Equilíbrio

Masculinistas lutam por achar que feminismo foi longe demais

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O britânico Tom Martin, defensor dos direitos masculinos imagem: Divulgação

Caroline Randmer e Fábio de Oliveira

Do UOL, em São Paulo

Pouca atenção à violência doméstica praticada contra homens, menos chance de obter a guarda dos filhos, difusão de uma imagem bastante negativa deles pela mídia. Essas são algumas das causas pelas quais batalham os chamados movimentos masculinistas (ou movimento dos homens). Esses grupos começaram a ganhar corpo em alguns países da Europa no final década de 1970, mas há registros de manifestos do gênero no final do século 19.

"O masculinismo surgiu como uma resposta à crescente influência do feminismo", explica a socióloga Viviene Cree, da Universidade de Edimburgo, na Escócia. Segundo ela, em seus primeiros anos, esse tipo de ativismo chegou a simpatizar com a ideia de que as estruturas patriarcais haviam oprimido as mulheres ao longo dos séculos. "Mas, além disso, queria explorar como essas estruturas também eram capazes de impactar a vida dos homens", complementa Cree.

A partir de 1990, um novo masculinismo emergiu: dessa vez, antagonista às mulheres. "Hoje, as duas versões existem", diz a professora, cuja pesquisa se centra em temas como gênero no serviço social. Há tanto homens que lutam ao lado de mulheres contra o sexismo e a violência doméstica quanto aqueles afirmando que o feminismo foi longe demais e que agora a ala masculina está em desvantagem.

Fundador da International Association of Masculinists (Associação Internacional dos Masculinistas, em tradução do inglês), o designer americano Aoirthoir An Broc se encaixa no segundo grupo.

"Os homens concentram só 35% da riqueza do mundo, obtêm custódia das crianças em apenas 7% dos casos, representam 96% da população carcerária e são mais penalizados na escola quando tiram notas baixas", contabiliza Broc, que garimpa essas estatísticas de lugares variados, como o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o FBI, que é polícia federal estadunidense, e de sites de ativistas de direitos dos homens, como o A Voice for Men.

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Broc emite opiniões de deixar qualquer um de cabelos em pé. "Só por meio do masculinismo, o ginocentrismo vai acabar", diz o designer. De acordo com o Urban Dictionary, ginocentrismo seria um sistema no qual as percepções, desejos e necessidades femininos têm primazia.

"O mal, o pecado, a guerra, a violência, o estupro, o roubo e a corrupção têm origem no ginocentrismo. Ao difundir o masculinismo e a misoginia, os homens percebem que são todos irmãos. As mulheres já demonstraram que não são de confiança", diz ele. 

O movimento masculinista também já chegou ao Brasil. Proliferam na internet blogs, fóruns e páginas em redes sociais dedicadas ao tema. No Facebook, um dos destaques é a fanpage "Masculinismo Brasil – Por um Brasil Mais Justo com os Direitos dos Homens". A reportagem do UOL tentou entrar em contato com os administradores da página, mas não obteve retorno.

Outra figura admirada pelos masculinistas brasileiros é a do escritor Nessahan Alita, pseudônimo do autor de "Como Lidar com As Mulheres", livro no qual ele descreve as estratégias delas para ludibriar os homens no campo amoroso. A obra não está à venda em nenhuma livraria, mas pode ser baixada gratuitamente na internet.

Alita é uma lenda entre seus seguidores, que mantêm páginas nas redes sociais dedicadas a ele e suas frases, como "As mulheres continuarão sem notar sua presença, irão ignorá-lo e não sairão da inércia a menos que você ostente um símbolo visível de poder que demonstre superioridade social em relação aos machos rivais". Ninguém sabe seu nome verdadeiro.

Lola Aronovich, professora de Literatura em Língua Inglesa da Universidade Federal do Ceará e autora blog feminista Escreva Lola Escreva, investiga o masculinismo desde o início de 2011, quando começou a sofrer agressões online por quem ela veio a chamar de "mascus".

"Já era atacada por eles antes, mas nem sabia de sua existência. Desde o começo do meu blog, em 2008, percebi que havia um movimento de ódio contra as mulheres, principalmente contra feministas. Mas pensei que estivesse restrito aos Estados Unidos e não sabia que tinha o nome de Men's Rights Activists [Ativistas dos Direitos dos Homens]", diz Aronovich. 

"O masculinismo, como está descrito na Wikipédia, até parece uma coisa boa e legítima, mas ele simplesmente não existe, nem aqui no Brasil nem em nenhum país do mundo. Eles partem do princípio de que a verdadeira vítima do mundo moderno é o homem branco e hétero”, explica ela. “Essa crise da masculinidade vem dos anos 1970, quando o modelo do que é ser masculino passou a ser discutido. Por isso, muitos homens se sentiram obsoletos, sem perceber que é o padrão de masculinidade que eles perseguem que está ultrapassado".

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O britânico Tom Martin é outro proeminente defensor dos direitos masculinos. Ele ganhou notoriedade ao processar o Departamento de Estudos de Gênero da London School of Economics em 2012 por sua recusa inflexível em incorporar a discussão sobre questões relativas à igualdade dos homens ao seu currículo. Para Martin, masculinismo é uma palavra associada mais com antifeminismo ou visões tradicionais.

"Os ativistas que lutam pelos direitos dos homens não se autodenominam masculinistas. Alguns se declaram antifeministas porque não acreditam na seriedade do feminismo em erradicar as desigualdades que os homens encaram", diz Martin.

Segundo Martin, os ativistas sérios que lutam pelos direitos masculinos advogam por paridades que os homens nunca tiveram, como acesso igual a seus filhos depois do divórcio; testes de paternidade compulsórios para cada recém-nascido; licença-paternidade maior e com remuneração mais alta; vagas para homens em abrigos para quem sofreu violência doméstica; discussões sobre questões relativas aos homens nos currículos universitários; tratamento igualitário no sistema judiciário, nos partidos políticos e na mídia.

"Pesquisas mostram que a mídia factual se refere aos homens negativamente em 69% das vezes, apresentando-os como bobos, bandidos, traidores, pedófilos, estupradores e assassinos, e positivamente em apenas 12%”, afirma ele.

Martin elenca outros percalços que, segundo ele, passam os homens: a circuncisão nos bebês do sexo masculino; a quase inexistência de homens como professores em escolas e creches, o que deixa os meninos sem um modelo, prejudicando sua educação; 95% das mortes no local de trabalho são masculinas; nos namoros e casamentos, apesar de as mulheres jovens lá ganharem mais, são eles que arcam com as despesas; e se uma mulher decide ser violenta com um homem e ele chama a polícia provavelmente vai acabar preso.

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"Os governos deveriam reduzir impostos para mulheres e homens que trabalham em áreas onde seu gênero é pouco representado e também dar incentivo a empregadores que chegam a um maior balanceamento entre os sexos", afirma Martin.

"Mascus de todo o mundo ignoram qualquer estatística e acham que vivemos num matriarcado, ou, como alguns preferem chamar mais vulgarmente, numa 'sociedade bucetista'", diz Lola Aronovich. "Eles lutam contra problemas ilusórios e escolhem o inimigo errado, o feminismo, quando deveriam enfrentar o machismo, que os oprime". Afinal, complementa ela, quem diz que homem deve ser o provedor da casa, não pode demonstrar sentimentos, que precisa provar que é homem pelo número de parceiras sexuais que tem, que deve pagar a conta, não é o feminismo. É o machismo.

Autor do livro The Second Sexism : Discrimination Against Men and Boys (O Segundo Sexismo: Discriminação contra Homens e Garotos), David Benatar, professor de filosofia da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, diz que há vários motivos para o fato de a discriminação contra homens não estar na agenda do dia.

"Uma razão importante é que enquanto somos infindavelmente lembrados da discriminação contra mulheres, não há quase nenhuma menção à discriminação contra homens. Isso cria um conhecimento recebido, e o ser humano geralmente não é muito bom em questionar uma conhecimento recebido", diz Benatar. Sem contar que eles despertam menos simpatia do que elas. "As pessoas não se importam quando os homens são, por exemplo, vítimas de violência".

"Homens que lutam pela guarda dos filhos ou contra a violência doméstica praticada contra eles muitas vezes sentem que suas causas não são levadas a sério, enquanto o que ocorre com as mulheres é o contrário", explica a socióloga Viviene Cree. "Isso acontece porque eles sempre tiveram direitos, seja de voto, propriedade ou conjugais, diferentemente delas".

Segundo Lola Aronovich, os homens têm boas causas a defender. “Uma delas é combater a violência contra as mulheres, que na maioria das vezes é causada por eles. Não é preciso ser antimulher para ser pró-homem. Lutar contra o serviço militar obrigatório, no Brasil, ou contra o preconceito acerca do exame que detecta o câncer de próstata, por exemplo, são causas muito justas. Se o masculinismo realmente se importasse com os direitos masculinos, batalharia por elas".

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