Comportamento

Pais que praticam bullying com filhos são frustrados com a própria educação

Pedro Curi / TV Globo
Cena mostra quando Shirley chega de viagem e traz um vestido GG para Bárbara de presente imagem: Pedro Curi / TV Globo

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Na tentativa de fazer com que a filha emagreça e se torne mais vaidosa, Shirley (Vivianne Pasmanter) sempre acaba pegando pesado com Bárbara (Polliana Aleixo). Uma das atitudes mais execráveis da ricaça de “Em Família”, da Globo, foi ter dado de presente à garota uma roupa tamanho GG, com clara intenção de humilhá-la.

Assim como acontece na trama de Manoel Carlos, na vida real algumas mães – e pais, também – ultrapassam os limites do bom senso na hora de fazer uma crítica aos filhos, ou ao tentar incentivá-los. Mas nem sempre, os motivos têm a ver com crueldade ou falta de afeto.

Segundo Marcelo Lábaki Agostinho, psicólogo clínico, psicanalista e terapeuta familiar com atuação em consultório particular e no Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), o modo como os pais lidam com os filhos é fruto, principalmente, da educação que receberam – para o bem e para o mal.

“Considerando que os pais costumam educar os filhos a partir da própria experiência com que foram educados, a tendência seria repetir a educação que receberam. Só que essa repetição pode se dar de duas formas distintas”, comenta o especialista.

A primeira seria a partir da idealização da educação que receberam. Ou seja, se pais usaram, por exemplo, de castigos ou autoridade, e isso aparentemente funcionou, por que não agir igual com os próprios filhos?

“A partir da idealização, a pessoa repete a educação recebida sem olhar para as necessidades e história dos próprios filhos, que podem ser muito diferentes da que os pais tiveram quando pequenos”, diz Marcelo.

A outra maneira percorre a direção inversa: educar os filhos a partir do contrário de como foram educados. Aqui, ao invés da idealização, há uma crítica (que pode ser mais ou menos acirrada) em relação ao modelo de educação que receberam.

“Se os pais foram muito rígidos, eles podem, por exemplo, educar os filhos de uma forma mais permissiva”, fala o psicólogo. 

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Comentários pejorativos podem provocar resultados desastrosos na autoestima imagem: Getty Images

Para Marcelo, no caso exposto pela novela, Shirley demonstra extrema inabilidade em abordar o assunto da obesidade com a filha, resultado de questões mal elaborados no passado com os próprios pais. Para quem não lembra, Shirley abominava os porres e escândalos públicos de Viriato (Henrique Schafer) e tinha vergonha do jeito fútil de Mafalda (Simone Soares) que, inclusive, parecia querer competir a com a filha no jeito de se vestir e se comportar.

“Talvez pais e mães parecidos com Shirley não queiram magoar ou não ajam por maldade ou falta de afeto, mas suas ações machucam os filhos, que as recebem de outra forma, sem que se dêem conta disso”, diz o especialista.

Na opinião de Rejane Sbrissa, psicóloga de São Paulo (SP) especializada no tratamento da obesidade e de transtornos alimentares, outro ponto de vista é que mães excessivamente críticas como a personagem de “Em Família” são controladoras e não aceitam os filhos como são por causa do próprio passado. 

“Provavelmente seus pais foram exigentes e cheios de cobranças. São mães que sofreram falta de afeto e que acreditam que estão agindo corretamente com os filhos para que eles não sofram o que ela sofreu”, declara.

Consequências ao longo da vida

O fato é que críticas e comentários pejorativos podem provocar resultados desastrosos na autoestima do filho. “Durante a infância a criança cresce achando que a mãe esta correta, mas não entende em que realmente erra... Só sabe que do modo como se comporta, não agrada. Sente-se sempre culpada e nem sabe direito o porquê”, conta Rejane.

De acordo com a psicóloga cognitivo-comportamental Mara Lúcia Madureira, de São José do Rio Preto (SP), a criança não tem capacidade de crítica para compreender que a mãe a maltrata por problemas relacionados à própria personalidade.

“Ela acredita que se o desprezo da mãe deve-se ao fato de que ela é ruim e não merecedora de afeto, daí a constante busca de aprovação dos pais”, explica.

Essa sensação de culpa já faz com que a criança se desenvolva até a adolescência sem autoestima, tornando-se insegura e fechada, pois tem medo de ser criticada, como a mãe o fez. Nem por isso, entretanto, os filhos rechaçam os pais ou deixam de gostar deles – na novela das 21h, é perceptível o amor que Bárbara sente por Shirley e o quanto gostaria de se sentir amada pela mãe.

E na idade adulta a pessoa não consegue se gostar e aceitar como realmente é. Está sempre querendo agradar aos outros e tentando fazer as coisas como os demais esperam. São indivíduos que nunca se sentem em seu próprio corpo, pois aprenderam desde cedo que o modo como são é errado ou insatisfatório.

A psiquiatra Dinah Akerman, de São Paulo, diz que ao longo da vida todos costumamos criar defesas psíquicas para nos proteger de situações que causam medo, dor e vergonha. E assim conseguimos sobreviver à prova dos arranhões no plano emocional.

“O maior desejo de qualquer pessoa é ser amada, principalmente pelos pais. Isso tende a se perpetuar na vida adulta se ela continua presa às defesas criadas na infância pela falta de afeto. É como se a Bárbara fosse regida pela sua criança interna”, fala. 

Mudança de atitude

É possível mudar esse padrão de relacionamento, mesmo se estiver arraigado há tempos? Dá trabalho, mas a resposta é sim.

Primeiro, é necessário que os pais se dêem conta de que vêm praticando uma espécie de bullying . “O passo seguinte é tentar agir de forma diferente. Será que quando se critica um filho de forma repetida, os pais não pensam que estão desejando que ele seja diferente do que é? Vale a pena analisar que, na sua diferença, o filho real pode ter outros aspectos positivos”, afirma Marcelo Lábaki Agostinho.

Aprender a criticar ou orientar sem magoar também exige esforço, segundo Rejane Sbrissa. “Comece avaliando se o filho precisa mesmo ser criticado e se você realmente o estará ajudando”, afirma.

A especialista recomenda começar a conversa falando das qualidades. Só depois a crítica deve ser colocada e sempre acompanhada de uma possível solução para o problema.

“Diga como pensa e como você resolveria. Ouça a resposta e lembre-se sempre que ele é outro ser humano, não uma extensão sua. Cada pessoa tem sua personalidade, vontades e gostos... Ao se sentir respeitado, o filho vai ouvir o que você tem a dizer. Ao final diga que ele sempre poderá contar com você”, explica a psicóloga.

Em casos mais extremos, em que os pais são resistentes a mudar a própria conduta, cabe à outra parte tentar romper esse padrão ao se esforçar para se conhecer melhor e, assim, se sentir mais confiante. Às vezes o auxílio de uma terapia é necessário, principalmente para quem quer fazer diferente quando tiver os próprios filhos. Durante esse processo, tentar enxergar algo de positivo na atitude dos pais também pode ajudar.

“Por mais que a mãe ou o pai critique um filho, praticando bullying, a relação pode englobar outros aspectos e, em alguns momentos, afetos positivos também aparecem. Na novela, a Shirley, apesar de a todo o momento apontar a questão da filha ser gorda, ela também tenta estimulá-la no desenvolvimento de sua  sexualidade, comprando lingeries para a garota”, diz Marcelo Lábaki, da USP.

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