Equilíbrio

"Síndrome do bonzinho" é mais comum entre mulheres; mude isso

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Você tem dificuldade de dizer "não" até quando as pessoas abusam de você? É hora de mudar imagem: Thinkstock

Isabela Barros

Do UOL, em São Paulo

A arquiteta Cecília Torres, de 29 anos, cresceu ouvindo o pai "surtando com Deus e o mundo". Por surtar, entenda-se xingar garçons e atendentes de lojas, por exemplo. De tanto constrangimento e depois de muitas tentativas de evitar que o pai arrumasse confusão, terminou contendo os próprios ímpetos e, segundo ela, se transformando numa "bocó".

"Não brigo nem pelo que devo brigar", diz Cecília. "Já fiz terapia com esse enfoque e não quero mais ser uma pessoa que abandona projetos, empregos e ideologias pelos simples fato de não querer me indispor", conta. 

Para os psicólogos, o laudo não poderia ser outro: a arquiteta sofre com a chamada "síndrome da boazinha". Do que se trata? De uma predisposição geral para sufocar as próprias vontades e opiniões pelo receio de se indispor com os demais. Ou de ser mal vista se disser não.


"Quem é assim age de forma pouco assertiva e é predominantemente passiva na interação com os outros; tende a ceder às pressões externas", explica Thiago de Almeida, psicólogo especializado em relacionamentos. "Normalmente, são pessoas com um histórico de vida que as fez se comportar dessa maneira, a dizer sempre 'tudo bem'". 
 
A dificuldade de dizer não, nesses casos, está ligada ainda à baixa autoestima. E ao medo de não ser aceito pelos outros ou de passar a impressão de que age com má vontade diante das demandas alheias. "É preciso saber dizer sim e não", afirma Ricardo Monezi, pesquisador do Instituto de Medicina Comportamental da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e especialista em fisiologia do comportamento.

"Em hipótese alguma, dizer 'não' significa negar uma amizade, mas não poder atender aquele desejo ou pedido específico. As amizades verdadeiras envolvem dizer 'não' também", diz. 
 

Mais comum entre mulheres

 
Monezi afirma que só concordar é muito estressante e que as mulheres sofrem mais com o problema do que os homens por motivos biológicos. "A ação do hormônio ocitocina faz com que elas sejam mais ligadas à família e aos amigos; o cérebro delas é preparado para se vincular mais às pessoas", diz.

Além disso, explica o pesquisador, as oscilações hormonais trazidas pelo ciclo menstrual, com períodos de maior ou menor sensibilidade, pode aumentar a dificuldade de dizer não. "Quem diz não é muito julgado", diz. "Por isso, tanta gente vai se sobrecarregando até sofrer uma estafa ou um transtorno de ansiedade generalizado". 
 
Tânia Aldrighi, psicóloga e professora de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo, destaca o significado de ser mulher em cada família. E na própria sociedade em que cada uma vive. "Para muitos ainda existe um padrão cultural de como a mulher deve se comportar, já que, no passado, não podíamos contestar nada; a mulher sempre ficava atrás do parceiro”, afirma. 


Comece a dizer "não"

 
Para romper com tamanho peso, os especialistas recomendam começar com uma boa reflexão a respeito do próprio comportamento. "Já tem meio caminho andando quem sabe que tem problemas com isso", diz Tânia. "É o caso de observar se a postura do parceiro, dos amigos ou da família não estimula a pessoa a agir sempre assim”, afirma. 
 
Diagnosticado o problema, é hora de se mobilizar para sair dessa situação. "Dizer 'sim' e 'não' é um exercício de autoconhecimento dos seus limites", afirma Monezi. "Ninguém deve se sentir vilão ou se preocupar com os julgamentos alheios dessa forma", diz o pesquisador da Unifesp. 
 
Outra dica importante é contar com a ajuda dos amigos e familiares. "Peça o conselho idôneo dos mais próximos para resolver a questão, daqueles que te conhecem e gostam de você", recomenda Almeida. 
 
É exatamente isso que a assistente editorial Carol Fernandes, de 26 anos, vem tentando fazer. "Tenho bastante dificuldade em dizer 'não' e prefiro me calar a me opor às pessoas, o que me prejudica. Muitas vezes, prometo coisas que sei que não poderei cumprir", conta. "Trabalho a questão na terapia e, aos poucos, junto aos amigos, tento expor as dificuldades que tenho para dizer 'não'".

Rumo ao futuro, Carol quer aprender a ser mais clara consigo mesma e com os outros. "Sinto que é um processo, um caminho até que eu consiga dizer, livremente, o que quero".

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