Relacionamento

Casal que se ama, mas não se entende, deve terminar?

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Os opostos se atraem, mas as diferenças, no futuro, acabam gerando brigas imagem: Orlando/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Um ama praia, o outro prefere o campo; um adora se jogar na balada, o outro faz o estilo caseiro; um não abre mão de um bife mal passado, o outro vive à base de folhas; um ouve pagode, o outro sabe tudo de rock’n’roll... Apesar das diferenças, há casais que são completamente apaixonados e se entendem bem na cama.

O problema é que os gostos e os estilos distintos provocam desavenças, irritação e dúvidas: com tão pouca coisa em comum, essa relação tem futuro? Vale a pena continuar a batalhar para dar certo ou é mais prudente (e inteligente) romper antes que se magoem profundamente?

Segundo Juliana Bonetti, psicóloga especializada em sexualidade, essa é uma situação bem delicada e que precisa ser avaliada com cuidado. "Ter química sexual e sentir amor pelo parceiro são itens extremamente importantes para se manter uma relação, mas não são suficientes para fazer com que ela perdure", diz.

Ela explica que o que faz uma união se sustentar por muitos anos é um conjunto de fatores, entre os quais a admiração mútua, objetivos de vida em comum e, principalmente, afinidades, pois são elas que desarticulam brigas e discussões.

"Levar um relacionamento conflituoso até é possível, mas à custa de muito sofrimento. A partir do momento que é preciso batalhar para salvar um romance, é preciso questionar se ele ainda tem chances de se recuperar. Mesmo que a química sexual seja forte, tem prazo de validade se o casal não tiver boa comunicação e respeito pela relação", declara a psicóloga.


Na prática os opostos se atraem, mas na vida em comum as contradições se acirram e um passa, então, a tentar modificar o outro. "As diferenças deveriam diminuir com o convívio, mas isso não costuma acontecer por causa do medo de ver o encantamento amoroso desaparecer. Afinal de contas, os namorados se sentiram atraídos por serem pólos opostos. Se ficarem parecidos, não acabará o amor?”, pergunta a psicóloga Raquel Fernandes Marques. E aí os casais convivem por anos, sempre se desentendendo e procurando fazer do outro um semelhante. E só conseguem agravar as diferenças e piorar as brigas.

De acordo com Raquel, a principal causa do magnetismo entre opostos é a falta ou a diminuição da autoestima. “Quando não estou satisfeita com o meu modo de ser, procurarei alguém que seja completamente diferente de mim. Com o tempo, o que suscitava admiração se tornará fonte de irritação”.

No dia a dia, as diferenças desagradam, dificultam a vida, criam barreiras e resistências cada vez maiores. Os opostos se atraem, mas nem por isso combinam: pessoas muito diferentes vivem brigando e se irritando uma com as outras; temperamentos e gostos antagônicos dificultam a vida em comum, em especial quando o casal decide viver junto. Como encaminhar a educação dos filhos se os pontos de vista são tão diferentes? Como planejar a economia doméstica, a ordem dentro de casa, as viagens de férias? São fatores que devem ser ponderados.

Conheça-se melhor

Mais do que amar muito o outro, é preciso se conhecer muito bem para driblar as diferenças. "Saber o que realmente lhe faz mal e o que só é um comportamento diferente do seu é o primeiro passo para fazer acordos em um relacionamento. Com autoconhecimento, você identifica o que quer e o que não quer para si e negocia a continuidade da relação, respeitando ambas as partes", diz Raquel Fernandes.

Para um relacionamento dar certo, é importante que você saiba até que ponto você ficará bem abrindo mão do que acredita. Antes de negociarem algo, é preciso que os dois entendam que até os mais parecidos têm suas diferenças. Mesmo que vocês entrem em um acordo, o outro continuará se sentindo de um jeito diferente, mas isso não deve interferir no respeito mútuo.

Entendido isso, outro passo para uma é nunca perder o controle ou se exaltar quando defender sua opinião. "Uma boa forma de fazer isso é desenvolvendo a capacidade de colocar limites, expressando o 'não' quando ele for necessário e sem sentir culpa", diz Raquel.

Para Cristiane Moraes Pertusi, psicóloga especialista em Desenvolvimento Humano pela USP (Universidade de São Paulo), outro passo importante nesse processo de autoconhecimento é compreender que todos nós levamos para os relacionamentos a bagagem emocional de questões não resolvidas de relações passadas. “Isso inclui, em especial, problemas pendentes com pais e irmãos", conta. Analisar o próprio histórico familiar ajuda muito a entender por que determinadas coisas irritam tanto no parceiro.

Diálogo

Muitos romances promissores chegam ao fim porque as pessoas não se esforçam para conversar. A principal atitude, logo que surge um problema, é fechar a cara e não querer papo. O orgulho toma conta das pessoas que, mesmo sofrendo, não dão o braço a torcer.

São comuns frases do tipo: "você sabe do que estou falando", "não preciso dizer o que você sabe que aconteceu", "não estou chateado, apenas não quero conversa". É necessário, portanto, partilhar sentimentos, dúvidas e desejos. E isso não se resume a casais que brigam constantemente.

“Os que vivem em harmonia também estão sujeitos a deixarem o amor escapar aos poucos pela falta de comunicação. Acham que tudo está tão bem que não é necessário conversar sobre si mesmos e sobre seus anseios. O que falta a muitos casais é habilidade para discutir as diferenças e resolvê-las", afirma a psicóloga Raquel. 

Semelhan

A abertura ao diálogo, o autoconhecimento e o exercício da flexibilidade, muitas vezes, não são o bastante para fazer a relação engrenar, mesmo que haja amor e desejo. Quando um não consegue se adaptar de jeito nenhum ao estilo de vida do outro, talvez seja a hora de partir para a outra.

"Tudo depende do que significa dar certo para cada um. Existem pessoas que permanecem em relacionamentos infelizes e acham que é isso quer dizer ‘dar certo’. Na minha opinião, estilos de vida muito diferentes ao ponto de um não se adaptar de jeito nenhum ao do outro não favorecem a relação", fala Julia Bonetti.

Para o psicólogo especializado em relacionamentos Alexandre Bez, o momento de romper surge quando há uma ação agressiva. "Quando um dos dois demonstra que pode ir muito além, é uma situação muito delicada. E relacionamentos em que a possessão e o ciúme estão por trás das brigas dificilmente têm final feliz", diz.

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