Sexo

Polêmica sobre depilação de Nanda Costa mostra intolerância com pelos

Orlando/UOL
Até depilação tem moda: a mais pedida, atualmente, é que elimina todos ou quase todos os pelos imagem: Orlando/UOL

Yannik D´Elboux

Do UOL, em Curitiba

Atualmente, pelos e sexo já não combinam tão bem. A moda é depilar, de preferência tudo ou quase tudo. E quem foge do padrão não escapa incólume às críticas. O episódio recente da "Playboy" da atriz Nanda Costa, que ficou entre os assuntos mais comentados na internet por causa do estilo de depilação (conhecido como biquíni) exibido nas fotos, demonstra o quanto as pessoas estão intolerantes com pelos. 

A aparência de Nanda foi comparada a de Claudia Ohana, atriz eternizada pelo ensaio batizado de "beleza selvagem", que fez para a mesma revista, em 1985. E muitos homens e mulheres não perdoaram a volta dos pelos pubianos em estado mais bruto às páginas da "Playboy".

Do outro lado da trincheira, alguns ainda resistem à moda da depilação total. O jornalista e cronista da Folha de S. Paulo Xico Sá, defensor de uma "política pubiana sustentável, apenas aparável", afirma que "sexo sem pelo não é sexo".

Para Xico, o corpo adulto totalmente liso fica muito infantilizado. Ele até admite que depilar tudo pode ser uma variação interessante, mas só de vez em quando. "Pode acontecer [a depilação total] até como um mimo da moça, uma coisa especial, episódica, mas isso, como regra, me incomoda. Minha educação sentimental foi com pelos. Conheci o sexo das meninas com pelos", diz.

Além disso, a violência dos críticos, que costumam manifestar extremo nojo dos pelos nos comentários dos textos que publica a favor dos "bosques femininos", assusta o cronista. Mas o faz lembrar que esse comportamento não é novo. "Quando a Vera Fischer saiu na 'Playboy' em 2000 [também com pelos íntimos fartos], a reação negativa dos leitores foi tão grande que me chamaram para escrever um artigo em defesa do ensaio", relembra Xico Sá.

Função dos pelos

Afinal, além de causar polêmica, os pelos pubianos têm ou não alguma função? Segundo o ginecologista Jorge José Serapião, membro da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro, esses pelos têm grande valor sexual e aparecem com o surgimento de determinados hormônios.

Por causa da presença de glândulas de suor, tanto nessa região quanto nas axilas, esses pelos exalam um odor que funcionaria como mecanismo de atração sexual, assim como os feromônios nos animais. "Mulheres expostas ao cheiro sexual masculino podem até ovular, para se ter uma ideia da importância dele", exemplifica o médico.

Para Serapião, a justificativa usual de que depilar os pelos é mais higiênico não faz sentido. O médico apenas ressalta que, assim como o couro cabeludo, que concentra mais fios, a região pubiana exige um cuidado maior na hora da limpeza.

Segundo ele, até na medicina o conceito (de que depilação é sinônimo de limpeza) caiu por terra. "Antigamente, depilava-se o corpo antes de uma cirurgia. Hoje, não se faz porque aumentam os focos de infecção na região depilada. Não há vantagens higiênicas. A depilação pode ser um fator de aceitação pessoal, mas não evita doenças. O pelo é um fator de proteção".

O urologista José de Ribamar Calixto, vice-presidente da seccional do Maranhão da Sociedade Brasileira de Urologia, tem uma visão diferente da questão. Para o médico, a prática de aparar ou depilar os pelos contribui com a higiene, justamente porque ajuda a reduzir os odores. "Por possuir glândulas de suor e gordura, os pelos, quando ficam muito tempo abafados, podem produzir cheiro ácido e azedo", afirma Calixto.

Homens depilados

Já faz tempo que a depilação deixou de ser uma preocupação exclusivamente feminina. Os homens passaram a se incomodar com o excesso de pelos no próprio corpo. O médico maranhense conta que é raro ver, entre seus pacientes, homens com pelos muito altos.

O empresário da área de tecnologia Hildo Luciano Alves, de Curitiba (PR), 34 anos, faz parte do grupo masculino que já não aprecia mais o visual peludo. Desde os 20, mantém o hábito de aparar os pelos pubianos e há cerca de seis anos passou a raspar tudo. "O principal motivo é que me passa uma sensação de higiene, claro que esteticamente me agrada, mas a razão principal é a higiene". Além disso, o empresário acredita que a ausência de pelos nessa região aumenta a sensibilidade durante o sexo.

Apesar de ser intolerante com os próprios pelos, Alves não se importa se a mulher não for adepta da depilação total, mas acha brochante quando se depara com muitos pelos. Porém, isso não é algo frequente, segundo ele, que conta que a maioria das mulheres com quem se relaciona costuma eliminar os pelos.

Do ponto de vista médico, a depilação não causa danos à saúde. Os problemas podem ocorrer apenas devido a complicações do procedimento, como irritações na pele, que irão variar de acordo com as características de cada pessoa.

Mulher ideal

Por ser um fenômeno relativamente recente, ainda não existem estudos que analisem os comportamentos associados ao modismo da depilação. A prática começou a se tornar mais popular a partir da década de 1990, por influência da indústria pornográfica.

A depilação total ganhou mais força nos últimos anos, sobretudo entre as mulheres. O corpo feminino totalmente sem pelos adquire a conotação de que ainda não atingiu a maturidade sexual e conserva a pureza. Nas artes, como no período do Renascimento, era comum a representação de figuras femininas sem pelos.

"A mulher impúbere aparece como ideal. Será que esse também é um fator de atração nos dias de hoje? A mulher madura tem pelos. Será que o interesse dos homens recai sobre a mulher imatura que não o ameace?", questiona o ginecologista Jorge Serapião.

A pergunta permanece sem resposta e o futuro dos pelos continua incerto. Para o jornalista Xico Sá, a depilação total não é um caminho sem volta. "Os radicalismos sempre abrem espaço para um contraponto". Nanda Costa mostrou que sim.

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