Comportamento

Perfis de pessoas mortas no Facebook viram memorial; entenda

Leo Gibran/UOL
O Facebook criou um serviço especial para as famílias de pessoas mortas imagem: Leo Gibran/UOL

Yannik D´Elboux

Do UOL, no Rio de Janeiro

A internet e as redes sociais não mudaram apenas a vida das pessoas. Os novos recursos tecnológicos estão transformando também a forma de lidar com a morte. Entre os vivos, no Facebook e em outros canais, continuam circulando perfis de pessoas que já morreram.

Além de permanecerem na rede, muitas contas de mortos ainda recebem postagens. Geralmente, a comunicação vem de amigos ou parentes, que mesmo depois do falecimento seguem interagindo com quem já se foi, relembrando momentos ou chorando virtualmente as saudades.

"Essa é uma forma muito concreta de negação da morte. É a mesma coisa do que manter um quarto intocado durante dez anos de uma pessoa que já morreu", diz o médico Evaldo D'Assumpção, especialista em Tanatologia, o estudo da morte, e um dos pioneiros na área no Brasil.

Para D'Assumpção, que prefere o título de biotanatólogo, para incluir a palavra bio (vida) no termo, alimentar ou deixar um perfil na internet de alguém que faleceu é aceitável por um curto período, porém não apagar a página pode interferir negativamente na superação do luto.

A cabeleireira Lucimar da Silva Garcia Santos, 42, moradora de Ouroeste, no interior de São Paulo, acredita que ver um ente querido constantemente nas redes sociais, depois da sua morte, estende mesmo o sofrimento. Desde que o cunhado morreu, há dois anos, vítima de um assassinato aos 36 anos de idade, ela não acessa mais o perfil dele, que continua ativo no Facebook. 

Na página do cunhado de Lucimar, é possível ler muitas mensagens dos amigos, que continuam publicando em seu mural, inclusive lhe dando os parabéns na data do seu aniversário. Lucimar diz que, por enquanto, os irmãos não pretendem administrar nem excluir o perfil.

Apesar de não entrar na página, a cabeleireira costuma fazer em sua própria linha do tempo homenagens ao cunhado, de quem era muito próxima, marcando o nome dele nas postagens. “Acho que ameniza um pouco a dor, traz uma certa paz, às vezes sinto necessidade disso. Mas a saudade nunca acaba, lembro dele todos os dias”, conta Lucimar.

Memoriais virtuais

A grande quantidade de perfis de mortos no Facebook motivou a rede social a criar um serviço especial para as famílias dessas pessoas, em funcionamento desde fevereiro deste ano. Além de solicitar a exclusão da conta, os parentes podem também transformar o perfil em um memorial.

Com essa configura $!$render-component.split('/')[$math.sub($render-component.split('/').size(), 1)]

Também existem no exterior algumas redes sociais criadas especialmente para celebrar os mortos. No Brasil, foi lançado em 2012 o site iHeaven com essa mesma proposta, que ainda funciona em uma versão beta enquanto espera por investidores.

Segundo Canindé de Freitas, empresário de Caraúbas, no Rio Grande do Norte, um dos idealizadores do projeto, o objetivo do serviço consiste em oferecer um espaço virtual para homenagear os mortos anônimos e famosos.

"Em um futuro bem próximo, a maioria dos relacionamentos passará pelo digital. Os atos de ir ao cemitério, a cultos, ritos, à missa e cultuar simbologias também acontecerão em ambientes virtuais", acredita.

O iHeaven pretende comercializar objetos virtuais, como velas, flores, cruzes e símbolos de diferentes crenças e religiões. Canindé diz que a rede conta hoje com cerca de 5.000 cadastrados e também fará a venda de planos funerários, além de dividir os lucros com os usuários mais ativos que administrarem os perfis de personalidades famosas.

Fases do luto

Como o fenômeno das redes sociais é recente, ainda não existem estudos que analisam o impacto dessas tecnologias na vivência do luto e na relação com a morte. Para o psicólogo Aroldo Escudeiro, coordenador da Rede Nacional de Tanatologia, os perfis de mortos nas redes refletem uma nova maneira de viver o luto.

Escudeiro acredita que essa vontade de manter uma relação virtual com os falecidos tem ligação com a segunda fase do luto, quando existe o anseio e a busca pela figura perdida. O psicólogo esclarece que, apesar da compreensão racional da morte, o entendimento emocional dessa situação demora mais tempo para acontecer. “Há uma premência do indivíduo de buscar o objeto perdido [a pessoa morta] em imagens, sons e figuras”, diz.

O biotanatólogo Evaldo D'Assumpção explica que o luto costuma durar dois anos. A atitude de se desfazer das coisas da pessoa que morreu é um bom sinal de que o processo está sendo superado. “Se demora mais de dois anos, pode ser um luto patológico e precisa ser tratado”, alerta o médico.

Apesar de ser a única certeza da vida, Escudeiro afirma que ainda não aprendemos a encarar bem a morte, um assunto quase proibido. “Nós, sul-americanos, temos muita dificuldade em lidar com isso. Não se quebra o tabu porque não falamos sobre a morte, não temos uma educação sobre a morte e não conseguimos mudar esse paradigma”, justifica.

Evaldo D'Assumpção defende a importância de trabalhar o luto, em alguns casos com ajuda profissional, e conta que muitos não consideram essa possibilidade porque pensam, erroneamente, que isso significa esquecer a pessoa amada. “Não é isso, é aprender a lembrar sem sofrer. Quando a pessoa atingir esse estágio, o luto acabou”, diz. 

Topo