Comportamento

Identificar a fome emocional é o primeiro passo para livrar-se dela

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Sensações de ansiedade e tristeza aumentam a vontade de comer alimentos mais calóricos imagem: Getty Images

Rita Trevisan e Suzel Tunes

Do UOL, em São Paulo

Depois de uma decepção amorosa, uma mulher afoga as mágoas em um pote de sorvete, sentada no sofá,em frente à TV. Você já deve ter visto uma cena dessas em algum filme. Afinal, o hábito de comer por impulso é tão comum que já virou clichê de comédia romântica.

Nos filminhos da tarde, tudo fica bem no final. Na vida real, porém, quem persiste nesse comportamento pode ter sérios problemas de coração –dessa vez, literais, causados pelo aumento dos níveis de colesterol, que podem prejudicar o sistema cardiovascular. E isso sem falar nos outros inúmeros males relacionados à obesidade.

Em geral, o impulso de comer em situações de tristeza ou ansiedade nasce de uma tentativa do nosso cérebro de voltar ao equilíbrio neuroquímico, que fica desestabilizado quando vivenciamos fortes emoções.

“Alimentos ricos em açúcar e gordura, como o chocolate, podem aumentar a quantidade de certas substâncias em nosso cérebro. Estamos falando da serotonina e das endorfinas, que estão ligadas à sensação de bem-estar e prazer”, explica a médica Ana Carolina Nader Vasconcelos Messias, diretora da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) do Rio de Janeiro. 

Adriano Segal, diretor de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade) explica que essas alterações químicas têm origem em um mecanismo ancestral de resposta aos estímulos de estresse.

“O estresse é compreendido pelo organismo como uma ameaça à vida. Para reagir, o organismo busca estocar energia e é por isso que acabamos recorrendo a alimentos mais energéticos, ou seja, mais calóricos”, afirma. Esse mecanismo adaptativo foi importante para a sobrevivência humana no tempo das cavernas, quando havia pouca oferta alimentar. “No nosso tempo, porém, ele é bastante ruim”, diz o psiquiatra.

O grande problema é que a memória dessas sensações agradáveis proporcionadas pelo alimento faz com que as pessoas tenham a tendência de repetir o hábito sempre que surge um momento de estresse, ansiedade ou tristeza. E o pior é que a ingestão dessa comida altamente calórica não sacia adequadamente a fome.

“A ingestão de alimentos ricos em açúcar ou que são rapidamente transformados em glicose promove uma grande liberação do hormônio insulina na corrente sanguínea. Só que, com a insulina alta, a pessoa sente ainda mais fome e mais vontade de consumir alimentos doces. Por esse motivo, a ingestão de alimentos que rapidamente se transformam em glicose pode levar a um círculo vicioso”, diz a endocrinologista Ana Carolina.

Emoções positivas também podem deflagrar a compulsão

Mas não são apenas as emoções negativas que podem favorecer a ingestão de alimentos calóricos, sobretudo os doces. Estados emocionais positivos também podem ser gatilhos para a compulsão alimentar, conforme afirma estudo realizado em 2006, por pesquisadores da Universidade do Texas, nos Estados Unidos. Eles descobriram que o alimento pode ser utilizado para intensificar os sentimentos positivos, como uma parte importante do ritual de celebrar.

“Há vários estudos sobre algo que chamamos de ‘emotional eating’, ou ‘comer emocional’, numa tradução literal. A expressão se refere ao hábito de comer em demasia em resposta a vários estímulos, não só os negativos como também os positivos”, declara o psiquiatra Adriano Segal.

Segundo Sidney Chioro, neurologista e professor de psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), as emoções formadas no sistema límbico, área que fica no centro do cérebro, podem agir diretamente no hipotálamo, que é o centro da fome, gerando o impulso de comer.

“As pessoas, em geral, não têm a informação de que a emoção é uma corrente elétrica cerebral, que se forma no sistema límbico e, como qualquer corrente elétrica, pode seguir o trajeto certo ou o errado. Se seguir o trajeto correto, para o córtex cerebral, vai levar a soluções. Agora, se seguir o trajeto errado, para onde for vai causar problemas”, afirma o neurologista.

E para quem já caiu na armadilha de comer além da conta, por impulso, e agora deseja emagrecer, Chioro indica outras técnicas, que vão muito além da dieta. “Se a pessoa apenas restringe o cardápio, até perde peso, mas não vai permanecer magra. Sua emoção continuará sendo direcionada para o lugar errado, provocando o impulso de comer, e ela voltará a engordar”.

Libertar-se desse impulso é possível quando se aprende a lidar com as emoções, garante o médico. “Há treinamentos e técnicas psicoterápicas que ajudam a pessoa a identificar suas emoções e a canalizá-las corretamente”, diz.

“O nutricionista pode ajudar a pessoa a separar as sensações físicas de fome e saciedade de outras necessidades ou impulsos para comer, como cansaço, raiva ou tédio. Já o terapeuta ou psicólogo pode ajudar a pessoa a pensar o que fazer com essas sensações”, completa Cézar Vicente Jr, nutricionista do Genta (Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares), de São Paulo.

Abaixo, confira alguns sinais característicos da fome emocional e física, que ajudam a diferenciá-las com mais facilidade*:

Fome emocional:

Aparece repentinamente; 
Envolve o desejo por um sabor ou um alimento específico; 
Ocorre independentemente da última refeição; 
Pode não desaparecer mesmo quando o estômago está cheio; 
Desperta sentimento de culpa depois de ser satisfeita. 

Fome física:

Aumenta gradualmente; 
É menos seletiva, se satisfaz com diversos tipos de comida;
Ocorre três a quatro horas após a última refeição;
Some quando o organismo está saciado;
Desperta sentimento de bem-estar quando é saciada.

*Adaptado do livro Shrink yourself: Breaking free from emotional eating forever (sem tradução para o português),do psicoterapeuta americano Roger Gould, ex-chefe do Departamento de Psiquiatria da UCLA (Universidade da Califórnia) e especialista em transtornos alimentares.

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