Comportamento

Sonhar ajuda no autoconhecimento, mas os significados são individuais

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Tanto para a neurociência quanto para a psicanálise, sonhos são um reflexo das experiências pessoais de cada um imagem: Thinkstock

Marina Oliveira e Rita Trevisan

do UOL, São Paulo

Quem nunca se pegou tentando compreender a razão de ter um mesmo sonho várias noites seguidas que atire o primeiro travesseiro. O desejo de entender melhor o que são essas experiências intriga a quase todo mundo e, mesmo para quem estuda o assunto, nas diversas áreas da Medicina, os sonhos ainda estão repletos de mistérios. 

Segundo a neurociência, os sonhos são produzidos a partir das nossas vivências diárias, carregam recordações emocionais e até suposições sobre o futuro. De acordo com esses estudiosos, a principal função do sonho é contribuir para a fixação da memória e para a consolidação do aprendizado que tivemos durante o dia. São quatro as fases do sono, mas é só na última que os sonhos acontecem. "Se forem subitamente acordadas na chamada fase REM, mais de 80% das pessoas dirão que estavam sonhando", afirma Shigueo Yonekura, neurologista especializado em sono. 
 
Já na visão da psicanálise, sonhos são manifestações do inconsciente fundamentais para manter o equilíbrio psíquico e garantir uma boa noite de sono. "Quando dormimos, a mente relaxa e suas defesas baixam a guarda. Com isso, preocupações, ansiedades, medos e aflições acumulados, e postos de lado para o cumprimento das tarefas do dia a dia, reaparecem", explica a psicanalista Elsa Susemihl. "Um trabalho psíquico chamado de onírico, então, produz sonhos que acabam funcionando como uma espécie de válvula de escape para todas essas emoções conturbadas", completa. 
 
Segundo essa lógica, pesadelos são os sonhos que se desviaram de sua função e, em vez de propiciar uma noite tranquila, acabam deixando-a mais agitada. "Quando uma pessoa tem pesadelos repetidos e frequentes, ela provavelmente está mentalmente sobrecarregada", afirma a psicanalista. Por outro lado, sonhos ruins também podem ser consequência de uma sensação física incômoda. "Um desconforto que temos durante a noite pode aparecer no sonho. A apneia do sono, por exemplo, que causa sufocamento, pode fazer com que a pessoa sonhe que está se afogando", esclarece Luciano Ribeiro, neurologista do Instituto do Sono. 
 
 
Todo mundo sonha
Por mais que você não se lembre das imagens que passaram pela sua mente durante o sonho, tenha certeza: você sonhou. "Ninguém escapa dos sonhos, a não ser quem está sob efeito de medicação ou outros tipos de drogas, que podem influenciar na capacidade de atingir a fase REM", afirma Yonekura. O que varia é o quanto se sonha.
 
A fase REM representa 20 a 25% do tempo total de sono de um adulto jovem e surge em intervalos de 60 a 90 minutos. Ou seja, se a pessoa dormiu oito horas seguidas, passou cerca de duas horas sonhando. "O indivíduo pode sonhar de quatro a cinco vezes na mesma noite", garante Fernando Gomes Pinto, neurocirurgião do Hospital das Clínicas, de São Paulo. Ao longo dos anos, porém, esse ritmo diminui. "Enquanto um recém-nascido passa 50% das horas de sono sonhando, uma pessoa com 60 anos tem apenas 10% de sono REM", compara Yonekura. 
 
A dificuldade de lembrar dos sonhos quando acordamos também tem explicações variadas. "Durante a noite, diminui a liberação de serotonina, neurotransmissor responsável pelo controle da memória", diz o neurologista. Já de acordo com a psicologia, o motivo seria o nosso autocontrole recuperado. "Quando acordamos, todos os nossos mecanismos de defesa psíquicos voltam à ativa", justifica Elsa. 
 
A interpretação dos sonhos
Para Freud, as vontades mais profundas vêm à tona enquanto dormimos. "É nos sonhos que nossos desejos latentes, aqueles que não podem ser efetivados por conta das normas de conduta na sociedade, se apresentam de forma simbólica", destaca João Oliveira, psicólogo e autor do livro "A Importância Dos Sonhos" (Wak Editora). Por isso, os seguidores do pai da psicanálise entendem que interpretar essas imagens é uma importante ferramenta para ampliar o autoconhecimento. 
 
"Tudo que sonhamos faz referência à nossa memória, ao que vivemos e desejamos. Porém, a linguagem utilizada pelo sonho é a do inconsciente, que tem uma lógica própria e diferente daquela que conhecemos e que rege os processos mentais conscientes", detalha Elsa. "Podemos desvendar significados dos sonhos interpretando as associações que a pessoa faz a respeito do que sonhou. Assim, conseguimos nos aproximar das ideias inconscientes, do sentido do sonho", garante. 
 
Mas interpretar sonhos a partir de manuais ou dicionários de significados, sem a ajuda de um especialista, é discutível, já que eles são retratos do inconsciente individual. "Não é uma coisa tão simples como a maioria das pessoas pensa. Um bom analista de sonhos deve entender primeiro o que os símbolos significam para aquele sujeito, para depois, num segundo estágio, tentar associar o conteúdo com as referências que vêm da sociedade onde aquele sujeito está inserido", pontifica Oliveira. 
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