Comportamento

Exigir demais do parceiro coloca em risco a qualidade da vida a dois

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Exigir do outro aquilo que falta em você é um dos fatores que desgastam um relacionamento imagem: Thinkstock

Marina Oliveira e Rita Trevisan

Do UOL, em São Paulo

Por muito tempo, ter um casamento bem-sucedido significava possuir uma casa para morar e contar com uma renda para manter a família. Com o passar dos anos, vieram as aspirações românticas. Já não adiantava o casal ter recursos para prover as necessidade básicas do lar se não existisse amor conjugal e companheirismo.

Hoje, muitas dessas exigências continuam, mas somadas a outras. Boa parte das pessoas entra em uma relação com o desejo de encontrar a parte que lhe falta para, dessa forma, se sentirem completas. É como se elas depositassem no outro uma certa responsabilidade pela sua evolução pessoal. Mas será que isso não significa exigir demais do par?

O questionamento foi levantado pelo psicólogo Eli Finkel, diretor do Departamento de Psicologia Social da Universidade de Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos, que investigou as expectativas dos norte-americanos em relação ao casamento, no passado e nos dias atuais.

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Na opinião do psiquiatra Luiz Cuschnir, coordenador do Gender Group do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), o erro não está em desejar a ajuda do parceiro no processo de autoconhecimento, mas, sim, em estabelecer papéis para o outro cumprir.

"O parceiro pode contribuir se não for encarado como um professor ou terapeuta", diz Cuschnir. "Expectativas exageradas viram cobrança e as atitudes do outro passam a ser vistas como fundamentais para a satisfação pessoal", explica.

Ter um certo nível de exigência em relação àquela pessoa que você escolheu para dividir a vida a dois é normal, afinal, estar com o outro foi uma preferência entre tantas possibilidades. No entanto, segundo o psicólogo especialista em relacionamentos amorosos Thiago de Almeida, mestre em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo), é preciso ter o pé no chão.

"Muitas pessoas confundem o parceiro com um super-herói indestrutível, que vai salvá-lo de todas as situações difíceis. E se esquecem que ele é humano e cheio de defeitos e medos, como todo mundo", afirma.

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Confusão de papéis

O excesso de expectativas, segundo a psicóloga Graziela Baron Vanni, coautora do livro "Amor, Ciúme e Infidelidade" (Editora Letras do Brasil), é a origem dos problemas das pessoas que não se sentem felizes sozinhas e que esperam que o parceiro realize, de alguma forma, aqueles sonhos que elas não conseguiram atingir por conta própria.

Quem tem esse perfil também sente dificuldade de entender os papéis que cada pessoa representa em sua vida. “O parceiro de relacionamento não tem a obrigação de suprir o lugar do melhor amigo ou da mãe. Ele ajudará e dará conselhos também, mas à sua maneira", explica.

É preciso levar em conta que cônjuge está ao seu lado porque ama você. Ele vai ouvir suas reclamações, provavelmente lhe dará um abraço bem forte nos momentos de angústia e até poderá lhe dar algumas ideias de como resolver os seus problemas. Porém, não poderá enfrentar desafios em seu lugar.

"Quem espera muito do parceiro cria uma relação de dependência e sofre. Além disso, não é justo depositar no outro a responsabilidade pela própria felicidade", afirma Graziela.

Até porque, durante a busca por crescimento pessoal, é preciso lembrar que o par também possui o seu próprio universo, que ele tem experiências passadas e expectativas com o futuro. 

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"A consciência de que há outra história, além da que os dois estão construindo juntos, é a base real do respeito", declara Luiz Cuschnir. "A estabilidade se dará quando os dois aumentarem o vínculo a dois, ao mesmo tempo em que se desenvolvem individualmente", diz o psiquiatra.

Em tempos difíceis na relação, como durante uma crise financeira ou na chegada do primeiro filho, não adianta pressionar o parceiro. É preciso perceber o limite do outro e tornar-se cúmplice.

"Amar vai além de querer curar necessidades próprias. Quando você pensa apenas em resolver as suas necessidades de afeto e carinho, está pensando apenas em si", declara Thiago de Almeida.

Mas, então, o que é permitido exigir? "Os acordos que inicialmente se firmaram", responde Graziela. "O casal, desde o início, estabelece códigos de segurança e amor. Que são desde os beijinhos de ‘bom dia’ até a promessa de companheirismo e de ceder o ombro quando um ou outro estiver triste. São esses códigos que não podem se perder, porque evitam que a rotina instale o comodismo na relação", diz.

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