Vida no trabalho

Ambição demais pode destruir uma carreira promissora

Orlando/UOL
A ambição, quando não é exagerada, é positiva e é vista com bons olhos pelas empresas imagem: Orlando/UOL

Luciana Mattiussi

Do UOL, em São Paulo

As histórias de ambição desenfreada são comuns na ficção, e o personagem ganancioso, quase sempre, acaba mal. Na vida real, pessoas que têm essa característica também têm tudo para ter um final infeliz. E não é errado ambicionar promoções e aumentos salariais. Ao contrário: a ambição é valorizada pelas empresas. Mas, quando passa dos limites, deixa de ser qualidade e passa a ser defeito, prejudicando o profissional que, mesmo tendo talento e boas chances de crescimento, acaba malvisto no trabalho e até no mercado em que atua.

 

A importância da ambição

 
"A ambição faz bem. No cenário atual do mundo corporativo, onde impera o dinamismo e a inovação, não enfrentar desafios não é a melhor escolha.  Se não houver ambição, a tendência de acomodar-se é maior. Para quem anseia um lugar de destaque no mercado é necessário assumir riscos", diz Fernanda Campos, diretora-executiva de desenvolvimento de negócios da Mariaca, empresa de recrutamento de profissionais e consultoria de carreira.
 
Ao concordar sobre a importância da ambição profissional, Sílvio Celestino –sócio-fundador da Alliance Coaching– explica que ela é um dos propósitos de uma corporação. "Toda empresa quer crescer, assumir novas responsabilidades. Portanto, se o profissional não se preocupa em se desenvolver, está desalinhado com a empresa e acabará perdendo o emprego. Tem gente que só consegue trabalhar em lugares pequenos justamente por causa da falta de ambição". 
 

De qualidade a defeito

 
Mas se a ambição é estimulada no ambiente corporativo, como saber quando ela passa a ser prejudicial? A resposta é simples: quando a pessoa deixa a ética de lado e quer se dar bem a qualquer preço. Nesta caso, a ambição se transforma em ganância. "É uma qualidade quando serve para direcionar a pessoa, definir objetivos. A ambição é propulsão para vencer na vida, ao contrário da ganância, que cega a pessoa para valores morais e éticos", explica a psicóloga e psicoterapeuta Triana Portal, pós-graduada em Psicologia Clínica na USP e com extensão na Emory University, nos Estados Unidos. 
 
 
A ambição também se torna uma característica perigosa quando é controlada pelo ego, segundo o psicólogo Fábio Munhoz, membro do IPPA (International Positive Psychology Association) e conselheiro da APPAL (Associação de Psicologia Positiva da América Latina). "Se for invadida por questões do ego, da pessoa querer ser melhor e mais bem-sucedida de qualquer jeito, ela passa a ser perigosa. O ego faz com que a pessoa trace metas irreais, fazendo com que ela passe por cima do que é certo", fala. "Regido pelo egoísmo, o ganancioso passa a tratar os outros como peças a serem manipuladas", continua a psicóloga Triana.
 

Encontre o equilíbrio

 
Para saber se a ambição passou do normal e se tornou prejudicial ao próprio ambicioso, Fernanda Campos recomenda analisar três pontos: "Se o profissional pensa apenas em buscar a satisfação financeira; se há sobrecarga de tarefas e quando a obstinação e anseios são tão grandes que afetam sua qualidade de vida e seus relacionamentos".
 
Encontrar o equilíbrio em uma sociedade que promove a cultura do “levar vantagem” é difícil, mas não é impossível. "Muitos veem como normal explorar o outro em benefício próprio. A competitividade distorce a ética, principalmente quando a pessoa já sabe o gosto do sucesso, do dinheiro. Mas olhe ao seu redor e avalie o que você realmente tem. Seus filhos estão felizes? Você tem amigos? Tem tempo livre para o lazer e vida pessoal? É uma pessoa querida pela maioria das pessoas? Quem convive com você é o melhor termômetro para lhe dizer se suas atitudes são equilibradas", diz Triana.
 
 
 

Outro ponto fundamental é pensar em sua carreira sem esquecer de se imaginar no futuro. "A ambição deve ser realista, galgada em passos e as pequenas vitórias devem ser valorizadas. Escalone sua ambição e trace as metas sem pressa", afirma Fábio Munhoz. "Pense a longo prazo, pois uma pessoa de 30 anos, por exemplo, ainda tem muito tempo pela frente e a pior coisa que pode acontecer é descobrirem que ela não é ética. Inicialmente, o ganancioso pode até se dar bem, mas uma hora a situação se reverte", afirma Celestino.

Além de saber onde quer chegar sem atropelar etapas, é imprescindível sempre buscar conhecimento e melhorar as capacidades. "O equilíbrio certo vem com um bom planejamento ao longo de sua trajetória profissional, sempre monitorando a própria carreira e buscando constante aprimoramento", finaliza Fernanda Campos.

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