Equilíbrio

Sair do armário é difícil, mas pode gerar menos fofoca do que ficar nele

Orlando/UOL
Para psiquiatra, sair do armário não impede que comentários sejam feitos, mas permite viver de maneira plena a sexualidade sem se importar com fofocas imagem: Orlando/UOL

Fábio de Oliveira

Do UOL, em São Paulo

As tias não cansam de perguntar para o rapaz, de preferência no Natal: e as namoradas? Conhecidos se indagam: será que ele é? Já ela, que parece estar eternamente solteira -será lésbica? Diante de tantos comentários, surge a questão: sair do armário daria um fim a toda essa fofoca? A resposta não é simples.

Para começo de conversa, muitos homossexuais ainda temem assumir sua própria sexualidade, como mostra a pesquisa sobre o casamento gay da Conectaí, empresa especializada em pesquisa online ligada ao Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística). O estudo contou com 2.363 internautas brasileiros entre 11 e 19 de março de 2013. 

Entre os que responderam à enquete afirmando ser homo ou bissexual, 31% não se abriram para os familiares, sendo o medo de rejeição o grande motivo de guardar o segredo (57%); 32% não revelaram sua preferência sexual para os colegas de trabalho por receio de não serem aceitos (32%) e com medo de que ser gay possa interferir na carreira (24%); e 12% se mantêm enrustidos apenas para os amigos.  

Em outras palavras, os números demonstram que ainda é difícil escancarar a porta do armário no Brasil. "Somos um país de múltiplas facetas, com bolsões mais liberais e áreas onde o preconceito e os valores mais tradicionais predominam", afirma o psiquiatra Alexandre Saadeh, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Para a psicóloga Maria Thereza de Alencar Lima, da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), quando uma pessoa sai do armário também torna a família LGBT. "Isso pode ser sentido como uma ameaça à coesão desse núcleo", afirma.

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De acordo com ela, podem emergir culpas e lutos intrafamiliares, assim como a necessidade de enfrentamentos de estigmas e da exclusão social também por parte da mãe, do pai e dos irmãos. "Vivemos em uma sociedade cuja ideologia promove uma perspectiva convencional das relações de gênero e da heterossexualidade, além de uma visão tradicionalista da família como sendo a correta", diz.

As agressões que vira e mexe vitimam os gays no país também são uma pedra no caminho de quem quer viver livremente sua sexualidade. "Elas mantêm a referência de que ser homossexual é errado", afirma Saadeh. O pavor de se assumir seria consequência dessa ignorância e discriminação, segundo o psiquiatra. "Deveria ser crime qualquer reação violenta contra a existência de uma pessoa por ela ser diferente da maioria", afirma. Para Saadeh, na nossa cultura, só a punição a esse tipo de violência pode gerar mudança comportamental.

Menos estresse

Apesar de todas essas agruras, há vantagens quando um homossexual revela sua orientação. Uma delas é justamente dar cabo da maledicência. "O indivíduo pode viver de maneira plena sua sexualidade sem se importar com o que vão dizer sobre ele, pois já se assumiu e, portanto, a especulação e a fofoca perdem o sentido, diz Saadeh".  O psiquiatra reconhece que se assumir não vai evitar comentários jocosos ou preconceituosos, mas vai aliviar a sensação de viver uma mentira e de estar escondido.  

Para a psicóloga Maria Tereza, ficar no armário pode implicar em muito estresse. Mas, segundo ela, para sair dele é preciso analisar o custo-benefício da decisão. Afinal, a tendência é que, quanto mais a pessoa se assumir em diferentes ambientes, mais delimitado será o grupo de indivíduos que a apoia, pois ficará claro quem a aceita e a respeita.  

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Contudo, figuras públicas que têm se declarado homossexuais, caso da cantora Daniela Mercury, contribuem para que esse receio decresça. "Elas quebram o estereótipo sobre a homossexualidade, diminuindo a homofobia e estimulando a aceitação", diz Saadeh.

Para a antropóloga Mirian Goldenberg, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ninguém tem a obrigação de se assumir. Segundo ela, o interesse sobre a sexualidade alheia é o reflexo de uma sociedade conservadora, na qual a vida sexual ainda é muito controlada.

Para Mirian, até mesmo figuras polêmicas como o pastor e deputado federal Marcos Feliciano (PSC-SP) podem estar propiciando, às avessas, uma escancarada nas portas do armário nacional. “Foi bom o pastor existir e ter provocado esse debate”, diz a antropóloga. "Ele acabou fortalecendo todo mundo que era a favor da livre escolha. É muito mais bacana ficar do lado da Daniela Mercury do que das posições retrógradas dele. Enfim, foi libertador para todos: gays ou não gays", diz. De acordo com Mirian, mesmo quem não sai do armário hoje sofre menos, porque a opressão vem caindo.

Ela compara a questão da homossexualidade à do divórcio, um tabu no país até ser liberado no final dos anos 1970. "É a mesma linha de pensamento, e está sendo superada. Os comportamentos mudam, mas os valores demoram a se modificar", afirma. Para ela, se o direito de ser gay, trans ou bissexual já tivesse sido legitimado entre nós, "não existiria Feliciano, ou ele teria menos importância". Assim como a bisbilhotice sobre o que o vizinho faz entre quatro paredes.

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