Sexo

Adultos usam chupeta e se vestem como bebês para ter prazer

Lumi Mae/UOL
Apesar da prática ser confundida com pedofilia, infantilismo não envolve crianças imagem: Lumi Mae/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Todas as tardes, quando fica sozinha em casa, a universitária paranaense Bianca Fofinha*, 23 anos, se entrega a dois prazeres solitários: chupar chupeta e beber leite na mamadeira, como se fosse uma criança pequena. O funcionário público Kiko Fraldinha*, 34 anos, de Viçosa (MG), também aproveita os momentos de solidão em casa para usar pijamas infantis e fraldas.

Sozinhos, cada um no seu espaço, Bianca e Kiko vivem clandestinamente as sensações comuns aos praticantes do infantilismo: satisfação, medo, timidez, acanhamento. Pouco abordado, o assunto costuma suscitar preconceitos e ideias equivocadas, até entre os praticantes.

"Sempre quis ter e usar coisas de bebê, mas somente há seis meses descobri que isso se chamava infantilismo. No começo, sentia um pouco de vergonha, mas conversando com outros infantilistas na internet vi que isso não faz mal a ninguém e só diz respeito a mim", conta Bianca que, como todos os entrevistados para essa reportagem, prefere se manter sob o anonimato do codinome que usa na rede.
 

  • Arquivo pessoal

    O funcionário público de 34 anos Kiko Fraldinha gosta de usar pijama infantil, chupeta e fralda

infantilismo não é pedofilia
 

A primeira concepção errada é achar que o infantilismo tem a ver com pedofilia. Para começo de conversa, embora provoque excitação sexual na maior parte das pessoas que pratica, nem sempre o infantilismo inclui sexo –nem mesmo masturbação–, a exemplo da rotina de Bianca e Kiko. Trata-se de uma parafilia, nome dado ao padrão de comportamento sexual em que a fonte predominante de prazer não se encontra na transa em si, mas em outras atividades ou fetiches.

Segundo a terapeuta sexual Isabel Delgado, membro da Sbrash (Sociedade Brasileira de Estudados em Sexualidade Humana), o infantilismo é o desejo do indivíduo de ser tratado como um bebê no sentido literal da palavra. "Alguns praticantes acham que se trata de um fetiche, mas grande parte dos profissionais de saúde acredita que é uma psicopatologia. O sexo nessas circunstâncias não tem nenhuma relação com a pedofilia, pois não envolve crianças, e sim adultos que se vestem de bebês, com fraldas, chupetas, mamadeiras etc.", explica. 

O psicólogo e terapeuta sexual Oswaldo Martins Rodrigues Jr., diretor do Inpasex (Instituto Paulista de Sexualidade), diz que, além das práticas a sós, existem jogos a dois. "Uma pessoa assume o papel da criança e a outra se encarrega de ser a cuidadora, aquela que vai trocar as fraldas, dar a mamadeira, passar talco, aplicar pomada etc.”, conta.

"Sou casado e minha mulher também é minha mamãe. Ela cuida de mim como se eu fosse o seu bebê e somos muito felizes nos relacionando desse jeito", diz o administrador de empresas carioca Caliel Negra*, 30 anos. 
 

Prática comumente masculina
 

  • Arquivo pessoal

    Bobby Shark mantém um blog na internet para compartilhar experiências sobre infantilismo

O infantilismo é mais frequente entre homens, independentemente da preferência sexual. Alguns casos podem ser relacionados a traumas de infância ou à falta de afeto e atenção por parte dos pais decorrente de diversos fatores, em especial a chegada de um irmão. 

Um exemplo comum é da criança maior (às vezes até na pré-adolescência) que começa a regredir nas atitudes, consciente ou inconscientemente, como voltar a fazer xixi na cama. O hábito ganha continuidade na vida adulta. Uma terapia é bem-vinda, não necessariamente para acabar com a mania, mas para aprender a entendê-la e a lidar melhor com ela. 
 

BDSM

 
O infantilismo também está ligado ao universo BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação e Submissão, Sadismo e Masoquismo). Muitos adeptos curtem jogos em que são "forçados" a bancar o bebê ou em que os cuidadores têm perfil mais hostil. Alguns infantilistas fazem de fato as necessidades fisiológicas nas fraldas que usam.

A especialista Isabel Delgado afirma que a maioria dos praticantes têm dificuldade de falar sobre isso e tentam manter uma rotina profissional e social discreta.

"Na questão afetiva, a revelação do estilo de vida a um novo parceiro muitas vezes provoca rejeição e rompimentos", diz. "A pessoa vive com um segredo e faz mil manobras para mantê-lo. Quem não tem filhos ou crianças na família precisa sempre esconder os utensílios infantis quando recebe uma visita", exemplifica Oswaldo Rodrigues, autor do recém-lançado "Parafilias" (Ed. Zagodoni).

Internet para socializar

A busca na internet por companhia para praticar os jogos ou simplesmente para trocar ideias e desabafar é comum. Mas mesmo no plano virtual, os infantilistas não são imunes às críticas e à incompreensão. "Nem todo mundo entende. Recebo muitos xingamentos via internet, me chamando de coisas horríveis, como pedófilo e retardado mental. Não ligo, vivo minha vida sem prejudicar a mim mesmo ou aos outros", diz o designer gráfico paulistano Bobby Shark, 30 anos, do blog "Um Bebê Tubarão".

"Acho engraçado o fato de que é relativamente normal as pessoas conversarem sobre fantasias sexuais e brinquedos como algemas e vibradores, enquanto usar fraldas e chupetas é um ato visto como um crime bizarro", diz Bobby.

Embora todos os entrevistados afirmem que somente poucas pessoas de seu círculo de amizades conheçam esses hábitos (muitos não os revelam nem para a família), todos também dizem que vêm se sentindo cada vez mais à vontade com os próprios gostos.

"Eu me via diferente das pessoas durante um bom tempo, o que era bem desagradável, mas nunca senti culpa por ser infantilista. Sei que esse diferencial me torna uma pessoa melhor e isso me deixa muito feliz. Não é uma prática ilegal, no máximo é incomum. E sei que ninguém infringe a lei por usar fraldas, vestir roupas infantis ou ter uma dieta mais rica em legumes e papinhas", declara Caliel.

 
*Os nomes verdadeiros não foram revelados a pedido dos entrevistados
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