Vida no trabalho

Profissão de homem e de mulher: como surgiu essa divisão?

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Fatores históricos e culturais influenciaram a percepção de profissões que são vistas até hoje como masculinas e outras como femininas imagem: Getty Images

Yannik D´Elboux

Do UOL, em São Paulo


Todos os dias Anderson Luiz Ferreira Pinto, 28 anos, veste o avental com detalhes cor-de-rosa para trabalhar. Detalhista e delicado, seu desafio diário é moldar sobrancelhas que valorizem o rosto de seus clientes, a maior parte mulheres, que atende em Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ). A pergunta que mais escuta é: "você é gay?". Sem se incomodar com o questionamento, ele responde que não. Luiz é casado há cinco anos com uma mulher.

Apesar de, em poucas décadas, a igualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho ter aumentado, ainda prevalece uma divisão silenciosa de profissões por gênero. Quando alguém foge à regra, como Anderson, o estranhamento é inevitável.

Fatores históricos e culturais influenciaram a percepção de profissões que são vistas até hoje como masculinas e outras como femininas.

"Em uma sociedade patriarcal, com o poder masculino muito forte, desde a colonização, o trabalho feminino sempre foi secundarizado. Entendia-se a organização de algumas tarefas como sendo uma extensão do lar, como as do cuidado, a cargo da mulher", explica Mario Sergio Cortella, filósofo, escritor, pesquisador e professor do programa de pós-graduação em Educação da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

As atividades mais ligadas ao ambiente doméstico e aos cuidados com os outros foram, ao longo do tempo, ficando com as mulheres, como a docência, enfermagem, nutrição, o secretariado, entre outras. Cortella afirma que os trabalhos que exigem maior capacidade intelectual sempre estiveram associados à natureza masculina, sendo esse mais um resquício da cultura machista.

Para a pesquisadora Mayra Rachel da Silva, mestre em Políticas Públicas e Sociedade, professora do curso de Serviço Social da Faculdade Ratio e da Faculdade Cearense, em Fortaleza (CE), a divisão por gêneros não tem relação com características naturais femininas ou masculinas. Essa separação é fruto de uma construção social, predominantemente desfavorável às mulheres.

"As profissões social e culturalmente tidas como femininas apresentam caráter subalterno, de menor prestígio e remuneração em relação às atividades exercidas pelos homens", diz Mayra.

Clube do bolinha

Ainda no século 21, os territórios masculinos e femininos permanecem bastante demarcados em algumas áreas. É o caso da engenharia. Do universo de 1.083.182 engenheiros registrados no Brasil, apenas 13% são mulheres, segundo o Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia). Porém, esse cenário tem se transformado significativamente na última década. Em 2003, foram realizados apenas 2.960 registros do sexo feminino no Conselho. Em 2013, até o mês de novembro, 9.433 mulheres ganharam o título de engenheiras, um aumento de 318,7%.

Acostumada a ser uma das poucas mulheres nesse "clube do bolinha", Darlene Leitão e Silva, conselheira do Confea, acompanha com entusiasmo a mudança de cenário. Em 1993, foi a única mulher de sua turma a se formar em Engenharia Elétrica.

Dez anos depois, ela assumiu a função de diretora técnica responsável pela concessionária de energia de Boa Vista (RR) e, atualmente, trabalha na Secretaria de Infraestrutura do Estado de Roraima. "Não é fácil chegar a esses postos, mas, quando a mulher tem essa oportunidade, consegue demonstrar que tem tanta capacidade quanto o homem", afirma.

  • Arquivo pessoal

    Anderson Luiz Ferreira Pinto, que trabalha como designer de sobrancelhas no Rio

No caso de Darlene, foi o cunhado, também engenheiro eletricista, uma figura paterna importante em sua vida depois de ter perdido o pai aos 14 anos, que a influenciou na escolha da carreira. Mas esse é um caso raro. As mulheres, normalmente, não recebem incentivo para profissões historicamente masculinas. 

A segmentação das profissões já começa na infância, com brinquedos que costumam reforçar os estereótipos culturais de cada gênero. Recentemente, uma engenheira da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, resolveu tentar mudar esse padrão, lançando em parceria com uma empresa de brinquedos um jogo de engenharia para meninas, com um vídeo que acabou se tornando viral.

Outra área em que a presença feminina vem aumentando consideravelmente é a construção civil. Segundo dados do Ministério do Trabalho, de 2000 a 2010, o número de trabalhadoras nesse setor cresceu 65%. As mulheres desempenham, principalmente, serviços de acabamento.

Na opinião de Mayra Rachel da Silva, que desenvolveu um estudo acerca das relações de gênero e trabalho no âmbito da construção civil em Fortaleza, os canteiros de obra também são lugares para atuação profissional das mulheres. Entretanto, ainda falta muito para que o ambiente se torne ideal.

"Muitas mudanças precisam acontecer para que essas trabalhadoras possam exercer sua profissão de forma digna", acredita a pesquisadora, que em seu levantamento detectou problemas como assédio sexual e pouca participação política nos sindicatos.

Propaganda incentiva meninas a se tornarem engenheiras

Menos divisões

Ainda é muito comum que a competência de um profissional seja associada ao seu sexo. O designer de sobrancelhas conta que as clientes que não o conhecem costumam questionar a recepcionista sobre a qualidade do seu trabalho, pelo fato de ele ser homem.

"Algumas entram com receio e perguntam se faço bem as sobrancelhas. Mas depois gostam do meu trabalho e acabam virando clientes", diz Anderson Ferreira. Ele já aprendeu a lidar com o preconceito e com as piadas dos amigos.

"Nunca me incomodei, a gente tem que começar a quebrar os paradigmas. Mesmo que sejam as mulheres que tenham se destacado como designers de sobrancelhas, nada impede que um homem seja tão bom ou melhor do que elas", diz ele, que pretende se aperfeiçoar ainda mais na área e cursar faculdade de estética.

Apesar de ainda existirem, os preconceitos vão diminuindo à medida que as oportunidades de emprego começam a surgir. As mulheres já são maioria nas universidades e a tendência é que as questões de gênero no trabalho percam cada vez mais a importância. Mais do que isso: a quem acredite que a situação se inverta, e o homem seja o novo sexo frágil.

"Percebemos que novas configurações se apresentam ao mundo do trabalho, favorecendo para que profissões culturalmente constituídas no imaginário social como específicas da condição masculina sejam ocupadas crescentemente por mulheres e vice-versa", afirma Mayra Rachel.

Para Mario Sergio Cortella, felizmente, a divisão entre profissão de homem e de mulher vem perdendo a nitidez e sendo demolida aos poucos. Na opinião do filósofo, um dos aspectos que contribui para isso recai sobre a nova organização familiar dentro de casa.

"Hoje, a família traz mais partilha de tarefas, inclusive por causa da regulação do trabalho doméstico. Acho que vamos caminhar para uma organização da vida mais inteligente, em que haja essa divisão entre o masculino e feminino a partir da família e, portanto, nenhuma estranheza quanto a isso no mundo do trabalho".

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