Equilíbrio

Psicologia positiva prioriza o lado bom da vida, mas não ignora a dor

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A felicidade é um dos principais enfoques da psicologia positiva imagem: Getty Images

Rita Trevisan e Suzel Tunes

Do UOL, em São Paulo


Há quem diga que a busca pela felicidade, atualmente, se tornou uma obsessão. No Butão, por exemplo, um minúsculo país da Ásia, o índice de “Felicidade Interna Bruta” é medido oficialmente desde 2010. Ele é baseado em um conceito de desenvolvimento humano cunhado em 1972 e, agora, diversos países, como Canadá e Austrália, também estão realizando pesquisas para mensurar a felicidade de seus habitantes.

Aqui, está em curso o levantamento chamado de Well Being Brazil (em português, Índice de Bem-Estar Brasil), liderada por pesquisadores vinculados à FGV (Fundação Getúlio Vargas).

A felicidade é, também, um dos principais enfoques da psicologia positiva, movimento que teve início na década de 1990, com a publicação dos estudos do então presidente da Associação Americana de Psicologia Martin Seligman.

“Essa corrente busca promover uma mudança no modo de se olhar para os fenômenos psicológicos, priorizando os aspectos positivos e saudáveis, que nos conduzem à experiência do bem-estar”, explica Fabio Scorsolini-Comin, doutor em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo) e professor da UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro).

Um campo de estudos relativamente novo, a psicologia positiva é frequentemente utilizada em cursos motivacionais e palestras na área de gestão de empresas. Para a psicóloga Michelle Thieme, mestre em psicologia social pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e professora da Escola Naval, a ênfase dada ao tema acaba por reforçar a cultura atual, que restringe a validade da existência ao alcance de emoções ditas positivas, como alegria e felicidade.

"Hoje em dia, ser feliz deixou de ser uma possibilidade e virou obrigação moral. Em função disso, outras abordagens psicológicas e filosóficas, que colocam a fragilidade e a dor como constituintes inevitáveis de nossa condição humana, acabam não tendo quase nenhum apelo popular e comercial. Esse imperativo da felicidade tem transformado as experiências dolorosas em patologias e tem incentivado o uso excessivo de remédios nos consultórios", afirma a professora.

O lado bom da vida

Para a psicóloga Bruna Seibel, que pesquisou a psicologia positiva em seu mestrado pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), o senso comum tem distorcido o conceito original dessa área.

“Existe a ideia de que se vai trabalhar apenas com o olhar positivo da situação do paciente. Mas isso não é verdade. Não se trata de colocar um óculos cor-de-rosa para fazê-lo enxergar a realidade de um jeito diferente. A psicologia positiva não nega o sofrimento do paciente, apenas busca ressaltar os recursos internos que ele tem para superá-lo", diz.

Fabio Appolinário, doutor em psicologia pela USP e diretor científico do IPPC Brasil (Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento), diz que o próprio nome adotado para o novo campo de estudos pode levar a mal-entendidos, pois pressupõe a existência de uma psicologia negativa, quando, na verdade, a diferença seria apenas de enfoque.

“A psicologia ficou muito tempo no modelo médico, debruçou-se sobre a doença, a disfunção. Só que, de uns quinze anos para cá, começamos a olhar também o outro lado da questão, avaliando as virtudes e as forças pessoais do paciente para enfrentar o problema".

Segundo o psicólogo, o objetivo da nova abordagem é estudar a felicidade utilizando uma metodologia científica, como uma resposta do meio acadêmico aos manuais de autoajuda, que tentam dar receitas prontas de como viver bem.

A felicidade, na visão dos especialistas, seria muito mais um estado passageiro, singular, impossível de ser quantificado e generalizado. Enquanto a angústia seria o estado natural do ser humano. “Quando as pessoas passam a refletir sobre isso na terapia, percebem que elas têm o direito de ficarem infelizes e que a tristeza não é doença”, diz a psicóloga Michelle.

Para ela, os ideais culturais de felicidade são cada vez mais inatingíveis e voláteis. E o resultado é que nos sentimos cada vez mais vulneráveis e fracassados, como se estivéssemos agindo aquém do esperado, sempre. “Experiências dolorosas provenientes de lutos, desilusões e frustrações, em vez de serem silenciadas e encaradas como anormalidades no consultório, devem ser escutadas e refletidas”, finaliza.

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