Comportamento

Novos arranjos familiares não são sinônimo de filhos traumatizados

Marco Antônio Teixeira/ UOL
O casal Boris e Monica conseguiu aproximar os três filhos dele à única filha dela imagem: Marco Antônio Teixeira/ UOL

Rita Trevisan e Thaís Macena

Do UOL, em São Paulo

O termo família "mosaico" ainda não é popular. Mas o modelo de união que ele expressa é cada vez mais reconhecido com naturalidade. Trocando em miúdos, estamos falando dos arranjos familiares em que os pais, já no segundo casamento, unem filhos das relações anteriores. Ou das famílias em que um dos pais assume uma orientação sexual diferente da vivida até então, partindo para uma nova relação.

Esses arranjos são fruto de um tempo em que as pessoas estão se sentindo mais livres para buscar a felicidade. "Há mais casais homossexuais, mais pessoas que se casam diversas vezes ou que optam por ficar sozinhas, com ou sem filhos. Os indivíduos estão mais comprometidos com a felicidade e menos preocupados em atender às expectativas dos outros", diz a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). "Família é, mais do que nunca, uma criação individual e não uma norma da sociedade".
 
É claro que o preconceito ainda existe. Porém, se compararmos o modelo de sociedade atual com o de 30 anos, veremos que já houve uma grande evolução. "As famílias 'mosaico' começaram a aparecer nos anos 1960 e 1970 e, hoje em dia, a criança cujos pais se unem pela segunda ou terceira vez geralmente já convive com outros jovens na mesma situação. Já não é mais novidade", diz a antropóloga.
 

Desafios à vista

 
Apesar das mudanças sociais, as famílias "mosaico", tanto quanto as tradicionais, também enfrentam seus desafios. A maior parte deles aparece no momento em que membros de composições familiares anteriores se aproximam e duram até que um novo vínculo seja criado.
 
Foi assim com a família do vendedor Gair Raimundo de Castro, de 58 anos. Há dez, ele se apaixonou por uma amiga que, na época, era mais jovem que a própria filha. A atual companheira tinha 22 anos e ele trazia, do casamento anterior, um filho de 18 e uma filha de 28. "No começo, houve um estranhamento. Meu filho aceitou facilmente, mas minha filha ficou mais resistente, chegou a tratar mal a Janete. Na ocasião, minha ex-mulher conversou com ela e a convenceu a pedir desculpas. O tempo fez o resto e hoje convivemos todos em harmonia", conta.
 
A manutenção de uma boa relação com os ex-cônjuges ajuda na adaptação dos filhos ao novo cenário familiar. O vínculo com o pai ou mãe que se unirá a um novo par também fará diferença. "Se a criança ou jovem tiver certeza de que continuará sendo amado e criado como antes, aceitará a situação de forma mais tranquila. O importante é que os filhos recebam toda a assistência de que precisam, que sejam ouvidos e possam se expressar",diz a psicóloga Maria Luísa Valente, professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho).
 
  • Marco Antônio Teixeira/ UOL

    Boris e Monica tiveram de administrar conflitos entre seus filhos no início, mas tudo ficou bem 

O diálogo também é importante para aparar as arestas que certamente surgirão em decorrência dos choques de cultura e de valores. Para lidar com esse tipo de dificuldade, o essencial é estimular todas as pessoas envolvidas no conflito a colocarem seus sentimentos de forma aberta e evitar impor um único ponto de vista. 

"Se possível, poderá se chegar a um consenso. Se não for possível, mesmo assim as crianças e adolescentes ficarão satisfeitos por terem sido ouvidos e entendidos, ainda que não tenham o poder de decisão", explica a psicóloga Tatiana Machiavelli Carmo Souza, professora da UFG (Universidade Federal de Goiás).
 
Na base da conversa, a designer de joias Monica Rosenzweig, de 46 anos, conseguiu aproximar a filha de sete anos dos filhos do novo companheiro, um menino de nove e duas meninas de 13 e 16 anos, respectivamente.

"No começo, eu e o Boris tínhamos de ficar intermediando os conflitos. Mas em pouco tempo os nossos filhos estavam resolvendo seus problemas entre eles mesmos, como irmãos. Fiquei até impressionada na primeira vez em que vi isso acontecer", lembra. 
 

Diferenças enriquecem

 
  • Arquivo pessoal

    Debora (esq.) conta que a filha Marina (dir.) levou um ano para se habituar ao padrasto

É preciso considerar, ainda, que o contato com referências diferentes não é ruim. Conviver com pontos de vistas divergentes pode ser extremamente enriquecedor e colaborar para a formação de pessoas mais flexíveis e tolerantes.
 
Para que todos os envolvidos saibam lidar com as novidades trazidas pelos novos membros da família, no entanto, é fundamental deixar o tempo passar e ter paciência até observar os primeiros resultados positivos desse encontro.
"No começo, é natural que os filhos fiquem mais agressivos. Depois, ao perceberem a felicidade dos pais na nova união, é que eles geralmente começarão a ceder. Só que a satisfação com o novo relacionamento é algo que os pais vão transmitir aos seus filhos por meio de suas atitudes, no dia a dia, e que dispensa sermões", pondera Tatiana.
 
Para Debora Dividino Simão, de 43 anos, a receita funcionou. "Quando eu decidi me casar pela segunda vez, minha filha, na época com 16 anos, não aceitou. Demorou mais ou menos um ano para ela se acostumar, de fato, com o Paulo. Hoje em dia, os dois conversam sobre tudo e se dão muito bem", conta a chef, que também é mãe de um garoto de cinco anos, fruto do novo casamento. 
 

A união faz a força

 
  • Leonardo Soares/UOL

    Maria Luiza, filha de Giovana (à dir.) encarou numa boa a relação da mãe com Lia (esq.)

Independentemente da habilidade da própria família em lidar com seus conflitos internos, é preciso estar preparado para enfrentar os ataques que podem vir de fora, direcionados, principalmente, às crianças. O bullying no ambiente escolar, por exemplo, pode afetar os filhos de pais homossexuais. "O fundamental é que os próprios pais conversem com seus filhos sem nenhum receio. Nesse momento, quanto mais unida a família estiver, mais facilidade eles terão de superar o desafio", diz Mirian.
 
Na família de Giovana Amaral, assistente de produção, de 24 anos, a adaptação a um novo modelo de relacionamento ocorreu tranquilamente, a despeito das críticas que vieram de outros parentes. Mãe de uma garotinha de quatro anos à época, a Maria Luiza, Giovana desistiu de um relacionamento heterossexual para se unir a uma companheira, Lia Braga.

Para explicar à filha a mudança, ela procurou tratar o assunto com o máximo possível de naturalidade. "Tentei explicar o que tinha acontecido de um jeito que ela pudesse entender. E como ela não tem tantos preconceitos quanto os adultos, aceitou numa boa", conta. Para preservar a filha, ela também teve o cuidado de matriculá-la numa escola em que a sua orientação sexual não fosse sequer discutida, quanto mais discriminada. 
 
Para a antropóloga Mirian Goldenberg, o importante é que os filhos dessas uniões não sejam vistos como diferentes dentro de suas próprias casas. “É preciso mostrar a essas crianças e adolescentes que todas as famílias, mesmo as mais tradicionais, enfrentam dificuldades. E superá-las é uma forma de crescer e amadurecer", finaliza.

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