Equilíbrio

Estamos perdendo o limite ao nos expormos nas redes sociais?

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Uma das necessidades mais básicas do ser humano é amar e ser amado. Nas redes sociais, a realização desse desejo se manifesta através dos "likes" imagem: Orlando/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Mais do que compartilhar links e informações e fazer novas amizades, as redes sociais funcionam como diários virtuais em tempo real. São comuns posts de gente narrando a rotina, reclamando do trabalho, mostrando a roupa do dia, o prato do almoço ou exibindo sua localização: na academia, na faculdade, no hospital ou na balada. Isso sem contar os "selfies" (autorretratos).

Recentemente, a norte-americana Emily Letts, de 25 anos, postou no YouTube um filme do aborto legalizado que fez em uma clínica médica, com a finalidade de conscientizar as mulheres de que o procedimento é um tabu que precisa ser combatido. As imagens renderam mais de um milhão de visualizações. Sucesso semelhante têm feito os "selfies after sex” (autorretratos de casais depois de, supostamente, terem transado).

Tanto o vídeo de Emily quanto as fotos pós-sexo são, no momento, os exemplos mais contundentes de que a exposição da vida particular em tempos de redes sociais ainda deve render muitos desdobramentos. E aqui cabe a pergunta: as pessoas estão perdendo os limites nessa exposição?


Para Pedro Luiz Ribeiro de Santi, líder da área de Comunicação e Artes da ESPM-SP (Campus São Paulo da Escola Superior de Propaganda e Marketing), postar constantemente acontecimentos particulares é um sinal de autoafirmação. “Antes, as pessoas obtinham reconhecimento social através da família ou do trabalho. Hoje, esse reconhecimento vem através das curtidas em um post. Os 'likes' parecem dar sentido à existência”, explica.

Na opinião de Bia Granja, fundadora e curadora do You Pix, site sobre a cultura de internet que se transformou em festival em 2009, a questão não é analisar se posts são ou não necessários, mas reconhecer que sempre atrairão o interesse de alguém.

“Podemos nos perguntar também a quem interessa tanta notícia, novela e uma série de coisas. Ninguém precisa saber de nada, mas as pessoas gostam de acompanhar a vida umas das outras”, afirma Bia, que diz ainda que qualquer um hoje é emissor de informação e tem uma audiência interessada nessas publicações.

“Se não fosse interessante para ninguém, a pessoa não teria seguidores, amigos, 'likes' e afins. Fora que quem critica a exibição alheia nunca acha a própria exposição demais, só a dos outros, não é?", declara ela.

Popularidade e narcisismo

Uma das necessidades mais básicas do ser humano é amar e ser amado. Nas redes sociais, entretanto, a realização desse desejo se manifesta através dos "likes", mas nem sempre essa popularidade acontece no plano real.

“A ilusão de que a quantidade de curtidas determina a aceitação das pessoas pode dar ao indivíduo a sensação de que é aceito socialmente, mas não revela a consistência de uma amizade duradoura, no contato pessoal, baseada na confiança mútua”, fala Claudete Pagotto, coordenadora do curso de Ciências Sociais da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo).

Para Pedro Luiz, da ESPM-SP, os "selfies" depois de transar também apontam o esvaziamento das experiências reais. “Parece que o sexo só se torna real se for ‘público’”, explica.

De acordo com a psicanalista Luciana Wickert, de Porto Alegre (RS), n

Conforme as teorias de Luciana, as aparências se tornaram mais importantes do que a realidade. Uma foto no Instagram não é garantia de que a pessoa é feliz, mas seu pretenso sucesso já ajudam a formar uma imagem virtual e socialmente desejada, digna de inveja e admiração.

Para os especialistas, tanto narcisismo é um reflexo de nossos tempos. “É preciso compreender, no entanto, que o narcisismo não é simplesmente sinônimo de vaidade ou egoísmo, ele é o desespero para corresponder ao desejo e à curiosidade do outro e, assim, se ver reconhecido”, afirma Pedro Luiz. “Trata-se exatamente de se sentir amado ou simplesmente existente aos olhos de alguém. É preciso ler esses fenômenos sem um viés moralista ou patológico que os encare como um erro ou doença. Somos todos narcisistas e, hoje, os espelhos são as redes sociais”, completa.

Causa e efeito

Para Bia Branja, do You Pix, vivemos o “boom” da exposição nas redes. Mesmo que venha por aí uma modinha de postagens mais polêmicas que a do aborto filmado ou do "after sex", o exibicionismo deve diminuir. “A tendência é que comecemos a fazer um movimento de retomada da intimidade, compartilhando as coisas com grupos menores de pessoas, através de aplicativos como WhatsApp [programa de mensagens instantâneas para celular]", diz.

Enquanto isso não acontece, é importante pensar antes de postar. E a medida do excesso ou não é estritamente individual. Ninguém é obrigado a permanecer conectado a uma rede que lhe pareça agressiva a seus valores. “O limite da exposição é sempre muito pessoal, não existe um padrão. As pessoas mais jovens, principalmente adolescentes, têm uma relação diferente com privacidade... Eles não ligam muito para isso”, diz Bia.


Ao se exporem em redes sociais, as pessoas dificilmente têm noção do alcance disso, assim como da perda de controle sobre o conteúdo postado. “Algumas postagens até geram uma fama instantânea, como as de blogueiras adolescentes que difundem dicas de estética ou alimentação. Mas a exposição retirada de contexto pode ter resultados terríveis”, afirma Pedro Luiz.

De acordo com Vânia Penafieri de Farias, coordenadora do curso de pós-graduação em Comunicação Corporativa e Redes Sociais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, por mais que a exposição nas redes seja cuidadosa, muitas coisas podem sair do controle.

“Por exemplo: você pode ter uma preocupação grande, por questões profissionais, em não postar fotos que mostrem o consumo de bebida alcoólica, mas é provável que amigos o marquem em alguma foto que você não gostaria de se expor. A linha que separa exposição e excesso de exposição é bastante tênue e delicada”, explica.

Ainda segundo Vânia, ninguém deve desprezar a realidade de que cada vez mais as empresas analisam candidatos por meio das redes sociais. “Não é uma foto na balada segurando um copo de cerveja que trará uma associação ruim a você, mas talvez muitas fotos desse tipo, imagens que trazem exposição excessiva do corpo e comentários negativos como as famosas indiretas, produzem uma conotação muito negativa para quem postou”, afirma.

“Se você se incomoda com os posts de alguém, pode desativar as notificações da pessoa, deixar de segui-la, desfazer a amizade ou bloqueá-la. É muito comum ver gente reclamando do que outros postam, mas, se parar para pensar, perceberá que tem a linha do tempo que merece. Você é o curador do conteúdo que é exibido no seu perfil, e só você pode mudar isso se não estiver gostando”, declara o consultor de mídias sociais Felipe Agne, de São Paulo (SP).

Para ele, se expor nas redes hoje é inevitável e o limite é o bom senso de cada um. “Mas se o bom senso fosse algo abundante, não precisaríamos de termos de uso nem de leis. Os limites realmente dependem da intenção e do perfil de cada um. Os níveis de exposição de um executivo, de um ator, de uma escritora e de uma dançarina de funk são completamente diferentes. Não há certo e errado, há o adequado à necessidade e ao objetivo de cada pessoa”, afirma.

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