Relacionamento

Em briga de marido e mulher, às vezes, se mete a colher

Leticia Vilela/UOL
A intervenção é necessária, por exemplo, quando a situação sai do controle e oferece perigo aos envolvidos imagem: Leticia Vilela/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

De acordo com a psicoterapeuta Carmen Cerqueira Cesar, todo casal tem uma dinâmica própria, um determinado modo de "funcionar" juntos que, aos olhos alheios, podem transmitir uma imagem distorcida. Por analisarem o que veem sob uma ótica particular, e não com base nos fatos que ocorrem na vida a dois, é que todo mundo deve pensar duas vezes antes de "meter o bedelho" na briga de um casal.

"Os desentendimentos acontecem mesmo com casais que se amam e se compreendem, e muitas vezes representam caminhos de evolução. Porém, alguns pares parecem gostar mesmo de uma boa briga", fala Carmen.

Só que às vezes, após a confusão, um dos parceiros (ou ambos) conta o que houve para amigos ou familiares, e é aí que mora o perigo. "Geralmente, a pessoa está apenas desabafando e depois tudo passa. Então o interlocutor deve ouvir, dizer 'ok, eu entendo', mas não dar palpite. Isso evita futuras situações constrangedoras com o casal", conta a psicoterapeuta.

No entanto, existem circunstâncias em que uma intervenção se faz necessária. Uma delas é quando a situação sai do controle e oferece perigo para as pessoas envolvidas – e para quem mais estiver por perto. Na opinião da psicóloga clínica e psicoterapeuta Triana Portal, é preciso se intrometer quando as brigas são frequentes e sérias ou quando uma das partes não consegue se defender.

"As mulheres, principalmente, tendem a sofrer caladas por vergonha, medo, dependência financeira e/ou emocional. A questão de gênero nas relações conjugais ainda tem forte influência da cultura machista. Elas continuam a ser educadas, mesmo que de forma inconsciente, para submissão e aceitação da prevalência de razão e direitos do homem. Por isso, em muitos casos, a intervenção de terceiros pode ajudar", declara a especialista.

Algumas pessoas não estão preparadas para se defender de uma situação dessas e acabam com a segurança e a autoestima detonadas por conviverem com um predador emocional. "Nessas situações, pode-se tentar conversar com a pessoa, fazê-la enxergar o que está acontecendo ou sugerir que vá à terapia. Ela precisa reagir, aprender a lidar com o abuso e violência a que está submetida, desenvolvendo os recursos necessários para sair da situação se for necessário", fala Carmen.

Para a neuropsicanalista Priscila Gasparini, o ideal é que as pessoas evitem interferências em brigas de casal. “A intromissão só é indicada em casos extremos, pontuados por riscos de agressão física, descontrole emocional, presença de crianças ou quando um dos dois estiver sob o efeito de álcool ou drogas”, explica.

Porém, segundo o advogado Fernando Damiani, da empresa Damiani Advogados, é preciso bom senso antes de tomar qualquer atitude mais drástica, principalmente se não houver um relacionamento próximo com os envolvidos.

“O que alguém de fora imagina ser uma briga nem sempre corresponde à impressão. O casal pode se reconciliar e a pessoa acabar sendo presa por violar sua intimidade ou até mesmo por cometer um delito como  agredir alguém”, diz o advogado.

Segundo Damiani, o melhor a fazer é pedir ajuda a uma autoridade policial ou a um médico. “No campo dos sentimentos, os indivíduos se transformam. É necessário ter prudência e pensar na própria segurança, pois há muito mais chance de um desfecho positivo ao chamar a pessoa certa do que bancar o salvador. Um policial, por exemplo, conta com um preparo emocional que o cidadão comum não tem”, afirma. A intromissão não deve ser por curiosidade e precisa ser limitada a alguns casos.

Bem conduzidas, as diferenças levam ao aprofundamento do vínculo e fortalecem a relação. “O casal deve ter privacidade e liberdade para as discussões corriqueiras, que são construtivas, regulam e ajustam conflitos. Nesses casos, a intromissão é dispensável e contraproducente”, diz a psicoterapeuta Triana.

É fundamental que a pessoa de fora evite “colocar mais lenha na fogueira”, tomando partido e instigando um contra o outro. O lado negativo da participação de amigos e parentes nas brigas de um casal é que não conseguem ter imparcialidade, sempre pendem para um lado. É importante acolher, mas sem intervir diretamente no conflito.

“Isso deve ser feito com calma e cautela com as palavras”, declara a neuropsicanalista Priscila Gasparini. Ouvir o desabafo, aliviar a tensão e acalmar os ânimos é mais saudável e produtivo do que dar opiniões e ficar tentando resolver crises que não lhe dizem respeito.

Manter os dois em locais separados até que fiquem tranquilos o suficiente para conversarem e se entenderem é uma atitude louvável. “Quando alguém se queixa, na maioria das vezes o que precisa é falar e dividir seu problema. Mas, as soluções e decisões devem ser tomadas pela própria pessoa”, diz Triana Portal, que recomenda o aconselhamento profissional para casais que não conseguem se entender.

“Um psicólogo ou terapeuta de casais pode, de fato, analisar a relação com clareza e ajudar. Nos casos em que o relacionamento não tem mais futuro e a separação se mostra a melhor saída, o psicólogo vai auxiliar e preparar o casal para encarar a realidade”, explica.

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