Sexo

Por que o brasileiro é tão fascinado pelo bumbum?

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Costumes do tempo da colonização e até religião podem ter influenciado o surgimento da paixão nacional imagem: Thinkstock

Márcio Padrão

Do BOL, em São Paulo

Independentemente do nome pelo qual é chamado --bumbum, bunda, nádegas, poupança, popô, traseiro etc.--, o fato é que muitos brasileiros há tempos não resistem ao charme dessa parte do corpo feminino, que teve lá sua parcela de importância para a cultura popular brasileira. Um dos exemplos mais antigos sobre o fenômeno vem de 1954, quando disseram que a então Miss Brasil Martha Rocha, referência de beleza da época, perdeu o título de Miss Universo para a americana Miriam Stevenson por conta de duas polegadas a mais nos quadris.

Passou Martha Rocha e veio Gretchen, Rita Cadillac, Carla Perez, Mulher Melancia e tantas outras que ficaram no imaginário masculino brasileiro por conta de seus fartos atributos. A nova geração dessa linha evolutiva de "popozudas" é o grupo de funk carioca Bonde das Maravilhas, que desde fevereiro acumula mais de seis milhões de visualizações no Youtube com o "Aquecimento das Maravilhas".  O vídeo mostra uma série de dancinhas feitas de formas variadas com o bumbum, como o "bumbumbum girando" e o pouco convencional "quadradinho de oito".

 

A historiadora e pesquisadora Mary del Priore, da Universidade Salgado de Oliveira, no Rio de Janeiro, levanta três hipóteses para esse fascínio dos brasileiros pela "preferência nacional". A primeira seria religiosa, pois desde o Concílio de Trento (encontro realizado de 1545 a 1563 pela Igreja que definiu diversos fundamentos do catolicismo) ficou proibido qualquer posição sexual que não fosse o homem por cima da mulher - o popularmente conhecido "papai-mamãe". "É possível que essa proibição tenha transformado a bunda em um lugar de desejo", teoriza a historiadora.

Genética

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A mulher brasileira é privilegiada nesse ponto por ter essa parte do corpo mais avantajada

Renata Frisson, a Mulher Melão, sobre os bumbuns do país

A segunda teoria remete aos costumes do tempo da colonização portuguesa. As mulheres andavam muito despidas, com camisolões, e a amamentação fazia do seio uma parte não muito desejável, enquanto o bumbum permanecia oculto pela roupa. A terceira suposição de Priore remete ao uso das anquinhas, uma armação que ficava por baixo do vestido e valorizava a parte posterior da mulher, estreitando a cintura e dando volume ao quadril.

O pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) em Psicologia Walter Poltronieri busca na psicanálise de Freud uma resposta: "Pode ser a dificuldade dos homens de ver a mulher por inteiro, daí a recorta e a vê em só uma parte. Há o exemplo das mulheres-fruta, que pegaram a isca de serem mulheres-objeto, ou seja, mulheres fracionadas. Pode ser uma estratégia pós-feminista, pois elas devem pensar: 'Eles vão me ver por uma parte corporal exagerada'. Não é só um objeto, mas uma parte comestível e barata, como são as frutas".

A modelo e dançarina Renata Frisson, conhecida como a Mulher Melão, discorda do psicólogo. "Isso não foi algo premeditado. Ganhei meu apelido do radialista Tino Júnior, daqui do Rio, porque na época eu já tinha um bumbum bonito, mas as mulheres não se vangloriavam de seus seios, e como eu já tinha 500 ml de silicone no busto, então eu os mostrava mais", explica Melão, que dá seu pitaco sobre o assunto bumbum: "Acho que eles são mania no Brasil porque a mulher brasileira é privilegiada nesse ponto por ter essa parte do corpo mais avantajada".

 

As novatas e a veterana

Formado por cinco adolescentes de Niterói, no Rio de Janeiro - a integrante mais velha tem apenas 20 anos - o Bonde das Maravilhas usa e abusa do bumbum no vídeo que revelou o grupo, mas o curioso é que as danças das meninas não parecem ter sido criadas com intenções sensuais. "Com a gente é diferente dos outros grupos, pois temos mais fãs crianças e mulheres. Os homens gostam de algo mais vulgar, mas a gente veio mais pra criar passinhos", explica a integrante Thaysa Maravilha, de 15 anos.

Arma de sedução

Juca Varella - 15.dez.1999 / Folhapress
Quando fui para o Chacrinha não pensei que o bumbum seria o diferencial, mas depois vi que sim

Rita Cadillac, ex-chacrete, sobre a parte do corpo que lhe deu fama

Uma referência até hoje no assunto bumbum, a ex-dançarina do programa "Cassino do Chacrinha" Rita Cadillac tem suas ressalvas sobre as funkeiras dos últimos anos. "Elas são uma continuação do que eu fazia, só que de forma mais apelativa", diz a musa de 58 anos, que tornou célebre a frase "Quando morrer, quero ser enterrada de bruços, para as pessoas me reconhecerem". Rita foi "chacrete" de 1974 a 1983, e não é raro seus fãs pedirem para beijar seu "derrière" quando a encontram na rua.

"Quando fui para o Chacrinha não pensei que o bumbum seria o diferencial, mas depois vi que sim", recorda. Dentre as histórias que já tiveram seu bumbum como protagonista, ela lembra com carinho dos beijos dos fãs, mas também de um momento negativo. "Uma vez dançando, um bêbado queimou meu bumbum com um cigarro, pois queria saber se era de plástico", descreveu, aos risos.

Perguntada sobre os motivos pelos quais o brasileiro gosta tanto de bumbum, Rita não tem uma resposta pronta. "Mas não é apenas brasileiro que adora bumbum, todo latino gosta", teoriza a musa, que acha os bumbuns de Ísis Valverde e da ex-BBB Fernanda os mais bonitos da atualidade. "E o meu", brinca.

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