Relacionamento

Vale a pena manter um casamento de aparências, como em 'Império'?

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José Alfredo e Maria Marta, da novela "Império", vivem um casamento de fachada imagem: ReproduçãoGshow/Império

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Nunca foi segredo para os filhos e amigos mais próximos que José Alfredo (Alexadre Nero) e Maria Marta (Lilia Cabral) têm um casamento de aparências na novela "Império", da TV Globo. Embora há tempos não se tratem mais como marido e mulher, o casal não se separa por uma série de motivos: não manchar a imagem de família perfeita perante a sociedade, disputa de poder na empresa, interesses financeiros e, ao que tudo indica, motivos escusos que ocorreram entre a primeira e a segunda fase da novela e que ainda serão revelados.

Na vida real, muitos casamentos de fachada se mantêm pelos mesmos motivos apontados na história de José Alfredo e Maria Marta e por outras razões. “Há casais que continuam juntos porque são guiados por questões morais e/ou de tradições culturais e religiosas que acabam valorizando mais o estado civil do que a felicidade”, afirma o psicólogo Waldemar Magaldi Filho, de São Paulo (SP), coordenador do curso de especialização em  psicologia junguiana do Ijep (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa).

Na opinião da psicoterapeuta Carmen Cerqueira Cesar, de São Paulo (SP), a identidade social como casal é o que dá base a esses homens e mulheres. “Parece haver algo falho em sua identidade pessoal, pois eles não se sustentam sozinhos emocionalmente. Precisam amadurecer, mas crescer dói, dá trabalho, tira da zona de conforto. O ganho em manter essa situação é permanecer protegido das ‘dores do crescimento’, do esforço que faz parte do processo de individuação”, afirma.

Além disso, e também decorrente disso, é bem comum existir uma relação de dependência, em que existe uma complementaridade de papéis ou de traços de personalidade. É uma associação íntima entre duas pessoas, sendo que uma precisa da outra. Não existe necessariamente amor, mas com certeza existe a necessidade: um não vive sem o outro.

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Segundo Triana Portal, psicóloga clínica e psicoterapeuta de São Paulo (SP), não é raro encontrar casais que estão juntos por força do hábito ou porque acreditam que o casamento é ruim, mas a separação pode ser ainda pior. “São pessoas geralmente de meia-idade, com muitos anos de relacionamento, que superaram crises e ficaram juntas para não abalar os filhos ou manter o padrão financeiro. Algumas perdoaram traições e chegaram em um ponto que, por mais pesado que seja, se acostumaram a viver desse jeito”, explica.

Sobre continuarem a se amar ou não, é difícil aferir: cada vínculo tem sua história e seus protagonistas. “Há casos em que o amor fraternal é o que segura, em outros, um amor doentio domina a cena. Comodismo e co-dependência são frequentes, também”, completa Triana.

Medo da solidão, receio de encontrar parceiros que tragam ainda menos satisfação, ciúme e insegurança sobre o futuro são alguns dos fatores que levam alguns casais a continuar vivendo juntos por anos a fio.

“Muitos dizem querer manter o casamento por causa dos filhos, esperando que eles cresçam para se separarem. Esse pode parecer um motivo válido num primeiro momento, mas na minha experiência em consultório percebo que o argumento serve mais como uma desculpa para postergar a atitude, pois muitas vezes os filhos crescem e o casal não se separa. Então, conclui-se que o problema era outro. E se os filhos não sentem os pais realmente felizes, acaba sendo pior, pois o relacionamento se torna um mau exemplo. Pais felizes e realizados criam filhos felizes e capazes de se realizar", afirma Carmen Cerqueira Cesar.

As consequências de um relacionamento conveniente podem ser devastadoras. “A aparência pode ficar mantida por muito tempo, mas o custo individual é muito grande. Manter uma relação de fachada porque não quer dividir patrimônio, assumir publicamente o fracasso ou prefere acreditar na ilusão de que os filhos irão se beneficiar é um erro que, inevitavelmente, produz danos psicossomáticos e sociais”, diz Waldemar.

Infidelidade, surgimento de doenças como depressão, prejuízos à autoestima da família, brigas, cotidiano estressante, escândalos públicos e até mesmo violência física e psicológica são alguns dos riscos. “Além disso, mágoa, rancor e ressentimento estão presentes o tempo todo. Mal resolvidos, os dois não são realmente felizes. O outro é a desculpa para tudo. Além de se machucarem mutuamente, muitas vezes acabam machucando quem está à volta”, diz Carmen. A psicoterapeuta cita a personagem Maria Ísis (Marina Ruy Barbosa), que é amante de José Alfredo, como uma das vítimas desse processo em “Império”.

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Filhos, amigos e parentes percebem a infelicidade do casal, que não se dá conta de que não consegue disfarçar a tristeza o tempo todo. Em alguns casos, no entanto, o companheirismo e a amizade podem sustentar um casamento de aparências porque são ingredientes importantes para qualquer relacionamento, principalmente em se tratando de casais mais maduros, que valorizam mais a companhia um do outro, o que foi construído, do que a paixão e outras necessidades mais prementes em outras fases.

Nesses casos, a convivência pode ser harmoniosa e doce, não necessariamente vazia ou nociva. “Existem muitas formas de amar. Quando ambos estão no casamento com clareza do que um quer em relação ao relacionamento, e não em relação ao outro, cada um estará seguro de si e terá um envolvimento racional-afetivo, e não emocional-sexual. Há respeito na continuidade desse casamento”, explica a psicoterapeuta Sandra Samaritano, de São Paulo (SP).

A vontade de um dos dois de resgatar uma relação que um dia foi intensa e amorosa também pode estar por trás de várias uniões de fachada. É o caso da personagem Maria Marta, que ainda é apaixonada pelo Comendador e cultiva esperanças de reconquistá-lo. "Em todo casal, um é mais carente, mais frágil, mais apaixonado, dependente ou ciumento e menos preparado para o rompimento. Essa pessoa com baixa autoestima e insegurança costuma ser mais apegada e aceita qualquer coisa, com base, por vezes, na crença de que não conseguirá o amor de mais ninguém. Por isso prefere aceitar a situação”, fala Triana.

No entanto, quem acata não é o único responsável pelas circunstâncias. Segundo Waldemar Magaldi Filho, relações assim são de mão dupla, patológicas e, portanto, ambos são cúmplices.

Em “Império”, apesar do descaso que insiste em demonstrar pela mulher, dá para perceber que José Alfredo continua a nutrir algum sentimento por ela. “Pode ser que o amor dele ainda se revele, pois a impressão é que ainda existe uma certa chama. O ponto crucial é: por que e quando eles se perderam um do outro?”, indaga Carmen.

De acordo com a psicoterapeuta, na vida real, quando se percebe que ainda existe amor, deve-se tentar descobrir o que deteriorou a relação. Na maioria das vezes, o casal tem que procurar ajuda profissional. Mal entendidos causados por falta de diálogo, expectativas irreais, raivas guardadas e não resolvidas, entre outras questões, podem estar ali subjacentes à situação de viver mal sem saber exatamente a razão. “Recuperar o brilho perdido do relacionamento, dependendo do caso, é possível, sim, especialmente se ainda existir amor. E, claro, a vontade genuína de ficar junto”, diz Carmen.

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