Vida no trabalho

Famosos da internet contam como conquistaram fãs e dinheiro na web

Rodrigo Capote/UOL
Thiago Pasqualotto, um dos criadores do blog de humor "Morri de Sunga Branca" imagem: Rodrigo Capote/UOL

Fábio de Oliveira

Do UOL, em São Paulo


Todo mundo que cria um blog sonha em ter seguidores além de pai, mãe e meia dúzia de amigos. Quem consegue o feito de ter milhares de fãs são poucos. Mas uma boa ideia e persistência podem trazer não só popularidade, mas dinheiro. Há quem tenha largado o emprego tradicional para se dedicar apenas ao que começou como uma brincadeira. 

Os autores de "Morri de Sunga Branca", surgido em 2009, são Thiago Pasqualotto, 26, que mora em São Paulo, e Bianca Müller, 28, de Curitiba. A dupla faz sucesso satirizando celebridades e "subcelebridades", como são conhecidas as personalidades não tão famosas, mas que fazem de tudo para ser. Mas os números do "Morri de Sunga Branca" estão longe de ser piada: mais de 135 mil visualizações de página diárias e cerca de 65 mil visitantes únicos por dia.

"A forma como tratamos as polêmicas e narramos os barracos dos famosos é que atrai público. Sai da fofoca e vai para o humor", afirma Thiago Pasqualotto. "Não temos a receita do bolo, mas com o tempo observamos que produzir conteúdo autoral de forma criativa e bem-humorada é a melhor forma de chamar atenção na internet".

Ele se desligou da agência de publicidade onde trabalhava em novembro do ano passado para se dedicar exclusivamente ao "Morri de Sunga Branca". Bianca é blogueira em tempo integral há três anos. "Vendemos publieditorial, banner e fazemos várias parcerias, como aconteceu com a Globo durante a última edição do 'Big Brother Brasil'", conta Pasqualotto. E sobre o faturamento? "Prefiro dizer que vivemos muito bem do blog", diz.

Para quem está começando nessa área, o publicitário aconselha: "Não crie um blog pensando que vai ficar rico com ele. Isso não acontece com a maioria dos blogueiros. Escreva sobre o que você gosta. Depois, o que vier é lucro".
 

  • Laudiane Lira/Divulgação

    Filipe Oliveira (à esq.) e Eduardo Camargo, criadores de "Diva Depressão"

"Diva Depressão"
 

Com três a quatro posts diários, com frases sarcásticas sobre temas do cotidiano ou polêmicos estampadas em fotos preto e branco de celebridades das antigas (como a atriz Rita Hayworth), "Diva Depressão" estreou como um página no Facebook em 2012 e hoje tem mais de 700 mil seguidores e já virou até livro: "Diva Depressão – A Senhora dos Anéis" (Editora Matrix).

Os pais da ideia são os designers paulistanos Eduardo Camargo, 24, Filipe Oliveira, 24, e Márcia Corrêa, 25. "Simplesmente aconteceu. O Filipe teve a iniciativa de criar a página usando algumas frases que costumávamos falar", conta Eduardo Camargo. "No início, era bem mais uma mistura de piadas internas, mas acabou caindo na graça do público, que foi se identificando com o pensamento e o humor irônico e ácido".

O pessoal da "Diva Depressão" tem uma espécie de acervo de piadas e imagens. São muitas as sugestões dos fãs, na maior parte mulheres na faixa dos 18 aos 25 anos, mas homens e gente mais velha também participa.

"Costumamos nos manter originais às nossas ideias, mas eventualmente ocorre do seguidor ter um humor como o nosso", conta Eduardo Camargo. "Geralmente, recebemos sugestões que seriam indiretas para alguém específico. O 'Diva Depressão' é muito utilizado para alfinetar terceiros", diz ele.

Ser criativo é o conselho para se dar bem na internet, segundo os autores. "Se a ideia for boa e diferente, ela acabará se propagando por si só", diz Camargo.


  • Helber Oliveira/Divulgação

    O "Hoje Vou Assim" foi criado por Cris Guerra sem a intenção de se tornar um sucesso


"Hoje Vou Assim"
 

"Em julho de 2007, meu filho tinha quatro meses e, além da alegria pela sua chegada, estava vivenciando o luto pela morte do pai dele, dois meses antes de seu nascimento", recorda-se a blogueira Cris Guerra, 42, de Belo Horizonte. Ela começou a escrever um blog sobre as memórias do companheiro para a criança, o "Para Francisco". Dois meses depois, como uma espécie de contraponto, surgiu o "Hoje Vou Assim".

A ideia era simples: registrar todos os dias a roupa que tinha escolhido para ir trabalhar. "Eu não tinha consciência que estava criando um blog de moda, o primeiro de looks diários do Brasil", diz a também publicitária e escritora, que nem frequentava endereços sobre o assunto na época. "Simplesmente fiz e tive a disciplina de continuar", conta ela.

"Talvez eu quisesse postar no 'Hoje Vou Assim' uma informação de moda sem palavras: só imagens da escolha de cada dia, para inspirar. Simples assim". De início, ela era clicada por amigos ou parentes e, depois, passou a contar vez ou outra com o auxílio de profissionais. "Para os dois lados sempre foi interessante, pois, para o fotógrafo, o blog é uma espécie de vitrine".

O "Hoje Vou Assim" conta atualmente com 300 mil page views e 50 mil visitantes únicos por mês. Sua criadora escreve crônicas para a revista Veja BH, tem colunas em duas rádios e ministra palestras sobre moda. "Os blogs me ajudaram a chegar aqui, mas não são minha atividade principal", explica.

Para quem pretende estrear no mundo digital, ela manda um recado: "Que faça com gosto, antes de mais nada. Que tenha um objetivo, atualização diária e pense antes na qualidade do que está colocando no ar. Dinheiro é consequência e pode nem vir. Antes de mais nada, o conteúdo tem que ser relevante. É difícil, mas buscar uma ideia simples e, se possível, inédita, ajuda muito". 

Para conquistar seguidores na internet ou nas redes sociais, ela acredita que vale investir em interação, relacionamento e compartilhamento com retorno. "As pessoas não querem só nos ler, elas querem conversar".

  • Arquivo pessoal

    Marcelo Cidral se inspirou em páginas de outros países para criar o "Como Eu Me Sinto Quando..."

"Como Eu Me Sinto Quando..."
 

O tumblr "Como Eu Me Sinto Quanto..." que usa gifs (imagens animadas) para fazer rir do cotidiano, tem, em média, 180 mil visitas diárias e mais de 340 mil seguidores no Facebook. A sacada veia à tona no ano passado, em um sábado antes da Páscoa, recorda o publicitário blumenauense Marcelo Cidral, o cérebro por trás do "Como Eu Me Sinto Quando...".

"Já sabia que a fórmula tinha feito sucesso fora do país, mas jamais imaginei que ia conseguir 'viralizar' tão rápido”, diz Cidral, 25, que mora em São Paulo.

Seu público é variado, mas a maior parte é formada por jovens de 18 a 15 anos e do sexo feminino. Vexames, dietas, insetos e comida estão entre os campeões de audiência do tumblr. Mas ele lista outros populares, como os posts com imagens de bichos, cenas recentes de novela ou programas de TV, além clipes musicais que estão fazendo sucesso.

O rendimento mensal proveniente do "Como Eu me Sinto Quando..." (ou simplesmente "CEMSQ") pode passar de R$ 20 mil reais, segundo Cidral. "Trabalho, mas hoje em dia boa parte da minha renda vem do tumblr". Para ter destaque na internet, o publicitário recomenda procurar algo a mais. "Blogs existem aos montes. É difícil imaginar alguma coisa muito revolucionária. Então, o ideal é descobrir uma fórmula ou uma linguagem que funciona e adaptar para você".

O CEMSQ, por exemplo, segue um modelo que já era usado no tumblr mundo afora. O diferencial foi contextualizar esse padrão para o Brasil, segundo Cidral, além de agregar conteúdo interativo e manter-se relevante usando gifs associados a situações atuais, como fatos da política brasileira ou das novelas. Outra sugestão dele é explorar ao máximo mídias e formatos em cada rede social.

"O CEMSQ é um tumblr, mas gera conteúdo exclusivo para o Facebook e para o Twitter, também", ensina. “Não existe um segredo para viralizar. Se o seu conteúdo é bacana, o processo deve ser natural". E ele conclui: "Não fique forçando a barra, puxando o saco das pessoas, fazendo 300 mil posts por dia na esperança de que algum dê certo. Isso cansa a imagem do seu blog e, a longo prazo, a sua também".

  • Divulgação
  • Bruno Rocha trabalha na TV Globo, mas vive na web o personagem Hugo Gloss

"Hugo Gloss"
 

Bruno Rocha, 27, costumava fazer imitações do personagem Christian Pior, interpretado pelo ator Evandro Santo no programa "Pânico", para seus amigos quando ainda residia em Brasília. Ele foi morar fora e a brincadeira continuou no Twitter. "O perfil cresceu e acabou dando confusão, porque as pessoas achavam que estavam falando com o ator que fazia o Christian", diz Rocha. Daí veio a necessidade de criar o "Hugo Gloss".

“Virou uma coisa minha, com personalidade própria", conta. Seu perfil no microblog tem um milhão de seguidores –no Instragram são cerca de 210 mil e no Facebook mais de 150 mil. Rocha também tem um blog, onde faz um bem-bolado de tudo o que publica nas redes sociais. Ele atribui o sucesso de seus tuítes à espontaneidade.

"As pessoas costumam me dizer que falo o que elas têm vontade de dizer, mas não sabem como ou não têm coragem. Outras afirmam que sou mais rápido do que elas em traduzir um pensamento", relata Rocha, que é redator do programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo. "Não tenho do que reclamar sobre a vida do Gloss, mas eu amo meu trabalho na TV Globo. Amo televisão e sinto muito prazer trabalhando no 'Caldeirão'. Para mim, as duas coisas se completam".

O público de Hugo Gloss na internet é de mulheres de 18 a 30 anos. "Acho que falo muito para elas. Muito mais até do que para gays. E a maioria me entende. Somos amigos", diz.

Para atrair os holofotes dos internautas, Rocha crê que é preciso se ater a temas que você curte, de que entenda e não inventar um perfil baseado no que está bombando sem se identificar com o assunto.

"Não criei nada disso para que fosse uma fonte de renda, embora tenha se tornado uma. Faço tudo porque gosto e quero. Parando para pensar, acho que os melhores blogs e perfis foram feitos sem qualquer intenção de sucesso, por puro prazer dos seus criadores. Talvez esse seja o maior segredo", diz ele. 

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