dos trigêmeos Bárbara, Lorenzo e Leonardo, de sete anos acredita nisso.

"Sempre fui muito dinâmica e fazia mil coisas ao mesmo tempo. Antes, malhava uma hora e meia por dia; hoje vou à academia quando dá. Sou mais seletiva com meus trabalhos e tento me adaptar conforme os acontecimentos, porque com crianças a chance de um imprevisto é enorme. Meu segredo é não estressar nem sofrer, porque não posso fazer tudo, mesmo. Eu me sinto feliz, pois aprendi a ser mais serena", declara.
 

6. Ser presente, mesmo não estando junto o tempo todo
Segundo as especialistas consultadas por UOL Comportamento, essa atitude é mais importante do que estar presente de fato –brincando de desenhar, por exemplo– e manter os pensamentos longe –no trabalho que tem a fazer. Entregar-se totalmente quando dedica um tempo à criança, mesmo que curto, é um dos segredos para se livrar da culpa. E, quando não puder estar presente, basta dar um jeitinho de saber como o filho está –um telefonema carinhoso, acredite, vale bem mais do que uma companhia com a cabeça nas nuvens.

"Ligo para a Bárbara para saber se comeu direitinho, o que está fazendo, como foi o dia na escola... Mesmo que a conversa seja curta, é importante que ela saiba que o fato de eu não estar ao seu lado não significa que eu não esteja próxima dela", conta Alessandra Nicodemo. 
 
7. Não atormentar com sua presença
Para a pediatra Miriam, especialista em saúde mental, não há nada mais prejudicial ao desenvolvimento infantil do que uma mãe em torno da criança o tempo todo –em especial, as superprotetoras, que têm medo excessivo de que a criança se machuque ou coloque as mãos sujas na boca. Esse tipo de amor sufoca. Além disso, qualquer problema que a criança tenha será motivo de sofrimento e culpa para a mãe. "Criança precisa experimentar, conviver com pessoas da sua idade, aprender noções de perigo", diz. O excesso de zelo pode atrasar a fala e a coordenação motora, por exemplo. 

"Eu busco educar meus filhos para que sejam independentes. Sempre incentivei a autonomia dos três, porque não podemos prever o dia de amanhã", conta a mãe Danielle Ferraz.  Mulheres que deixam de trabalhar e abandonam a vida social para cercar os filhos de cuidados têm grandes chances de sofrer no futuro, quando as crianças estiverem maiores e envolvidas com as atividades da escola, amiguinhos etc.
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