Equilíbrio

Retiro espiritual é uma opção para quem busca o autoconhecimento

Getty Images
Meditação está entre atividades comuns de retiros espirituais imagem: Getty Images

Marina Oliveira e Maísa Correia

Do UOL, em São Paulo

Um lugar onde o silêncio e o isolamento do mundo externo propiciam o contato consigo mesmo. Essa talvez seja uma boa definição de retiro espiritual. Independentemente da religião ou da crença que possa ser difundida no local, o objetivo desses refúgios, no geral, é um só: levar a uma descoberta mais profunda de si mesmo e a uma conexão –ou reconexão– com os valores e desejos individuais.

Na tradição cristã, a finalidade do retiro espiritual é permitir uma aproximação maior com Deus, por meio de oração e do silêncio, assim como fez o Papa Francisco quando, em março deste ano, passou uma semana em um local reservado.

“Todo jesuíta faz, anualmente, um retiro espiritual, de cerca de sete dias. Trata-se de uma busca de renovação espiritual, de uma pausa para recarregar as baterias antes de retomar a missão concreta a que a pessoa se dedica. Também pode ser um tempo privilegiado para aumentar o discernimento em relação a uma determinada situação da vida, antes de tomar uma decisão", explica o professor Alfredo Sampaio, do departamento de Teologia da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).

As experiências propostas no retiro são pensadas tendo em mente um público-alvo. Por isso, ainda que a finalidade do recolhimento seja a mesma, cada estabelecimento vai organizar a sua programação de acordo com objetivos específicos. Em um retiro de meditação e ioga, por exemplo, os participantes vão experimentar as duas práticas durante a estadia. Já quando o retiro é voltado para os que seguem uma determinada religião, é comum haver palestras sobre temas relacionados ao estudo daquela doutrina.


A estudante Luciana Ferreira Cesetti, de 22 anos, é espírita e, desde os 18, frequenta um retiro que acontece durante o Carnaval, com duração de quatro dias. "Nesse período, nos dedicamos a estudar o Evangelho (uma das obras básicas do espiritismo) e também praticamos atividades esportivas e de lazer, que visam aproximar os participantes do grupo e estimular o autoconhecimento. Também aproveitamos esses dias para desenvolver trabalhos sociais voluntários", conta.

Por reunir pessoas com interesses afins, esses refúgios também favorecem a ampliação do círculo social de quem os frequenta. "São lugares excelentes para fazer novas amizades e reencontrar velhos amigos. Às vezes, precisamos ouvir de outras pessoas que os nossos problemas e a nossa vida não são tão ruins quanto parecem e para perceber que ninguém está sozinho no mundo", diz a assistente de marketing Heloisa de Melo Castro, de 19 anos, que frequenta retiros cristãos desde a infância.

As regras locais

Os retiros, normalmente, são lugares que favorecem o descanso do corpo e da mente. No entanto, não devem ser confundidos com hotéis ou colônias de férias. Todos eles têm suas regras e uma rotina que precisa ser seguida pelos participantes.

No geral, n

O preço varia dependendo da entidade que organiza e da duração do recolhimento. Para estadias de fim de semana, a faixa de preço vai de R$ 100 a R$ 400 por pessoa. O valor é usado para cobrir os custos com hospedagem e alimentação. Em muitos locais, os participantes também são convidados a trabalhar voluntariamente para manter o bom funcionamento do espaço e ajudam não só no preparo das refeições, como também a limpar os cômodos.

"No retiro, aprendemos a dividir as coisas e a viver em comunhão com o próximo. Deixamos as diferenças de lado para nos organizar e desenvolvermos atividades em grupo, como a limpeza", explica o jornalista Renato de Farias Fontes, de 23 anos, que frequenta retiros evangélicos desde os 17. “Há horário para tudo. De manhã, há o culto e, depois, um tempo livre para diversão, que usamos para jogar bola, nadar ou ler um livro. Durante a tarde, há gincanas desenvolvidas pela liderança do grupo de jovens e, à noite, novamente nos dedicamos ao culto”, diz Renato.

Arquivo pessoal
Renata Sussekind dos Guaranys, de 45 anos, frequenta retiros espiritualistas imagem: Arquivo pessoal

Aprendendo a desacelerar

A artista plástica Renata Sussekind dos Guaranys, de 45 anos, frequenta retiros espiritualistas (que não estão diretamente vinculados a uma religião) há muitos anos e se orgulha de ter aprendido nesses locais a prática da meditação. “Meditar é essencial, pois você aprende a se olhar com mais amor. Gosto de ir a retiros porque faço uma limpeza da mente e do corpo, volto para a minha rotina sem estresse e com mais clareza dos meus propósitos”, diz.

Ela garante que pessoas com vida e mente agitadas podem se beneficiar muito da ida a um retiro, por conta da atmosfera calma e silenciosa que lhes será imposta. “Por vezes, o ser humano precisa fechar os olhos para ver mais longe e tapar os ouvidos para ouvir melhor. Um retiro pode ajudar a rever o nosso projeto de vida e permitir aprofundar a própria verdade”, diz o teólogo Evilázio Teixeira, doutor em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.

A assistente de marketing Heloisa é prova disso. “Sempre sinto que volto diferente de um retiro. Tenho um dia a dia muito corrido e só o fato de passar um tempo sem pensar em nada que se relacione à minha vida cotidiana já faz com que eu saia de lá mais relaxada e com a cabeça fresca”, diz.
 

Topo