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Idosos podem ser mais suscetíveis a trapaceiros, diz pesquisa

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Idosos não reagem rapidamente a indícios visuais que sugerem que uma pessoa pode não ser confiável imagem: Thinkstock

Judith Graham

The New York Times News Service/Syndicate

Existe uma razão pela qual muitas pessoas mais velhas caem em golpes financeiros, sugere uma nova pesquisa. Elas não reagem tão rapidamente a indícios visuais que sugerem que uma pessoa pode não ser confiável, e seu cérebro não envia sinais de alerta suficientes para indicar um perigo potencial à frente.

A pesquisa, publicada na semana passada no periódico "Atas da Academia Nacional de Ciências", é a primeira a mostrar que a vulnerabilidade dos idosos às fraudes pode estar enraizada em mudanças neurológicas relacionadas à idade.

Especificamente, pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, descobriram que uma área do cérebro conhecida como a ínsula anterior não se manifesta quando pessoas mais velhas veem fotografias de indivíduos de aparência suspeita. Essa parte do cérebro ativa sentimentos instintivos que ajudam os indivíduos a interpretar a confiabilidade de outras pessoas e a avaliar os possíveis riscos e benefícios associados às interações sociais.

Em uma das partes do estudo da UCLA, adultos jovens e idosos foram convidados a avaliar a confiabilidade de pessoas retratadas em 60 fotografias, enquanto se submetiam a exames cerebrais. Quando os adultos mais jovens (21 ao todo, com idades entre 23 e 46 anos) identificavam uma pessoa como "não confiável", a sua ínsula anterior se iluminava. Mas isso não ocorreu no caso dos adultos mais velhos (23 no total, com idades entre 55 e 80 anos).

 

"Os sinais de alerta que transmitem uma sensação de perigo em potencial para os adultos mais jovens simplesmente não parecem existir no caso dos adultos mais velhos", disse Shelley Taylor, principal autora do estudo e professora de Psicologia da UCLA.

Em outra parte do estudo, os pesquisadores pediram que 119 idosos (com idades entre 55 e 84 anos) e 24 adultos jovens (com idades entre 20 e 42 anos) classificassem as pessoas em fotografias como confiáveis, neutras ou não confiáveis. Sinais de que elas eram potencialmente pouco confiáveis incluíam sorrisos falsos, olhares fugidios e posturas "inclinadas", que não se voltavam para a câmera, entre outros, disse Taylor.

Segundo o estudo, os adultos mais velhos foram igualmente hábeis em identificar as pessoas julgadas confiáveis ou neutras, mas muito mais propensos a não perceber sinais que indicam quem pode não ser confiável e a considerar as pessoas de aparência suspeita como amigáveis.

"Nós acreditamos que o que acontece é que os adultos mais velhos têm uma tendência a ter experiências emocionais positivas e isso os impede de reconhecer sinais negativos", disse Taylor.

Esse chamado "efeito de positividade" foi documentado por uma pesquisa de Laura Carstensen, professora de Psicologia e Políticas Públicas em Stanford, e explica por que os adultos mais velhos são, em geral, mais felizes do que os adultos mais jovens.

Ao comentar sobre o novo estudo via e-mail, Carstensen disse que a pesquisa foi "muito bem feita", e observou que no caso dos adultos mais velhos, "olhar para o lado positivo provavelmente traz muitos benefícios. No entanto, há provavelmente alguns contextos em que deixar o lado negativo passar batido e focar no positivo não é bom", incluindo golpes e fraudes financeiras.

Alexander Todorov, professor de Psicologia na Universidade de Princeton, considera as descobertas "interessantes", mas advertiu que "não há um pressuposto implícito de que essas avaliações de confiabilidade baseadas na expressão facial são precisas. Isso está longe de estar claro".

Taylor ficou bastante a par das fraudes financeiras contra idosos há quase 20 anos, quando seu pai entregou 17 mil dólares a dois homens que se aproximaram dele na rua e foram com ele até o banco.

"Eu consegui descrições dos dois homens com alguém que vivia nas proximidades –um deles tinha poucos dentes, ambos estavam vestidos de forma desleixada, eram vistos dormindo em vãos de portas e usando o centro de reabilitação de drogas das proximidades", disse Taylor por e-mail.

Em outras palavras, eles seriam vistos com desconfiança pela maioria das pessoas, mas não foram vistos dessa forma pelo pai de Taylor.

Estatísticas mostram que a exploração financeira dos idosos está em alta. De acordo com um estudo publicado no ano passado pelo Instituto de Mercado Maduro MetLife e o Comitê Nacional para a Prevenção de Abuso de Idosos, o abuso financeiro de idosos –que pode envolver saques fraudulentos de contas bancárias esvaziadas por tutores– totalizou 2,9 bilhões de dólares em 2010, um aumento de 12% em relação ao índice registrado apenas dois anos antes.

 

No início deste ano, o Gabinete de Transparência do Governo dos Estados Unidos opinou sobre a questão, observando a inadequação das salvaguardas existentes e reivindicando uma nova estratégia nacional para lidar com o problema.

Recentemente, o Centro Nacional de Prevenção de Abuso de Idosos e o Localizador Eldercare, um serviço federal que ajuda adultos mais velhos e cuidadores a encontrar programas e agências locais, publicou o "Proteja seu bolso", um guia do consumidor destinado a adultos mais velhos e seus familiares que desejem entender o que os coloca em risco, maneiras de evitar fraudes e saber onde procurar ajuda.

Quanto a Taylor, ela aconselha que os idosos nunca aceitem de imediato uma oferta feita por telefone ou por um vendedor de porta-em-porta. "Desligue o telefone ou espere até que alguém com quem você tem envolvimento avalie o que está sendo apresentado", disse ela.

No caso de fraude financeira, os idosos acabam sendo enganados por um cuidador ou alguém que se faz passar por amigo em quase 50% das vezes. "Tenha absoluta certeza de que você averiguou cuidadosamente quem são as pessoas que tomam conta de um parente mais velho", assim como qualquer outro "amigo novo e surpreendente" de quem você nunca ouviu falar antes e que apareceu recentemente, diz ela aos familiares dos idosos.

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