Sexo

O par não quer sexo? Veja motivos que não têm a ver com traição

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Problemas profissionais, cansaço e doenças são alguns dos inimigos da libido imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo


Quando alguém percebe que o parceiro está mais distante sexualmente, é comum pensar: "Só pode ser traição!". Mas há uma série de circunstâncias na vida de um casal que prejudicam o desejo e que não necessariamente sinalizam a presença de amantes. Saber quais são –e aqui especialistas apontam os principais– ajuda e muito a solucionar a questão.

1. Problemas no trabalho

De acordo com o ginecologista e terapeuta sexual Amaury Mendes Jr., professor e médico do Serviço de Sexologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o trabalho está relacionado com a busca pelo sucesso. "É preciso, a qualquer custo, independentemente se a pessoa curte ou não o que faz, ter reconhecimento. Quando isso não ocorre ou custa a acontecer, o indivíduo se decepciona consigo mesmo e se frustra por não se achar digno da admiração do par", afirma ele.

A psicóloga especializada em sexualidade Juliana Bonetti Simão, de São Paulo (SP), lembra que a profissão nos insere no mundo, e, para muitos, é algo sagrado. Quando o lado profissional fica abalado, é comum sentirmos tristeza e a queda do apetite sexual acontece. "Passamos muito de nosso tempo na empresa, por isso pode ser difícil para muita gente desligar o pensamento daquilo que traz tensão e se concentrar na relação sexual", explica.

2. Cansaço

O cansaço pode ser um grande desmotivador para o sexo, já que transar exige criatividade, energia e disposição. "Uma pessoa cansada não quer fazer esforço físico e mental... Que dirá sexo, em que a troca é imprescindível", diz a terapeuta sexual Carla Cecarello, fundadora da ABS (Associação Brasileira de Sexualidade), entidade que promove estudos sobre o tema.

Para muita gente, descanso significa não fazer nada, mas, às vezes, o ócio cansa mais ainda. "É preciso investir em atividades que relaxem o corpo e a mente. Nem sempre é fácil, mas para ter ideias de como ter uma vida mais estimulante, que ajude na sexualidade, é preciso esforço para sair da prostração", diz Juliana. "Reserve um dia da semana para chegar mais cedo do trabalho e namorar. E também evite comprometer o fim de semana com trabalho", fala Amaury.

3. Problemas hormonais ou doenças

A atuação de diversos hormônios costuma interferir no desejo sexual. "Basta um deles estar desequilibrado para que todo o sistema seja prejudicado, afetando a libido”, declara o terapeuta sexual Oswaldo Martins Rodrigues Jr., diretor do Inpasex (Instituto Paulista de Sexualidade). 

A psicóloga Juliana Bonetti Simão, afirma que muitas doenças podem induzir à disfunção sexual, bem como o tratamento medicamentoso. Procurar ajuda médica e fazer os exames adequados elimina qualquer dúvida.

4. Preocupações com dinheiro

Na opinião de Carla Cecarello, a falta de dinheiro é a inimiga número um de um relacionamento sadio –e de uma vida sexual ativa e prazerosa. "Trata-se de um problema que faz com que a pessoa se sinta o pior dos seres humanos. Quer sair para se divertir, não pode! Quer comprar uma roupa nova, não pode! Quer presentear o parceiro, não pode! Fora que só pensa no que fazer para saldar as dívidas. Ou seja, toda a energia fica canalizada para a situação", explica.

A questão financeira provoca queda no desejo sexual porque é algo extremamente angustiante. Ter que fechar a conta no fim do mês pode provocar muita briga e discussão, causando mal-estar e afetando diretamente a vontade de um estar junto ao outro. "A preocupação com dinheiro já indica problemas de falta de organização, de planejamento de vida", comenta o terapeuta sexual Oswaldo. Para colocar tudo nos eixos, seria importante o casal rever toda a sua trajetória e seus planos.

5. Dinâmica sexual do casal

Rotina, fazer sexo sempre na mesma posição, seguir o velho “roteiro” de preliminares... A falta de novidades e de sensações diferentes pode ser um dos motivos que levam o desejo para a geladeira. Para a psicóloga Juliana, a questão fundamental é que o casal da atualidade precisa desenvolver habilidades para quebrar a monotonia sexual. 

"Vivemos em uma sociedade em que tudo muda muito e rápido, e isso influencia na forma como as pessoas se relacionam. Muito mais do que técnicas sexuais que comprovam desempenho, acredito na vivência da sexualidade de um jeito mais lúdico. Criatividade na hora do sexo é a chave da questão e, por incrível que pareça, não pede algo extraordinário, nem performático, muito menos artificial".

Segundo o terapeuta sexual Oswaldo, outro ponto é a troca emocional. "Se ambos convivem através de emoções positivas, o sexo sempre será produtivo. Mas muitos casais se relacionam através de brigas e disputas, o que tem como consequência a baixa libido de um ou de outro", conta.

6. Baixa autoestima

Quem não se gosta e não está satisfeito consigo mesmo dificilmente vai ter espontaneidade, criatividade e vontade de se relacionar sexualmente. É preciso que a pessoa busque entender quais os motivos da autoestima baixa e compreender o que está interferindo em sua vida e a impedindo de ser plena e feliz.

"É uma situação muito ruim, pois quem tem baixa autoestima mostra piedade de si mesmo e isso acaba, muitas vezes, irritando o outro. Ninguém quer ter ao lado alguém que se sinta derrotado ou fracassado, pois passa a ser um peso. E ter alguém ao lado com uma autoimagem prejudicada requer estar sempre bem e com o astral lá em cima, como se não tivesse o direito também de 'cair’ de vez em quando. Dessa forma, o relacionamento fica pesado", diz Carla. Procurar ajuda profissional é fundamental.

7. Dificuldade de aceitar o próprio corpo

Mais comum entre as mulheres, principalmente pela cobrança social. A busca por padrões inatingíveis acaba deixando a mulher pouco à vontade para ficar nua diante do parceiro, fazer sexo com a luz acesa, realizar posições que exponham supostos defeitinhos... A preocupação com a imagem que têm de si mesmas, em detrimento do prazer (próprio e o do parceiro), acaba afetando a libido drasticamente.

"Para termos uma vida sexual satisfatória é preciso estarmos bem, livres de padrões estéticos nos quais não nos encaixamos”, fala a psicóloga Juliana. Dar prazer e sentir prazer não tem a ver com o formato do corpo, mas com a disponibilidade e a vontade de se entregar à situação.

8. Depressão pós-parto

Trata-se de uma situação peculiar que algumas mulheres experimentam depois do nascimento do bebê. Entre os diversos sintomas, a queda da libido sexual é muito comum. "Quando um filho chega, além da questão hormonal que interfere no desejo sexual feminino, existe uma mudança radical na vida do casal. Um filho demanda muito. É comum a mulher experimentar diversas emoções a respeito de tudo. Existe uma ambivalência afetiva que pode desestabilizar. É preciso ter paciência e buscar ajuda profissional", diz Juliana.

9. Gravidez da parceira

O homem não deseja a reprodução da mesma forma que a mulher, segundo o terapeuta sexual Oswaldo Rodrigues Jr. Alguns ficam bem confusos durante a gestação da parceira, e atravessam esse período esperando que logo mais tudo voltará a ser como era anteriormente. "Não se trata de não desejar o corpo em modificação, mas de não sentir que tem a mesma parceira", comenta.

O ginecologista e terapeuta sexual Amaury Mendes Jr. lembra que muitos homens sofrem da “Síndrome da Virgem Maria”, ou seja, a mulher vira uma santa quando está grávida e, portanto, não deve ser tocada. “Outros parecem que engravidam junto: engordam e sentem náuseas, confundindo o papel de gênero e deixando a mulher insegura”, diz Amaury.

Há, ainda, os que temem erroneamente que a penetração possa provocar danos à saúde do feto. “Praticar sexo durante a gravidez é saudável e extremamente importante para a mãe, que se sente acolhida no encontro amoroso e sexual com o parceiro”, afirma Juliana.

10. Crise pessoal

Acomete mais os homens do que as mulheres, principalmente na questão que envolve a queda do desejo. Isso acontece porque o sexo masculino tem mais dificuldades em lidar com as crises pessoais do que as mulheres, justamente porque a eles nunca foi ensinado lidar com os aspectos emocionais.

Uma crise pessoal pode colocar em questão todas as escolhas que fez para a própria vida até então. Geralmente, existe um agente catalizador da crise, que pode ser a perda do emprego, o adoecimento de uma figura importante na vida do sujeito, o nascimento do primeiro filho que impõe uma nova rotina na vida do casal. "É humano que em momentos de turbulência o homem experimente uma queda na sua libido sem que isso signifique traição", afirma Juliana.

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