Sexo

Mulheres têm menos chance de atingir orgasmo com sexo casual

NYT
O que as mulheres precisam para chegar ao orgasmo pode ser muito diferente do que elas encontram no sexo casual imagem: NYT

Natalie Kitroeff

The New York Times

Natasha Gadinsky, de 23 anos, diz que não se arrepende de seus anos na faculdade. Entretanto, não se pode dizer o mesmo do tempo que ela ficou com um rapaz na Universidade de Brown.

Depois de ele gozar naquela noite, disse ela, ele não demonstrou interesse algum em satisfazê-la. No encontro seguinte, a mesma coisa aconteceu de novo. Ele "não se importou nem um pouco", disse Gadinsky, coordenadora de assistência médica que reside em Nova York: "Eu acho que ele nem tentou". Ele caiu no sono imediatamente, deixando-a olhando para o teto. "Fiquei muito frustrada".

Assim como acontecia gerações antes dela, muitas jovens mulheres como Gadinsky estão descobrindo que o sexo casual não dá a elas o prazer físico que os homens experimentam mais frequentemente. Uma nova pesquisa sugere um motivo: as mulheres são menos propensas a ter orgasmos em encontros sexuais sem compromisso do que em relacionamentos sérios. Ao mesmo tempo, os pesquisadores dizem que as mulheres jovens vêm se tornando parceiras tão interessadas na cultura do sexo casual quanto os homens, muitas vezes tão dispostas quanto os homens jovens a se aventurarem em relações sem vínculos emocionais.

"A noção de liberação sexual, segundo a qual homens e mulheres tinham igual acesso ao sexo casual, passou a implicar uma probabilidade semelhante de prazer para ambos os lados", afirmou Kim Wallen, professor de neuroendocrinologia da Universidade de Emory, onde estuda o desejo feminino. "Todavia, não há paridade nessa parte do jogo".

Uma pesquisa com 600 estudantes universitários liderada por Justin R. Garcia, biólogo evolucionário do Instituto Kinsey da Universidade de Indiana, e pesquisadores da Universidade de Binghamton descobriram que as mulheres tinham uma probabilidade duas vezes maior de chegar ao orgasmo a partir de penetração e sexo oral em compromissos sérios do que em relações casuais. O trabalho foi apresentado na reunião anual da Academia Internacional de Pesquisa sobre o Sexo e na Convenção Anual de Ciência Psicológica deste ano.

Da forma similar, uma pesquisa com 24 mil estudantes de 21 escolas, realizada ao longo de cinco anos, descobriu que 42% das mulheres tinham chegado ao orgasmo durante o seu último encontro envolvendo sexo casual, contrastando com 80% dos homens. A pesquisa foi liderada por Paula England, socióloga da Universidade de Nova York que estuda a dinâmica de sexo casual.

Por outro lado, 74% das mulheres que participaram da pesquisa disseram ter chegado a um orgasmo na última vez em que fizeram sexo em um relacionamento sério.

"Atribuímos isso a um relacionamento com um parceiro, que proporciona mais êxito no orgasmo, e também achamos que os homens se preocupam mais quando estão em um relacionamento", falou England.

De fato, os jovens que participaram do estudo de England admitiram que muitas vezes se concentram menos em agradar sexualmente uma mulher com quem estão saindo casualmente do que uma mulher com quem estão namorando.

Duvan Giraldo, de 26 anos, um técnico em software do Queens, em Nova York, disse que satisfazer a parceira "é sempre a minha missão", mas acrescentou: "Eu não me esforço tanto quanto como estou com alguém de quem realmente gosto". E com as mulheres que ele acabou de conhecer, segundo ele, pode ser difícil falar sobre desejos específicos na hora da relação.

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"Naquele momento, ainda somos praticamente desconhecidos", afirmou.

Não passar orientações é comum, disse England. "As mulheres não se sentem muito à vontade nesses contextos casuais para dizer o que querem e precisam", falou ela. Parte do problema, é que as mulheres podem ainda ser estigmatizadas por fazerem sexo casual.

Para Garcia, "nos venderam a ideia de que estamos em uma era em que as pessoas podem ser sexualmente livres e desfrutar igualmente das relações casuais. O fato é que nem todo mundo está curtindo isso."

Aquilo de que as mulheres precisam para chegar ao orgasmo pode ser muito diferente do que elas encontram no sexo casual. Cerca de um quarto das mulheres costuma chegar ao orgasmo apenas por meio da penetração, de acordo com a análise de 32 estudos realizados por Elisabeth Lloyd, professora de história e filosofia da ciência da Universidade de Indiana, apresentada em seu livro "The Case of the Female Orgasm: Bias in the Science of Evolution" ("O caso do orgasmo feminino: a parcialidade na ciência da evolução", em português), de 2005. Outro terço das mulheres chega ao orgasmo raramente ou nunca com a penetração.

Vanessa Martini, de 23 anos, de Marin County, Califórnia, aprendeu desde cedo que a maioria dos homens com quem ela tinha relações casuais não percebia quais eram os seus desejos.

"Não cheguei a ficar com ninguém que fosse arrogante a ponto de não se importar nem um pouco", contou. "No entanto, acho que a maioria deles estava um tanto desconcertada quanto a fazer mais do que simplesmente penetrar."

Martini disse que ninguém nunca a ensinou a ter uma relação prazerosa, e muito menos a expressar quais as suas preferências. A educação que recebeu na escola visava impedir que os adolescentes tivessem quaisquer relações sexuais; praticamente não se falava do prazer. Para ela, a maior parte das representações culturais do sexo deixam de fora esses detalhes.

"No modo como o sexo é retratado na pornografia, nos filmes e nos livros, as pessoas não ficam conversando entre si sobre o pé estar dormente e precisarem mudar de posição", disse ela.

Conversar sobre esses detalhes é especialmente complicado no caso do sexo casual. Como uma única fala ou atitude estranha ou mal interpretada pode acabar com o encontro, há certa pressão para ser bastante cuidadoso, disse Martini.

"A gente tem que ponderar sobre um monte de coisas, do tipo o que é mais importante para mim – apenas gozar ou realmente ter uma conexão com essa pessoa?"

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Segundo Debra Herbenick, pesquisadora da Universidade de Indiana, para as mulheres, o sexo casual é excitante justamente porque é espontâneo. Ela comparou o sexo casual com um jantar na casa de um amigo. "A gente não diz o que quer nem como quer que as coisas sejam feitas. Não diz, por exemplo, quanto manjericão quer na comida", falou.

Algumas mulheres, confrontadas com esses obstáculos, estão redefinindo o sexo casual e o prazer físico que esperam dele. O sexo sem compromisso tem benefícios carnais e emocionais que não dependem de chegar ao orgasmo.

"Algo de que não falamos é por que chegar ao orgasmo é o objetivo principal ou o único objetivo do sexo”, disse Herbenick. "Quem somos nós para dizer que as mulheres devem chegar ao orgasmo?"

Para Casey Romaine, uma aluna de pós-graduação de 22 anos do Bard College, de Nashville, Tennessee, disse que os encontros sem compromisso, mais do que se restringirem simplesmente ao sexo, frequentemente tem muito mais a ver com duas pessoas que compartilham um momento de intimidade, ainda que breve, do qual necessitam para encarar a semana.

"Tem mais a ver com querer ter aquela experiência, ter alguém para quem você possa ligar ou de quem possa gostar, em cuja casa você possa passar a noite se não quiser ficar em casa sozinha", declarou. "Curiosamente, acho que muitas vezes é quase que irrelevante o sexo ser realmente bom ou não."

Para Kim Huynh, uma cineasta de 29 anos de São Francisco, sacrificar a garantia de um orgasmo para ficar sem o peso de um compromisso foi uma decisão consciente. Depois de alguns relacionamentos na faculdade, Huynh passou cerca de cinco anos sem um namorado sério e teve muitos casinhos.

"Nas relações monogâmicas, eu conseguia chegar ao orgasmo sempre, mas isso é algo que eu nunca tive em circunstâncias mais descompromissadas”, contou.

Contudo, a falta de prazer no sexo era um pequeno preço a pagar "pela liberdade de desfrutar de tudo isso". O aspecto físico de um encontro com alguém que era até certo ponto um desconhecido era gratificante, mesmo que as suas chances de chegar ao orgasmo fossem limitadas, disse ela. Quando o desempenho de seu parceiro era apagado, ela ainda assim ficava orgulhosa de suas próprias proezas sexuais.

"Ter consciência de que se tem uma habilidade que pode dar prazer a alguém é algo que definitivamente pode fazer a pessoa se sentir poderosa", concluiu.
 

 

 

 

 

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