Vida no trabalho

Casal que trabalha junto coloca o romance em risco? Veja histórias

Arquivo pessoal
O casal Roberta e Weber Cecchetti tem uma agência de viagens no Rio de Janeiro imagem: Arquivo pessoal

Louise Vernier e Thaís Macena

Do UOL, em São Paulo


Na vida do casal Roberta e Weber Cecchetti, trabalho e lazer se misturam. Casados há 12 anos, nos últimos nove eles uniram, também, as vidas profissionais: ela, dentista, de 41 anos, e ele, professor de educação física, de 52, se tornaram proprietários de uma agência de turismo no Rio de Janeiro. Trabalham lado a lado. Roberta cuida da parte financeira da empresa, enquanto Weber atua como agente de viagens.

Nas férias, eles também viajam juntos, aproveitando algumas vantagens que o negócio oferece. “Mesmo em casa, estamos ligados ao trabalho. Para mim, isso é uma vantagem, pois conseguimos montar estratégias. Estamos somando esforços para o que o nosso negócio cresça cada vez mais”, diz Weber. “Mas claro que o trabalho não deve ser o único assunto do casal", completa.

Situações como essas são vivenciadas por boa parte dos brasileiros hoje. Segundo estatísticas do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), o número de empresas familiares no Brasil chega a 85%. Sem contar os casais que dividem os escritórios das empresas privadas e das estatais. Mas será que esses homens e mulheres não estão colocando o relacionamento amoroso em risco ao decidirem dividir a vida profissional?

Segundo a psicóloga Nereida Salette Paulo da Silveira, especialista em Administração de Negócios e Recursos Humanos pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie, os estudos acadêmicos divergem sobre a questão.

"Algumas pesquisas têm mostrado que a intimidade do casamento interfere no desenvolvimento profissional, enquanto outras defendem que a relação de trabalho conjunto pode estimular o crescimento pessoal. Mas, na sua maioria, os estudos sobre a relação família-trabalho indicam que a fonte de problemas está no conflito de papéis e não no trabalho em si", afirma a psicóloga.

Uma das abordagens nesse campo de estudos é a Teoria do Derramamento (Spillover Theory). Ela defende que quando um desses domínios, trabalho ou família, se mistura com o outro é que surgem os maiores desafios. De acordo com esse estudo, as mulheres –que, em geral, costumam assumir demandas familiares maiores do que as dos homens– seriam as mais propensas a enfrentar problemas.

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O casal Claudio Sacco e Fernanda Sacco formam uma dupla sertaneja imagem: Arquivo pessoal

“Entretanto, trabalhar com o parceiro ou parceira pode ser muito salutar, já que propicia uma compreensão mais profunda dos desafios apresentados na vida profissional de ambos”, afirma Nereida. Foi o que constatou uma pesquisa realizada em 2008 pela ISMA-BR (International Stress Management Association no Brasil). Após entrevistar 608 casais de Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP), a organização, especializada na pesquisa e tratamento do estresse, mostrou que os casais que trabalham juntos conseguem entender melhor as angústias e a carga horária do par.

No caso da dupla Clau e Nanda, conhecer melhor as peculiaridades e os desafios impostos pela carreira escolhida é um diferencial e tanto. Claudio André Sacco, de 36 anos, e Fernanda Maldonado Campanini Sacco, de 34, formam uma dupla sertaneja, são compositores e músicos. E ela já se acostumou a lidar com as fãs que assediam o marido, até porque também recebe cantadas durante as apresentações. “Quando ele ganha bilhetinhos das meninas, eu não faço cara feia. Mas, depois do show, ele me entrega tudo, antes mesmo de ler”, diz.

Momento de ser casal, momento de ser colega

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Larissa Moutinho e Daniel Kelle trabalham em uma agência de comunicação imagem: Arquivo pessoal

A jornalista Larissa Moutinho, de 29 anos, e o designer Daniel Keller, de 30, empregados de uma agência de comunicação, namoram há 4 anos e já aprenderam a lidar com a tendência de levar problemas do trabalho para o âmbito doméstico.

"No início, era muito comum compartilharmos tudo, chegávamos a ficar mais de quatro horas falando sobre trabalho. Com o tempo, paramos para analisar e concluímos que essa cumplicidade, embora maravilhosa, estava nos fazendo deixar um pouco de lado a vida pessoal. A partir de então, combinamos, juntos, de nos policiarmos. Até hoje é um exercício que fazemos. Quando percebemos que estamos falando demais de trabalho, um olha para o outro e diz um sonoro: 'Chega!'".

Para Nereida, é impossível separar completamente família de trabalho: “Somos seres indivisíveis. Então, não conseguimos impedir que uma preocupação com o trabalho continue nos afetando ao chegar em casa e vice-versa. Mas o ideal é que os casais que trabalham juntos busquem resolver as questões de casa em casa e as do trabalho no trabalho, adotando estratégias de conciliação de tempo e espaço".

O psicólogo Rafael Chiuzi, doutor em Psicologia do Trabalho pela USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do curso de Gestão de Recursos Humanos da Universidade Metodista de São Paulo, assina embaixo. “O casal precisa se manter firme no propósito de não ter como hábito tratar assuntos domésticos no trabalho e vice-versa. Esse é um desafio comum mesmo na vida de casais que não trabalham juntos”, diz o psicólogo.

"Esse tipo de dificuldade também é comum quando um casal tem o primeiro filho. A partir dessa nova realidade, eles terão que redefinir seus papéis e estabelecer momentos para serem casal e outros para serem pais. Um casal que trabalha junto precisa fazer a mesma divisão, afinal, eles são casal, mas também são colegas".

Para fazer dar certo

Veja recomendações para os casais que trabalham na mesma empresa não prejudicarem a carreira:

Conheça a política da companhia
A administradora Aline Souki Amaral de Paula, coordenadora do curso de Especialização em Gestão e professora da Fundação Dom Cabral nas áreas de Pessoas e Comportamento Organizacional, diz que é importante verificar se a empresa tem alguma política definida em relação aos casais. "Há empresas que não os contratam. O cônjuge de um funcionário nem pode participar do processo seletivo e, no caso de uniões que ocorram entre funcionários já contratados, assim que o relacionamento é oficializado, a companhia opta por fazer o desligamento ou a transferência de um dos dois. Em outras empresas, não há qualquer restrição", esclarece.

Não esconda o relacionamento
Andrea Huggard-Caine, diretora da ABRH (Associação Brasileira de Recursos Humanos-Nacional) recomenda que, assim que o casal oficializar um relacionamento estável, comunique aos superiores na empresa. “Acho prudente avisar o supervisor imediatamente. Assim, ele pode garantir, por exemplo, que o seu funcionário evite situações de conflito de interesse (nas quais possa haver desconfiança de favorecimento de um funcionário em relação ao outro)", diz Andrea.

Seja discreto
A administradora de empresas Sylvia Ignácio da Costa, coordenadora do Curso Superior de Tecnologia em Gestão de Recursos Humanos da Universidade Anhembi Morumbi, diz que discrição é fundamental. “Evite, por exemplo, tratar o outro com apelidos carinhosos que fazem parte de sua intimidade”, aconselha. Da mesma forma, tome cuidado com manifestações de carinho, como beijos e abraços, tanto no ambiente de trabalho quanto em eventos sociais da empresa. E, por fim, jamais discuta problemas pessoais no ambiente profissional.

Mantenha o foco
Pense sempre em atingir os objetivos organizacionais. “O importante é que, no ambiente de trabalho, cada um se responsabilize por fazer as suas tarefas com qualidade, pontualidade, independentemente do relacionamento afetivo que tem fora da empresa. Relacionamentos construtivos podem, inclusive, fortalecer a equipe e a companhia como um todo", diz Aline.

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