Sexo

Em 15 anos, Viagra derrubou mitos sobre sexo e descortinou conflitos

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Ter um trunfo contra a impotência sem dúvida fez muitos homens felizes, mas também colocou os casais satisfeitos com a "aposentadoria" sexual em uma situação desconfortável imagem: Thinkstock

Clara Monteiro

Do UOL, em São Paulo

Há pouco mais de quinze anos, os sonhos de cerca de 30 milhões de homens nos Estados Unidos (segundo dados do laboratório Pfizer) e 10 milhões no Brasil (número estimado pela pesquisadora Carmita Abdo) pareciam se tornar realidade mediante a simples apresentação de uma receita médica e o desembolso do equivalente a cerca de R$ 300 em uma farmácia qualquer.

O citrato de sildenafila, batizado pelo laboratório Pfizer de Viagra, chegava às prateleiras norte-americanas em abril de 1998. Em junho do mesmo ano, já era vendido no Brasil. De lá até agora, a "pílula mágica" mostrou que talvez não fosse tão mágica assim, mas colocou o sexo na ordem do dia --e fez com que homens e mulheres revissem suas expectativas quando ao desejo e a qualidade de vida ligada ao sexo. 

Descoberto quase acidentalmente, durante uma pesquisa para o tratamento de angina, o Viagra revolucionou de imediato não só a realidade sexual dos homens com algum grau de disfunção erétil, público-alvo do medicamento, mas também a maneira como se via o sexo em geral.


"O Viagra transformou a sexualidade em tema de conversa, fez com que fosse possível novamente ter relações sexuais. E, com isso, fez com que as pessoas precisassem optar por tê-las ou não", resume a doutora Pepper Schwartz, professora de Sociologia na Universidade de Washington, EUA, e autora de "The Normal Bar: The Surprising Secrets of Extremely Happy Couples" (Random House, ainda sem edição no Brasil; “O Padrão Normal: Os Surpreendentes Segredos de Casais Extremamente Felizes", em tradução literal).
 
Para eles, era um sonho realizado. "Lembro do pai de um colega que, aos 80 anos na época do lançamento, costumava brincar: ‘o homem foi à Lua e isso não mudou nada na minha vida. Mas essa pilulazinha…’”, conta Maria Helena Vilela, educadora sexual e diretora do Instituo Kaplan - Centro de Estudos da Sexualidade Humana.

Os homens pareciam extremamente satisfeitos com o medicamento, mas alguns efeitos colaterais apareceram. Não somente para quem tomava a droga sem prescrição, mas nas relações afetivas dos casais. "O Viagra não foi uma unanimidade entre as mulheres como foi com os homens", diz Vilela. 

Posições ajudam a superar obstáculos que atrapalham o sexo

  • Arte/UOL

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Isadora Altman, sexóloga e autora de "Doing It: Real People Having Really Good Sex" (edição própria; "Transando: Gente Real Fazendo Sexo Realmente Bom", em tradução literal), era terapeuta de casais à época do lançamento. Antes disso, costumava desejar que houvesse uma "pílula mágica". "Quando o Viagra apareceu no mercado, lá estava!", recorda. "Mas acontece que ele não resolvia todos os problemas sexuais". 
 
Como exemplo, Isadora cita a confusão mais comum à época: o Viagra não cria o desejo sexual; ele apenas permite a ereção caso o homem se sinta estimulado. Mal interpretado no início, o medicamento foi alvo de críticas das mulheres. “Elas se sentiam desvalorizadas”, diz Maria Helena Vilela.
 
Outro problema foi permitir a retomada da vida sexual a casais que, no fundo, estavam satisfeitos com a "aposentadoria". "Uma vez aptos a ter uma expressão sexual completa, muitos homens e mulheres foram obrigados a encarar o fato de que, na verdade, eles não queriam essa retomada. Muitos problemas de relacionamento estavam sendo mascarados pela impossibilidade de transar, como questões do corpo, a perda da libido ou não amar mais o parceiro", diz Isadora.
 

Casais em sintonia

 
Para casais que haviam desfrutado de uma vida sexual saudável e completa, o Viagra representou a chance de retomar a qualidade de vida trazida pelo sexo. "O campo da sexualidade é um enorme parque de diversões", define Lidia Aratangy, terapeuta de casais e de família e autora de "O Anel que Tu Me Destes" (Primavera Editorial) e "SOS Amor" (ainda em preparo). "O medicamento vem para ser uma coisa a mais para casais bem resolvidos. Mas a verdadeira ‘pílula mágica’, para as mulheres, foi a anticoncepcional", compara.
 
Casais que nunca tiveram esta sintonia ganharam mais uma chance --mas nem sempre puderam aproveitá-la. Uma das causas mais comuns é a falta de comunicação.

“Para casais mais velhos, com comportamento sexual mais tradicional, isso é um problema. Se o homem não deixa claro do que ele precisa, a parceira pode não saber o que fazer para a estimulação apropriada”, diz Stephanie Buehler, psicóloga, terapeuta sexual da Califórnia (EUA) e autora de “What Every Mental Health Professional Needs to Know about Sex” (em preparo; "O Que Todo Profissional de Saúde Mental Deve Saber Sobre Sexo", em tradução literal).
 
"Estar satisfeita em não fazer sexo indica um problema na relação, uma falta de gosto pelo ato calcada em questões de corpo ou, talvez, um marido que é um amante pavoroso", concorda Pepper Schwartz.
 
 
Houve também quem quisesse aproveitar a condição inédita para desbravar novas fronteiras. “Algumas mulheres precisaram lidar com maridos tão encantados com a nova potência que quiseram testá-la fora do casamento”, diz Pepper Schwartz. Não à toa, a incidência de Aids entre pessoas acima de 60 anos mais que dobrou no Brasil entre 1998 e 2008, segundo dados de 2010 do Ministério da Saúde.
 
Mesmo assim, os especialistas são unânimes em creditar ao próprio Viagra --que logo passou a disputar mercado com os similares Levitra e Cialis, lançados em 2003-- uma influência crucial na retomada da comunicação entre os casais, no debate sobre o sexo e em outros fatores também.
 
“O Viagra ajudou a diminuir a estigmatização da disfunção erétil e propôs mais cuidados com a saúde”, acredita a psiquiatra Carmita Abdo, fundadora e coordenadora do ProSex (Programa de Estudos em Sexualidade) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. "Saúde sexual depende de saúde geral. Cuidar de uma resulta em cuidar do todo", diz.
 
Maria Helena Vilela concorda. Para ela, o Viagra ajudou a desmistificar o sexo, que passou a ser encarado como algo não só prazeroso, mas ligado à qualidade de vida, como dormir bem e se alimentar de maneira saudável. "Afinal, fazer sexo é uma questão de saúde, não de sacanagem".

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