Sexo

"Fazemos sexo muito mal", diz autora de "Cem Homens em Um Ano"

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Autora do livro relata detalhes de suas experiências sexuais no período de um ano imagem: Divulgação

Andrezza Czech

Do UOL, em São Paulo

"A conta é simples: o ano tem 52 semanas e no início de fevereiro eu já tinha saído com oito caras. Percebi a média enquanto dirigia na volta de um dos encontros. Ao fim de um ano, se eu mantivesse a mesma batida, chegaria a 104 parceiros". A frase que abre um dos capítulos do livro "Cem Homens em Um Ano" (Ed. Matrix) resume o cálculo que levou a jornalista e escritora Nádia Lapa, 31 anos, à decisão de se tornar mais disponível às oportunidades de sexo e relatar todas elas para que qualquer um pudesse ler. Em 2011, Nádia criou o blog "Cem Homens" e, com o pseudônimo de Letícia Fernandez, passou um ano escrevendo com detalhes e sem pudores os sucessos e fracassos de suas experiências sexuais. A ideia inicial dos cem homens, porém, não foi concluída por consequência de inesperadas paixões e de um grande amor --e o ano acabou quando Nádia alcançou o número 35. Em entrevista ao UOL Comportamento, a autora fala sobre machismo, liberdade sexual e como conseguiu lidar com xingamentos e ameças sofridos.

UOL Comportamento: No livro, você conta que recebeu o diagnóstico de sofrer de menopausa precoce e percebeu que houve uma redução na sua libido. Foi a recuperação que a estimulou a mudar sua vida sexual e criar o blog?
Nádia: A época em que recebi o diagnóstico foi muito difícil. Nunca quis ter filhos, mas quando me falaram que eu não podia foi horrível. Eu já via que minha libido estava um pouco fora do normal, mas teve um dia em que eu estava transando com um cara e me dispersei completamente. Chorei muito e não admiti não ter uma vida sexual do jeito que eu gosto. Comecei a fazer o tratamento e fui melhorando. No final de janeiro de 2011 voltei a sair, voltei a ter desejo. Estava redescobrindo minha feminilidade, mas não pensei "vou fazer sexo casual porque agora meus hormônios estão funcionando". O sexo sempre teve uma importância muito grande na minha vida. Comecei o blog porque precisava escrever sobre minha recuperação sexual. Enquanto escrevia o blog, que na época tinha outro nome, percebi que se continuasse nesse ritmo chegaria a cem homens em um ano. Nunca foi uma coisa que eu fosse fazer a qualquer preço. Se fosse fazer sem critério nenhum, seriam duzentos. Recebi muitas propostas.

UOL Comportamento: E por que você parou no número 35?
Nádia: Essa foi a quantidade de homens com quem transei até dezembro. O primeiro semestre foi uma festa, mas no segundo rolaram algumas paixonites e o maior amor da minha vida. Foi o penúltimo do ano, e eu vivi aquela relação intensamente como achava que tinha que viver. Foi completamente inesperado. Ele era leitor do blog, a gente se conheceu assim. Saí para almoçar com ele sem segundas intenções, mas me apaixonei perdidamente, não queria largá-lo nunca mais. Foi muito bacana durante um tempo, mas depois foi bem ruim.

UOL Comportamento: Você só foi sair com um leitor do blog depois de 17 parceiros sexuais no ano. Como era sair com leitores, que já sabiam que você escreveria sobre eles? Eles reagiam bem?
Nádia: O primeiro leitor com quem saí, o número 18, trabalhava na mesma empresa que eu. Quando ele me mandou o e-mail, eu sabia quem ele era, mas ele não me conhecia. Conversamos semanas por e-mail e decidi sair com ele. Foi uma noite estranha, mas foi bom para perder o medo de me mostrar. Os leitores sabiam que eu ia escrever sobre eles. Os outros não, eu nunca avisei, mas também nunca revelei os nomes verdadeiros deles. No geral, eles têm uma vaidade. Eles querem que contem como foi o sexo, mesmo que seja para falar mal. Alguns até foram ao lançamento do livro e me pediram para autografar um exemplar.
 

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UOL Comportamento: Você conta que chegou a ficar um mês sem ter encontros após um episódio em que consentiu em fazer coisas que iam além das suas regras pessoais. O que aprendeu com essa experiência?
Nádia: A situação toda foi muito ruim. Na minha cabeça ele era tão perfeito que queria agradá-lo e ultrapassei práticas que eu não curto. Estava me sentindo ofendida e não falei nada. Quando me posicionei, ele me ofendeu. Foi muito esclarecedor de quais eram meus limites, estava com uma ideia de experimentar tudo e vi que era uma bobagem. Cresci muito com aquele episódio. Infelizmente todas as mulheres são criadas na situação de dar prazer, e não de sentir. Depois disso minha mente mudou. 

 

UOL Comportamento: Diz-se que vivemos uma fase de liberdade sexual, mas uma situação como a que aconteceu com esse parceiro, somada às críticas que você recebeu ao longo do ano no blog, parecem refletir o oposto. Acredita que a repressão sexual ainda existe?
Nádia: Claro. A liberdade sexual não existe nem para os homens, nem para mulheres. Para elas é ainda mais complicado. O homem que transa com todas é garanhão, já a mulher é chamada de prostituta. Uma coisa me assustou bastante também é que muitas pessoas perguntavam se eu cobrava por transar com tantos homens. Na cabeça das pessoas, as mulheres só podem fazer sexo se for para conseguir alguma coisa, seja marido ou grana. Diziam que eu era burra por não cobrar. Passamos a falsa aparência de que somos livres sexualmente, mas o brasileiro é muito moralista. Existe muita repressão sexual. No início da minha vida sexual eu tinha um sentimento de culpa absurda, não falava para minha família, fazia escondido, morria de medo de engravidar, apesar de fazer tudo direitinho. A culpa não ajuda ninguém.

UOL Comportamento: Por que você acha que o livro “Cinquenta Tons de Cinza”, que trata de sexo de uma forma aberta e polêmica, foi um sucesso? Algo mudou de um ano para cá?
Nádia: Não acho que nada mudou. O que eu acho é que, quando o livro chegou ao Brasil, já era um sucesso fora do país. As pessoas compraram a ideia que veio de fora. Outra coisa é que a maioria das mulheres enxerga o livro como uma história de amor. A protagonista é submissa, virgem, transa por amor, não há o sexo sem compromisso como aquele que eu fazia e relatava no blog.
 
 
 
UOL Comportamento: Hoje você assina com seu nome verdadeiro. Quando tomou coragem para deixar o pseudônimo de lado?
Nádia:
No ano passado, dei entrevistas a algumas pessoas que contaram para outras quem eu era. Depois surgiram comentários horríveis no blog, com ameaças falando meu nome completo. Tinha medo que isso prejudicasse minha carreira e que minha família não aceitasse. Até hoje as pessoas me xingam muito, dizem que sou gorda, que eu tenho DSTs. Ouvi coisas muito cruéis. No fim do ano tive uma rápida crise depressiva e as pessoas apostavam quando eu ia me matar. Era assustador. Isso me fez muito mal, chorei muito, mas decidi que não ia mais ficar refém delas. Contei para minha família e fiz um "post" falando tudo sobre mim e revelando quem eu era. Aí as pessoas pararam de me ameaçar. Muitas garotas falavam que eu era uma inspiração, então eu precisava me libertar. Não me arrependo de nada. Só de dar muita importância para quem me xingava. Hoje não perco meu tempo com isso.  
 
UOL Comportamento: No ano do blog, você realizou fantasias como transar no trabalho e com um desconhecido, mas seus relatos mais enfáticos são os de sexo a três. Foi a experiência mais marcante?
Nádia: Eu nunca tinha feito sexo a três e pensava que não faria nunca. Mas foi maravilhoso e é minha prática favorita hoje. Pensamos que é tudo muito mecânico e é justamente o contrário, você tem que se preocupar mais, não é tudo no automático. Foi minha experiência mais libertadora.

 

UOL Comportamento: Ainda há algo que você tem vontade de realizar?
Nádia: Tinha vontade de fazer sexo com mais pessoas, mas existe um medo. Não fico triste por não ter feito, mas talvez eu ainda faça um dia.

UOL Comportamento: Nas suas experiências, você percebeu que os homens ainda têm vergonha de algumas práticas sexuais?
Nádia: Os homens ainda acreditam que ter prazer anal fere a masculinidade deles e que não se deve ter prazer nessa região. Se eles permitirem que você toque na região, pensam que serão considerados gays por causa disso. 

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UOL Comportamento: No livro você diz que “não há segredos para uma boa transa” e que só não se pode ter preguiça ou nojo. Só isso garante satisfação no sexo?
Nádia:
Pode não ser maravilhoso, porque para ser ótimo precisa ter uma química que eu não sei explicar como acontece. Mas para ser bom, é só estar disposto. Tive um parceiro que não me beijava depois que eu fazia sexo oral nele. Se as pessoas se preocuparem mais em dar carinho para o outro, podem melhorar muito. Espero que melhorem, porque fazemos sexo muito mal. Temos que ter menos pressa em chegar ao orgasmo. O homem chega ao orgasmo, a mulher finge que chegou e eles acham que foi bom, mas não foi nem sexo, foi o que eu chamo de masturbação acompanhada. 

UOL Comportamento: A mulher também não cria empecilhos para que o sexo não seja bom?
Nádia: Às vezes, a mulher tem nojo de si mesma, não permite sexo oral porque não está depilada, fica preocupada com mil coisas. Mas não é culpa dela, é culpa da sociedade que exige que a mulher seja perfeita. 

UOL Comportamento: O homem não tem esse problema?
Nádia: Não tem. Eu me preocupava a ponto de pensar se a unha do pé estava feita. Vejo homens falando de algumas coisas, mas, na prática, eles não deixam de transar por causa delas. A gente se preocupa muito com a perfeição. 

UOL Comportamento: Qual a maior mudança pela qual você passou durante esse período?
Nádia: Antes achava que a monogamia era obrigatória. Se você gostava só de uma pessoa ia querer ficar só com ela. Depois percebi que estive a fim de mais de um cara, eu respeitava os dois, gostava de ambos, e não queria abrir mão de nenhum. Vou levar para a vida inteira essa descoberta de que é possível gostar de mais de uma pessoa ao mesmo tempo e se divertir com as duas. No aspecto mais prático, estou mais leve, fiquei menos "cricri". Só tenho coisas positivas para falar sobre essas experiências sexuais. O que doeu foi a reação.

 

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