Equilíbrio

Pessoas desconfiadas como André temem se entregar, diz especialista

João Cotta/TV Globo
O participante do "BBB13" André, eliminado do programa na terça-feira (19) imagem: João Cotta/TV Globo

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo


Desde o início do "BBB13", as atitudes do empresário André, 24, em relação a Fernanda, 26, chamaram a atenção do telespectador. O romance do casal contou com beijos ardentes, sorrisos, lágrimas e muita discussão, principalmente por causa da indecisão do rapaz em assumir seus sentimentos pela advogada, que sempre deixou claro que queria namorá-lo.

O jeito arredio e relutante do amado chegou a suscitar na moça a ideia de que, talvez, ele tenha sofrido algum trauma afetivo. André desconfiava das ações e intenções de Fernanda e dos colegas de confinamento o tempo todo. Numa festa, por exemplo, suas atitudes deram a entender que ele acreditou que Fernanda havia beijado Nasser na boca. Após a eliminação, Pedro Bial perguntou ao empresário sobre o episódio (cuja cena foi repetida e "congelada" algumas vezes no programa), mas ele negou que tivesse pensado isso.

Às vésperas do paredão que o eliminou e separou o casal, André assumiu que não consegue confiar em ninguém –comportamento que certamente influenciou o público que o eliminou com 74,37% dos votos. Infelizmente, viver com o pé atrás em relação aos outros não é exclusividade de quem está confinado, participando de um jogo que vale R$ 1,5 milhão. Muitas pessoas sofrem, diariamente, por achar o tempo todo que alguém vai lhes passar a perna, trair ou fazer mal. É possível, sim, se livrar desse comportamento e levar a vida de um jeito mais leve: o primeiro passo é tentar buscar as origens do problema.
 
De acordo com a psicóloga Suzy Camacho, as suspeitas de Fernanda têm fundamento. "Quem tem dificuldade em confiar pode ter vivido uma decepção muito grande, que provocou um trauma, ou presenciou alguém muito querido passar por isso. A partir daí, desenvolver a desconfiança é uma maneira de se defender e evitar vivenciar tudo novamente", afirma.


Outra possível explicação está na educação dada pelos pais. Se eles são do tipo que incutem na cabeça dos filhos que não se pode confiarf em ninguém, provavelmente as crianças se tornarão adultos temerosos.

"Na infância, pai e mãe são nosso alicerce. Tudo o que nos ensinam é encarado como verdade absoluta e para o resto da vida. É difícil contrariar esse aprendizado", diz Suzy. Os laços estabelecidos entre a mãe e o bebê, o chamado "apego seguro" pela psicologia, também são indispensáveis para a construção da personalidade e da autoestima.
 
A personalidade insegura e a baixa autoestima também estão por trás da desconfiança. "Pessoas com esse perfil costumam desconfiar de si mesmas", diz a psicóloga Sandra Samaritano. "Elas não se entregam às relações simplesmente porque não sabem como agir, não confiam nas próprias atitudes. Então, transferem para o outro a responsabilidade por seus receios", explica. 

Segundo Cristiane Pertusi, psicóloga e coach, confiar, de certa forma, é depender, estar nas mãos de alguém. "E para confiar em alguém é preciso também confiar em si mesmo e estar seguro da forma como vai lidar com esse vínculo. Quem não confia tem sempre vínculos afetivos precários. É por isso que André e Fernanda vivem uma espécie de jogo entre ‘gato e rato’. Quando ele se sente mais próximo dela, decide recuar, para não perder o controle", afirma a especialista.
 

Identificar o histórico e o mecanismo que rege a situação ajuda muito a se livrar da desconfiança exagerada. Suzy Camacho diz, ainda, que se a própria pessoa não é muito confiável –vive procurando uma oportunidade de se dar bem em cima dos outros, por exemplo– há grande chance de ser desconfiada, pois entende perfeitamente como os outros podem usar de má fé. 
 
Analisar e exercitar o autoconhecimento, porém, não bastam. É necessário, diariamente, combater as próprias crenças. "Comece a observar mais as pessoas. Tente perceber que existem amigos, familiares e potenciais parceiros que merecem um voto de confiança. Afinal, uma coisa é se prevenir; outra é não se relacionar", diz Suzy, que diz que os excessivamente desconfiados acabam isolados. "Ninguém quer por perto alguém melindrado", completa.
 
Lembrar-se de atitudes positivas e elogios alheios quando bate a insegurança é uma maneira de recuperar a fé nos outros e fortalecer a autoestima. Perdoar quem quer que seja que tenha causado mágoa em alguma circunstância da vida também é positivo. Outra recomendação é assumir o controle dos pensamentos –quando tiver uma má impressão ou duvidar de alguém, é bom avaliar os motivos que conduzem à essa sensação.

"Dar uma chance ao outro é dar uma chance a si mesmo", conta Cristiane Pertusi. É óbvio que não é para partir para o extremo e se tornar uma espécie de Pollyana, clássica personagem da literatura norte-americana que só sabia ver o lado bom das coisas. "O ideal é olhar as pessoas e as situações por inteiro, em cada ângulo, sem idealizar ou desconfiar demais. Aprender a fazer essa análise conduz à maturidade emocional e ajuda a ter um cotidiano mais adaptável e sociável", fala Cristiane.
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