Equilíbrio

Período sabático revigora, mas é mal compreendido pelo mercado

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Um profissional não precisa, necessariamente, se dedicar a cursos relacionados à profissão durante o período sabático. Pode fazer, por exemplo, uma viagem em busca de autoconhecimento imagem: Thinkstock

Juliana Zambelo

Do UOL, em São Paulo


Vivemos correndo de um compromisso ao outro, equilibrando diversos problemas ao mesmo tempo, fazendo malabarismo com as obrigações e lutando para encontrar espaço na agenda para uma noite de diversão ou fim de semana de descanso. Mas mesmo esses pequenos momentos de prazer acabam muitas vezes interrompidos por telefonemas ou pensamentos que trazem à tona as preocupações. Chega uma hora em que a vontade é se desligar de tudo: deixar o celular em casa e sair em busca do silêncio ou daquele sonho alimentado há anos. 

Essa pausa na vida para se afastar da rotina e olhar para dentro é o chamado período sabático, um intervalo para se dedicar a si mesmo, seja um recolhimento para avaliar suas escolhas e repensar o futuro ou para se dedicar a um projeto pessoal.  "É um período para exercer vocações, ter experiências, uma saída para se ver de fora", diz Herbert Steinberg, consultor de governança corporativa, professor de MBA da Business School São Paulo e autor do livro "Sabático – Um Tempo Para Crescer" (editora Infinito).
 
"O sabático dá tempo e espaço para você repensar valores e objetivos. Na maior parte das vezes, a gente está vivendo no automático, e quando você está com a mente cheia você não consegue criar esse intervalo", afirma a psicóloga Rita Laert Passos, diretora da Associação Brasileira de Qualidade de Vida. "Criar espaço e tempo para isso é importante, seja de nove dias, um mês ou um semestre".
 
A prática teve início no século 19 no ambiente acadêmico, conta Steinberg. "As universidades ofereciam como uma forma de atrair e manter seus professores, dando períodos para que eles produzissem conteúdos, ideias e se desenvolvessem. Isso fazia com que eles ficassem ligados à universidade e produzindo conteúdo de alto nível". Em meados do século passado, outros seguimentos do mercado de trabalho começaram a adotar esse benefício.
 
Por ser uma pausa tão pessoal, os objetivos de um sabático podem ser os mais variados, da realização de um sonho de estudar culinária na França a uma viagem ao Oriente para uma busca espiritual. "Às vezes, é um executivo que quer trabalhar em uma ONG ou escrever um livro", fala Steinberg, que se afastou do trabalho e da família por dois meses em 1999 para se dedicar ao seu próprio sonho.

"Eu tinha curiosidade histórica e religiosa sobre o caminho de Santiago de Compostela e era uma fantasia do meu tempo de mochileiro. Então fiz um sabático para rever história e me inspirar", conta. Ele percorreu o caminho sozinho.
 
 
 

Mercado de trabalho

 
No mercado de trabalho, no entanto, o sabático é ainda pouco conhecido e mal compreendido. Em 2012, a empresa de recrutamento Robert Half realizou uma pesquisa sobre a cultura do sabático nas empresas e descobriu que apenas 8,4% das companhias oferecem a possibilidade dessa pausa para seus funcionários.
 
"Não é uma coisa que as empresas incentivam. As pessoas que fazem vão por iniciativa própria e é muito raro que o empregador aceite dar uma licença para o funcionário", afirma Mário Custódio, gerente da Divisão de Recursos Humanos da empresa de recrutamento Robert Half. "Com o cenário econômico atual e com escassez de mão de obra qualificada, é difícil uma empresa conseguir segurar uma cadeira cativa para o profissional". Por isso, são grandes as chances de que, para tirar um sabático, seja necessário pedir demissão do emprego atual.
 
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    O consultor de governança corporativa Herbert Steinberg passou por um período sabático, que acabou resultando em um livro sobre o tema

Além disso, para muitas empresas, afastar-se do trabalho por um período é visto como uma pausa para se dedicar a cursos de cunho meramente profissionais. "Ainda é muito confundido com tempo para fazer MBA", diz Herbert. Para Rita Passos, o período pode até ter o objetivo de fazer um curso, mas encarar só como uma questão profissional não é a forma correta.

Então, antes de colocar esse projeto em prática, é preciso ter consciência de que, em determinados segmentos, ele pode ser mal interpretado. "Na área acadêmica isso é muito bem visto e cada vez mais em mercados menos formais isso tende a ser valorizado, mas em ambientes corporativos que privilegiam o ‘workaholic’ que ultrapassa a média de horas diárias de dedicação ao trabalho, que vai a happy hour para conversar sobre trabalho, o sabático pode ser visto de forma inadequada", declara a psicóloga. "Uma empresa conservadora ou uma família conservadora vão até olhar aquela pessoa com medo, como se ela fosse uma ameaça", diz Steinberg.
 
Custódio, da Robert Half, confirma que, para a maioria das empresas, o sabático só é válido se for dedicado ao desenvolvimento da carreira. "Um profissional viajar, por exemplo, para desenvolver o inglês ou fazer um curso é justificável, compreensível. O mercado não vê com maus olhos desde que tenha um propósito bem definido", diz. Se a pausa tiver outra finalidade, a volta ao trabalho pode ser mais complicada. "Fazer cursos fora de sua área não vai agregar [valor ao currículo], então a pessoa pode ter dificuldade, ter que aceitar um salário mais baixo ou o mesmo salário de antes para se reinserir no mercado".
 
Steinberg é menos pessimista e acredita que há companhias prontas para abraçar o profissional que está voltando ao trabalho. "É uma coisa apreciada por empresas antenadas, modernas. Enriquece o currículo porque é uma busca de viver experiências de profundo desenvolvimento pessoal, não uma aventura", diz.

 

Planejamento

 
A vontade de sair para um sabático pode acontecer em qualquer idade, independentemente do tempo de carreira, mas exige planejamento cuidadoso para evitar apertos. "A hora certa é a hora que tem o desejo –quando você percebe que existe alguma coisa dentro de você que pede uma revisão, uma parada, seja para adquirir conhecimento, ir atrás de um objetivo, revisar valores– e quando as circunstâncias permitem", diz Rita Passos.
 
A psicóloga também fez o Caminho de Santiago. "Eu vinha muito cansada, num ritmo acelerado. Eu era casada e tinha um filho que estava com 14 anos. Deixei filho, marido, trabalho e fui", conta. No seu caso, a viagem durou 40 dias, mas levou cerca de cinco meses para ser planejada.
 
Para Herbert Steinberg, o primeiro passo deve ser a definição do projeto. "Pensar no que quer fazer e conversar com pessoas próximas sobre o que eles acham do plano", diz. Em seguida, falar com a família para avaliar se é mesmo possível realizar aquela vontade. Se for necessário dar um tempo na carreira, é essencial fazer um planejamento financeiro para sobreviver sem uma renda pelo tempo desejado.
 
A preparação pode ser longa, mas, para Rita, o sabático vale o investimento. "As pessoas retornam com nível de habilidade, conhecimento ou valores modificados. Isso é muito bom. Não conheço nenhuma experiência de sabático que não tenha transformado a pessoa para melhor".

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