Vida no trabalho

Chefe "amigão": saiba lidar com os sete erros do gestor que pensa que tem intimidade com você

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É importante ter boa relação com o chefe, mas é preciso ter limites para que a intimidade não seja excessiva imagem: Stefan/UOL

Andrezza Czech

Do UOL, em São Paulo

Você mal se senta em sua cadeira no escritório e ele faz questão de relatar detalhes da vida pessoal. Ao longo do dia, conta piadas inconvenientes e chega por trás massageando seus ombros. Nos finais de semana, envia mensagens de celular e faz convites para programas chatos. O problema é que ele é seu chefe --e você não gostaria de ter tanta intimidade assim com ele.

"Tanto com o chefe quanto com qualquer colega, é preciso ter uma boa relação social, o que ajuda a equilibrar as situações de conflito do dia a dia. Mas há um limite”, diz Janaina Ferreira, especialista em Gestão de Equipes e Pessoas do Ibmec do Rio de Janeiro. Para ela, ficar muito amigo do seu superior pode ser uma armadilha. "O pré-requisito para uma amizade é a confiança, o que requer tempo e segurança. No trabalho, o ambiente é competitivo. Amanhã seu amigo pode se tornar seu inimigo", diz.

Para o mestre em Administração de Empresas Joel Souza Dutra, professor da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo), o limite para a relação entre chefe e subordinado varia. "Depende das pessoas envolvidas e da cultura da organização. A relação de camaradagem e até de amizade é positiva, desde que certas coisas não se misturem", diz ele. "Muitas vezes, o chefe perde o senso crítico e passa a defender os interesses do subordinado, sem separar o pessoal do profissional", afirma.

Imaturidade e inexperiência
Para Dutra, o chefe "amigão" pode forçar uma intimidade com os funcionários por insegurança, o que pode acontecer se ele não tem a experiência necessária para o cargo. As atitudes também são fruto de imaturidade profissional, segundo a psicóloga Ana Cristina Limongi-França, professora do departamento de administração da FEA e coordenadora da FIA (Fundação Instituto da Administração). “Pode ser alguém que não tem treinamento e acha que invadindo o espaço do outro será mais querido, alguém que quer se mostrar tão descolado que perde a noção”, diz.

 

Para Janaina, o chefe só se torna invasivo e inoportuno se você permitir. E, quanto mais tempo essa liberdade for dada a ele, mais difícil será reverter a situação. "Não se pode cortar de vez para não virar uma inimizade. Um chefe inimigo é algo muito ruim. É preciso voltar aos poucos para um patamar de relacionamento saudável", diz Janaina.  O UOL Comportamento conversou com especialistas para saber como contornar os sete erros mais cometidos pelo chefe que pensa que é seu amigo.

Como agir com o chefe "amigão" quando:

1. Ele se convida para almoços ou para tomar café com a equipe todos os dias 
Para Ana Cristina Limongi-França, não só é possível como é necessário recusar convites feitos em excesso. "Se a pessoa não percebe que você não se sente à vontade, é preciso sinalizar. Esse tipo de interação tem que ser uma vontade dos dois, não uma imposição", afirma. "O ideal é se fazer de surdo, arranjar um compromisso no horário, não dar chance para constrangimentos", afirma. Também não é obrigação do funcionário aceitar todo convite para o "happy hour".

2. Conta demais sobre a vida pessoal dele –e pergunta sobre a sua
Para Ana Cristina, se o chefe quiser falar, o ideal é que você tenha a generosidade de ouvir. "Ouvir o outro é uma ação de humanidade. A questão é até onde você suporta ouvir e o quanto isso se repete. Se você está cheio de trabalho, dê uma palavra de incentivo e toque a sua vida", diz ela. Se os assuntos abordados forem desagradáveis ou íntimos demais, apenas ouça e não comente, segundo Janaina Ferreira, do Ibmec. E ouvi-lo não te obriga a falar da sua vida. “É importante manter o vínculo amigável, mas cuidado para não expor uma situação íntima no trabalho", diz Janaina. "As pessoas ficam encantadas com a liberdade e abrem a vida íntima para o chefe. Depois, se arrependem quando ele não as promove por achar que elas têm problemas pessoais demais”, afirma.

3. Faz piadas inconvenientes
Se as piadas geram situações constrangedoras, você não precisa --nem deve-- rir só porque ele é seu chefe, segundo Janaina. "Vira ‘puxa-saquismo’", afirma. É possível que o chefe desista de brincar se perceber que não diverte ninguém. Para Ana Cristina, se a brincadeira for direcionada a você, diga que não gosta. Se estiver lidando com um chefe imaturo e desequilibrado, não seja tão explícito, mas deixe nas entrelinhas que as gracinhas não lhe agradam. O professor Joel Dutra orienta que se faça uma análise para entender se seus colegas também se incomodam com a situação. "As piadas podem fazer parte da cultura da empresa. Pode ser que você esteja fora do contexto", afirma. Observe se os comentários ultrapassam a linha da brincadeira e configuram assédio moral.

 

4. Faz convites para que você jante na casa dele com a família
Para Joel Dutra, é comum que até sua família fique exposta ao convívio social corporativo. "Alguns chefes acham importante o encontro familiar, mas se você não acha, dialogue", diz. Para ele, se o convite for algo que não acontece com frequência, é educado aceitar. Mas se começar a se repetir, é possível negar. Há também outro problema: se você for o único funcionário a ter amizade com a família do chefe, pode despertar ciúme e inveja, segundo Janaina. Para evitar problemas, sugira que o gestor também chame outro colega.

5. Interage demais nas redes sociais
Estabelecer limites, principalmente nas redes sociais, é difícil. "As pessoas ficam divididas, algumas se incomodam em estar disponível demais, sentem-se invadidas", afirma Joel Dutra. Ana Cristina acredita que é preciso ser esperto e não se expor demais para não se arrepender. "As pessoas não têm noção do impacto que causam certos comportamentos. Não adianta se expor e depois se vitimizar", afirma. A melhor saída para lidar com os comentários desagradáveis de qualquer tipo de chato nas redes sociais é ignorá-los. 

6. Manda SMS fora do expediente
"Se o chefe está escrevendo pela primeira vez em um domingo, deve ser algo importante. Se é uma prática que se repete, não responda e depois diga que não viu", diz Ana Cristina. Para Janaina, a relação pouco profissional entre chefe e subordinado é a responsável por esse tipo de atitude. "O funcionário se acha no direito de chegar atrasado, de não entregar tarefas no prazo e, por outro lado, o chefe pensa que pode pedir para você virar a noite trabalhando, acha normal mandar mensagens durante os finais de semana perguntando sobre resultados de projetos etc", diz ela. Como consequência, você pode ficar sobrecarregado no trabalho.

7. Exagera no contato físico
Para Ana Cristina, o contato físico tem a ver com o lado cultural do brasileiro. "Se você não quer essa intimidade, leve na brincadeira e diga com bom humor algo como ‘hoje deixei você me dar esse abraço, mas agora chega’". Você também pode dar um passo para trás, com sutileza, se a pessoa está te tocando demais ao falar. 

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