Sexo

Quando o sexo é bom, o amor bate e fica? Especialistas respondem

André Rocca/UOL
Pessoas com baixa autoestima, carentes e inseguras são mais sujeitas a confundir sexo com amor imagem: André Rocca/UOL

Andrezza Czech

Do UOL, em São Paulo

Não é difícil entender por que muitas pessoas pensam que estão apaixonadas depois de uma boa noite de sexo. "Ninguém esquece uma boa transa, o impacto é grande", diz a psicóloga e terapeuta sexual Ana Canosa. O problema é quando a admiração pelo desempenho sexual do outro é confundida com amor e a pessoa beira à dependência dessa relação.  "Isso não só acontece com mulheres, como costumam pensar. Conheço homens que se apaixonaram após sessões de massagens tântricas”, conta Ana.

Conseguir desapegar dessa paixão depende da personalidade e do modo como a pessoa relaciona o sexo com a vida. Segundo a terapeuta, se o sexo é compreendido apenas como uma forma de prazer físico, as chances de se apaixonar após uma ótima noite são menores. Já se ela relaciona o sexo ao afeto, confundir sexo com amor se torna mais comum.

"Em nossa cultura, compreende-se que o sexo deveria ser parte do amor, por isso entra a expectativa de que a atividade sexual seja a expressão dele", afirma o psicoterapeuta sexual Oswaldo Rodrigues Jr, diretor do Inpasex (Instituto Paulista de Sexualidade).

Segundo Ana Canosa, as pessoas que mais sofrem deste tipo de paixão são aquelas com baixa autoestima, carentes e inseguras. "Existe a possibilidade que isso aconteça com qualquer um, mas, se a pessoa tem mais maturidade e não está fragilizada, consegue perceber em um segundo ou terceiro encontro se o outro é apenas um bom parceiro de cama ou se vale investir nessa paixonite", afirma.

Quando bate, fica?

Uma transa muito boa nem sempre desperta uma paixão, segundo a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e autora de ‘Tudo o que Você não Queria Saber sobre Sexo’. "Até mesmo em casos de infidelidade, o homem não diz que trai porque o sexo com a amante é maravilhoso, mas porque a outra tem qualidades: é delicada, bem-humorada, leve, divertida. E as mulheres também afirmam que dispensaram homens bons de cama por não serem carinhosos ou eram implicantes, entre outros problemas".

O sexo também não é o fator mais determinante para que as pessoas permaneçam em uma relação, segundo Mirian. "Para o homem o sexo é fundamental, mas eles não dizem que a mulher inesquecível na vida é a boa de cama, mas, sim, aquela com quem ele aprendeu alguma coisa, que fez com que ele crescesse e se sentisse melhor", diz. "E, para as mulheres, por mais que elas gostem de pegada, de se sentirem desejadas e atraentes, só o sexo não torna um homem inesquecível", afirma.

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Tem futuro?

É preciso que exista pelo menos um básico de atração física para que um relacionamento se mantenha, mas os casais que continuam ligados ao longo da vida geralmente são às custas de uma afinidade afetiva construída por cumplicidade e companheirismo, de acordo com a psiquiatra Carmita Abdo, professora da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora do ProSex (Programa de Estudos em Sexualidade da USP).

Segundo dados do estudo Mosaico Brasil, coordenado por Carmita em 2008 e que contou com mais de oito mil brasileiros entrevistados, 96% da população (homens e mulheres) consideram que a harmonia do casal depende de um bom relacionamento sexual. "Logicamente que ele não é o único fator, mas é considerado muito importante", diz Carmita.

Porém, de acordo com a pesquisa, 44,5 % dos homens e 46,5% das mulheres se consideram realizados afetivamente e sexualmente em seus relacionamentos. Declaram-se realizados apenas afetivamente 29,7% dos homens e 28,9% das mulheres e 15,8% dos homens e 8,7% das mulheres dizem estar satisfeitos apenas sexualmente. 4,4 %dos homens e 8,6 % dizem que não estão satisfeitos nem afetivamente nem sexualmente e 5,7% dos homens e 7,2 % das mulheres não souberam responder. 

Para Ana Canosa, uma boa noite de sexo pode até marcar muito, mas não é o suficiente. Segundo ela, as pessoas passam por três fases até amarem (ou não) o outro.

A primeira é o auge da paixão, quando o sexo é mais frequente e os amantes estão tão envolvidos que perdem a racionalidade e não conseguem ter a percepção de como o outro realmente é. Depois, quando a paixão diminui, começa-se a enxergar o outro de verdade, mas imagina-se que ele não era bem assim antes e surgem as tentativas de mudá-lo. A terceira fase é aquela em que a pessoa enxerga como o outro é e aceita que não irá mudar. E é nesse momento que se decide se irá amá-lo ou não. "O amor é uma escolha, implica em ter vontade de continuar querendo bem o outro. Durante a paixão é difícil perceber se você ama alguém”, afirma.

Segundo Rodrigues Jr., é possível que o amor se desenvolva a partir de emoções básicas, como as ocorridas durante o sexo. "A relação baseada apenas em emoções sexuais pode, com o tempo, transformar-se em afeto, desde que os envolvidos desejem isso", afirma.

Mas uma relação em que o principal motivador é o sexo dificilmente é duradoura, segundo Mirian. “Tantas outras coisas são mais importantes do que isso. As pessoas não passam o dia inteiro transando. As relações que ficam são as que têm admiração, respeito, delicadeza, carinho, cuidado com o outro e em que ambos crescem juntos”, diz.

Por outro lado...

Além do problema de confundir sexo casual com compromisso, enxergar o outro apenas como um bom parceiro de cama pode impedir a pessoa de iniciar um bom relacionamento. “Às vezes as pessoas se privam de conhecer mais o outro e de criar intimidade emocional. Pode ser que aquela pessoa boa de cama também seja ótima fora dela e vocês tenham outras coisas em comum”, diz Ana.

Mas nem só de desilusões é feita a paixão pelo desempenho sexual do outro. “Esse tipo de relacionamento ajuda a conhecer melhor o próprio corpo e a ter mais prazer”, diz Ana. “Isso aumenta a autoestima, porque você se sente mais desejado e sensual. Tanto homens quanto mulheres se sentem poderosos quando têm a companhia de alguém muito bom de cama”, afirma.

Para conseguir aproveitar apenas o que esse tipo de relação pode oferecer de melhor, o segredo é ter calma, segundo Ana. “É preciso saber separar, não sair jogando suas expectativas em alguém com quem você teve apenas uma boa noite de sexo”, afirma.

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