Sexo

Meditação orgásmica promete sexo melhor para mulheres; leia entrevista

Arquivo Pessoal
"A fixação em atingir o clímax acaba com o sexo", diz a instrutora de meditação orgásmica Justine Dawson imagem: Arquivo Pessoal

Andrezza Czech

Do UOL, em São Paulo

Onze orgasmos em um dia. É isso que uma praticante da "orgasmic meditation" (meditação orgásmica, em tradução do inglês) garante ter alcançado. A técnica consiste, basicamente, no toque em um ponto específico do clitóris por 15 minutos.

Os instrutores garantem que, com a prática regular, a atividade aumenta a libido, diminui o estresse, aumenta o prazer sexual e, principalmente, ajuda a mulher a alcançar orgasmos.

A prática tenta unir sexo à espiritualidade, estabelecendo uma conexão entre o clitóris e a mente que ultrapasse o prazer físico.

Basicamente, a técnica ensina aos homens a conhecer e prestar mais atenção ao corpo feminino, e em suas sensações, e ajuda a mulher a dar mais atenção ao próprio prazer. É como seu os dois fizessem um tipo de meditação cujo alvo é o clitóris.

A meditação orgásmica é a base do chamado movimento "slow sex" (sexo lento), que tem por objetivo proporcionar uma conexão mais profunda durante o sexo e aumentar a intimidade entre o casal. Há uma empresa especializada no treinamento dessa meditação erótica, a OneTaste, fundada pela terapeuta sexual norte-americana Nicole Daedone. 

Pessoas que procuram a OneTaste são apresentadas à técnica por dois praticantes experientes. Depois, cada homem que participa da aula tenta reproduzir aquilo que viu em uma das mulheres do grupo, que deve abaixar as calças e se deitar em travesseiros. Geralmente, o exercício é praticado entre desconhecidos. A estimulação no clitóris é cronometrada e dura exatamente 15 minutos.

Encantados pela técnica, alguns dos participantes optam até mesmo por viver em comunidade para se aprofundarem mais na busca pelo prazer.

Para entender melhor como é essa prática e quais o benefícios pode trazer para a mulher, o UOL conversou com a instrutora de meditação orgásmica Justine Dawson, diretora sênior e de conteúdo da OneTaste. Antes de dedicar a vida a ajudar mulheres a sentir mais prazer na vida sexual, a canadense, que hoje vive nos Estados Unidos, já trabalhou como assistente social e instrutora de meditação budista. 
 

UOL: Como você conheceu a meditação orgásmica?

Justine Dawson: Eu pratico meditação desde 1998 e me tornei instrutora de meditação budista. Depois de longos períodos em retiros espirituais, surgiu o desejo de integrar minha prática com o sexo, o que me trouxe para a OneTaste. Desde então, tenho sido praticante da meditação orgásmica e sou instrutora há cinco anos.

 

UOL: O que as pessoas que procuram a OneTaste estão buscando? 

Justine: As pessoas nos procuram quando estão buscando por uma conexão mais profunda em suas vidas. E nós oferecemos um ambiente para que a sexualidade seja explorada. Nós já ensinamos milhares de pessoas a praticar a meditação orgásmica desde que fundamos o espaço, em 2004.

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UOL: Qual é o perfil das pessoas que procuram vocês?

Justine: Pessoas de todas as idades e de diversos estilos praticam a meditação orgásmica. Algumas são casadas e não têm muita interação com a comunidade; algumas são solteiras e tendem a se conectar com muitas pessoas dentro da prática. Outras optam por viver juntas para fazer da meditação orgásmica uma prática muito regular em suas vidas e experimentar os benefícios da imersão em um ambiente. 

 

UOL: Quem administra essas comunidades?

A equipe da OneTaste não vive com os membros da comunidade. As “casas OM (Orgasmic Meditation)" são dirigidas independentemente pelos praticantes. Nós também temos uma rede social que conecta todos que já aprenderam a prática. Chama-se "OM Hub"e é um espaço com privacidade para que as pessoas possam dividir suas experiências, fazer perguntas para a equipe da OneTaste e encontrar praticantes.

 

UOL: O que exatamente as pessoas aprendem, passo a passo?

Justine: As pessoas começam aprendendo a filosofia básica da prática, que inclui reduzir o ritmo e concentrar-se nas sensações do corpo. Depois, aprendem regras de etiqueta. Como é uma prática que envolve uma comunidade, é importante que todos sigam algumas normas. Por exemplo, não há nenhum tipo de comércio na OM. Isso significa que se duas pessoas fazem a meditação orgásmica juntas, uma pessoa não deve nada para a outra. É uma experiência com benefícios mútuos, não uma coisa que uma faz por outra.

 

Só então nós ensinamos o passo a passo da prática. A estrutura é sempre a mesma. Normalmente, nós fazemos uma apresentação em nossa classe com dois praticantes experientes, assim os participantes podem ver o que é possível alcançar quando duas pessoas praticam a meditação orgásmica por um longo tempo.
 

Os homens aprendem sobre a anatomia feminina, principalmente a encontrar o ponto localizado no quadrante esquerdo superior do clitóris. Nós, então, ensinamos a eles técnicas básicas de acariciamento. As mulheres aprendem como relaxar completamente durante a experiência, sem se preocupar com reciprocidade –o que é desafiador para muitas delas.

 

Com o tempo, essa prática expandirá a capacidade da mulher de sentir prazer sexual. Tanto os homens como as mulheres sentem diferentes nuances de sensações em seus corpos durante a prática, e o trabalho deles é apenas o de prestar atenção nelas.

UOL: Deve haver uma regularidade na prática do processo?

Justine: Nós, normalmente, recomendamos pelo menos três vezes por semana para os novos praticantes.

 

UOL: As mulheres tendem a pensar muito durante o sexo. Quanto isso pode prejudicar a vida sexual delas?

Justine: Parte do que torna a meditação orgásmica tão benéfica é que ela afasta os pensamentos. Na meditação tradicional, quando a mente vagueia, você se volta para a respiração. Na meditação orgásmica você se concentra na sensação em seu corpo. Uma vez que você pratica isso, é mais fácil estar mais presente no sexo normal, o que melhora a experiência. Quanto mais presente você está, melhor será o sexo.

 

UOL: É verdade que as mulheres têm menos desejo sexual?

Justine: Nós costumamos dizer que, na verdade, as mulheres querem mais sexo do que os homens. Elas só não necessariamente querem o sexo que está no cardápio. A meditação orgásmica não tem objetivo. Ou seja, não há um objetivo em que se deve chegar. Isso é muito diferente do sexo regular, no qual as pessoas estão sempre tentando chegar ao clímax, e sua capacidade de atingi-lo é usada como medida para determinar quão bom o sexo foi.

 

Nós descobrimos que isso não funciona muito bem para o corpo das mulheres. Essa fixação pelo orgasmo pode acabar com todo o resto da experiência. Você não presta atenção àquilo que está sendo vivido, porque você está tão determinada a chegar ao orgasmo que fica desapontada se não conseguir atingi-lo. O corpo das mulheres tende a ser mais receptivo ao toque que não é atrelado a um objetivo. Esse é o caso da meditação orgásmica.

 

UOL: O que as mulheres deveriam saber sobre a importância da sua sexualidade?

Justine: Como mulheres, nós passamos um bom tempo das nossas vidas com o objetivo de fazer as coisas parecerem certas: ter o emprego certo, o parceiro certo, passar a imagem certa. E, na cama, é a mesma coisa. A gente se preocupa em parecer bem, em vez de se sentir bem. Quando você começa a dar importância a sua sexualidade, você dá importância a ter uma vida que realmente te faz bem interiormente, em vez de sempre buscar pela afirmação dos outros.

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