Vida no trabalho

Trabalhar demais pode ser forma de mascarar vida pessoal infeliz

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Criar expectativas e dar um peso muito grande ao trabalho gera mais ansiedade, autocobranças e culpa imagem: Thinkstock

Andrezza Czech

Do UOL, em São Paulo

Pense em qual seria seu emprego dos sonhos. Agora, imagine que você conseguiu conquistá-lo. Parece que nada mais irá preocupá-lo, certo? Errado. Com o passar do tempo, é inevitável sofrer uma frustração ao descobrir que não há empresa livre de problemas --ou de chefes ruins e que não vão com a sua cara. Quando se trata de algo tão idealizado, a decepção sempre é maior. Além disso, a grande paixão pelo trabalho pode levar a uma dedicação excessiva e problemática.

“Amar o trabalho pode levar o profissional a ter mais energia e satisfação, mas tudo que é em excesso é negativo. É preciso tomar cuidado para não depositar todas as fichas no emprego”, diz a professora Renata Maglioca, do Progep (Programa de Estudos em Gestão de Pessoas) da FIA-USP (Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo). “Quando se coloca muita expectativa, ele acaba tendo um peso enorme na sua vida, o que costuma gerar ansiedade, autocobranças e culpa, caso algo não saia como o planejado”, diz.

Por amar demais sua ocupação, é comum que a pessoa se culpe demais a cada erro cometido, vire a noite no trabalho e deixe familiares e amigos em segundo plano. Para a psicóloga e psicanalista Blenda de Oliveira, membro da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo), se a pessoa é viciada em trabalho e não consegue criar outras áreas de prazer na vida, ela volta toda a sua energia para o trabalho. "Isso leva a um nível de estresse e a uma solidão muito grandes, pois não existe nada além do emprego", diz.

Dedicação para compensar outras áreas

A dedicação excessiva pode ser sinal de que algo não vai muito bem na vida pessoal, segundo Blenda. “Às vezes, a pessoa trabalha muito para fugir de uma crise, para não se relacionar com os outros. O trabalho acaba sendo uma proteção”, diz.

Segundo Lucia Oliveira, pesquisadora e professora de Recursos Humanos e Comportamento Organizacional do Ibmec do Rio de Janeiro, é comum que pessoas com a vida pessoal insatisfatória transfiram todas suas expectativas para o trabalho. “Sem perceber, ela pode se dedicar demais não por amar o trabalho, mas por não estar contente com a vida. Para compensar a falta de algo, a pessoa fica tão absorvida pela profissão que se esquece da vida pessoal, que acaba sendo ainda mais prejudicada”, afirma.

Como não deixar que o sonho vire pesadelo

Ao receber a oportunidade de trabalho dos sonhos, é preciso ter maturidade profissional e se preparar antes que ele se torne um pesadelo, segundo a psicóloga Ana Cristina Limongi-França, professora do departamento de administração da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) da USP, diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gestão da Qualidade de Vida no Trabalho e coordenadora da FIA. “É preciso ter uma preparação para amar demais, senão você entra em estafa, adoece, sua produtividade cai e você rompe vínculos com pessoas importantes”, afirma. “Dedicar-se é ótimo, mas é preciso avaliar os limites para não se esgotar”.

Ter a noção de que você certamente sofrerá alguma frustração e engolirá sapos em certos momentos também é importante, segundo Blenda. “As coisas nunca são do jeito que a gente deseja e imagina. Para evitar o trauma, a pessoa pode se preparar melhor, levantar vantagens e desvantagens do trabalho e como ela poderá lidar com isso. Essas reflexões, inclusive sobre possíveis pontos negativos, prepararão você para as frustrações que virão”, diz. Ter uma visão romantizada do trabalho é um problema, porque o emprego dos sonhos pode não dar certo, segundo Blenda. "Isso não é ser pessimista, é ter uma visão mais ampla”, diz ela.

Para evitar o estresse e a frustração, o ideal é encontrar um emprego que você goste muito, mas que não seja seu único canal de satisfação. Para Lucia, do Ibmec, é fundamental equilibrar outras áreas da vida. “Não devemos nos esquecer da família, dos amigos, de ter um hobby e momentos de lazer. Ter uma só preocupação e um núcleo de contatos pode ser problemático”, afirma.

Renata acredita que é importante aproveitar as horas longe do escritório para fazer cursos que não tenham relação com sua ocupação. “Vejo que profissionais de sucesso não são bitolados naquilo que fazem, eles conseguem estar conectados com pessoas diferentes fora do ambiente de trabalho”, afirma. "Conheça pessoas com outras carreiras. Profissionais inovadores e criativos estudam temas que não têm a ver com o dia a dia de trabalho. Isso amplia a mente e traz soluções diferentes para problemas que acontecem até mesmo no trabalho", diz.

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