Comportamento

Obrigar par a conviver com sogros pode acabar em separação

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Pais acabam interferindo nas brigas de casal, tomando partido dos filhos, é claro imagem: Getty Images

Juliana Zambelo

Do UOL, em São Paulo

A relação com a família é uma das maiores fontes de conflito de um casal --em especial a relação com a família do outro. Os limites e o tratamento dado a sogras, sogros, cunhados, avós, sobrinhos e demais familiares pode gerar brigas e mágoas que, se não forem enfrentados com diálogo e sensibilidade, podem levar a uma separação.

Muitas vezes, é o próprio cônjuge que falha em não criar um distanciamento saudável entre sua nova família e a família de origem (seus pais, irmãos, avós etc), impondo ao companheiro ou companheira uma convivência intensa e exigindo sua presença em todos os encontros regulares, sem lhe dar a possibilidade de dizer "não" de vez em quando.

"A obrigatoriedade de fazer o parceiro ou parceira participar da família de origem na mesma intensidade não é saudável”, diz Margarete Volpi, psicoterapeuta familiar e de casal. “Quem tem necessidade de estar com aquela família é quem faz parte dela. Exigir que o outro vá junto toda vez que for tomar café da tarde ou almoçar todo domingo, acaba afetando o relacionamento".

O casal forma um novo núcleo familiar. E, para uma vida harmoniosa, precisa de privacidade e de um mundo próprio, segundo Margarete. "A família de origem é outro sistema. O casal pode se alimentar dos afetos, das relações, mas, se ficar muito intenso, ele perde o seu sistema e passa a fazer parte da família maior, ao invés de constituir um núcleo à parte. Isso não é saudável para a relação a dois".

Culpa e dependência

Cristiana Pereira, terapeuta de casal do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo, afirma que a vida de casal exige a criação de muitas regras de convivência e negociações diárias, como o que vão almoçar ou onde vão passear. O contato com a família é um pontos mais delicados desse cenário e a negociação pode ser dificultada por diversos fatores. A dependência emocional é uma delas.

"Quando o casal se forma, o ideal é que as duas pessoas já sejam autônomas, tenham se diferenciado da família e consigam dizer ‘não’ para a mãe e o pai. Mas nem sempre isso acontece", fala Cristiana.

Culpa é outro aspecto importante desse problema. Para Karen Vogel, psicóloga especializada em terapia de casal e família, existe, em nossa cultura, uma forte pressão social para que a família seja sempre colocada em primeiro lugar. Com isso, muitas pessoas sentem culpa quando se afastam ou tentam se ausentar eventualmente. 

Nos consultórios, trata-se de um conflito comum. Há o cônjuge que impõe eventos semanais, leva irmãos a todos os passeios ou não coloca limites nas visitas de seus pais em sua casa. "Atendi um casal no qual a mulher dependia do pai e da mãe para tudo. Quando viajava, tinha de ser com eles. Um dia, o homem não aguentou e a mulher escolheu a família", conta Margarete.

Para Karen Vogel, um caso extremo que atendeu em seu consultório foi o da mãe que visitava a casa da filha casada enquanto ela e o marido trabalhavam e mudava os móveis de lugar. A filha não via problema nisso, apesar das reclamações do marido, e permitia que o comportamento se repetisse.

Além de começar a provocar brigas entre o casal, situações como essas podem trazer outros prejuízos para a vida a dois, como a perda da privacidade. "Os problemas que o casal vive na relação acabam sendo compartilhados com a família. E os pais tomam partido, se intrometem e o casal não amadurece", afirma Margarete Volpi.

Colocando limites

O primeiro passo para resolver esse conflito é que a pessoa que se sente incomodada com as imposições familiares deixe claro para o companheiro como se sente. "Primeiro, tem que ter uma conversa franca, colocar os motivos e estabelecer um limite, como combinar de almoçar uma vez por mês, mas colocar que não quer ser obrigado a ir sempre", diz Margarete. 

"É normal querer estar com o parceiro, mas nem sempre ele quer estar com você em determinadas situações. A individualidade é importante", fala a psicóloga. O outro, então, precisa ter sensibilidade ao ouvir seu parceiro e aceitar que novos acordos precisam ser feitos para satisfazê-lo.

"Chega uma hora na vida que minha maior lealdade não é mais com meu pai e minha mãe, é com meu marido ou mulher”, diz Cristiana Pereira. “É muito importante em um novo casal que a pessoa sinta que está em primeiro lugar".

Karen conta que desenvolve em terapia um treino para a pessoa que é muito ligada à família consiga ir, aos poucos, colocando em prática novas regras de convivência, demonstrando que tem outras prioridades e pode ter planos diferentes para aquele almoço do domingo, por exemplo. O importante é que cada membro do casal seja o responsável por sua própria família. "É melhor que a pessoa da família estabeleça limites e que a briga seja com ela, que é filho ou irmão, do que seja o companheiro".

Para ela, os conflitos mais graves acontecem quando o membro do casal não aceita as reclamações do cônjuge e não concorda em estabelecer limites para equilibrar sua relação, ficando do lado de sua família. "É muito difícil resolver o problema se a pessoa não consegue se colocar no lugar do companheiro".

Cristiana Pereira diz, no entanto, que não se deve buscar o oposto, um afastamento total da família, colocando seu companheiro em uma situação de escolha: "ou eles ou eu". "Estar em família é gostoso, faz parte da vida, e é importante para a outra pessoa, que tem amor e que faz parte da história dela".

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