Relacionamento

Homens e mulheres encaram a traição de modos diferentes

Leh Latte/UOL
Você perdoaria uma traição? Use o campo de comentários para responder imagem: Leh Latte/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Mesmo com a evolução dos costumes e com a luta cada vez maior pela igualdade de gêneros, homens e mulheres, por mais semelhantes que sejam os papéis que desempenham em sociedade, têm visões distintas sobre as relações amorosas, em especial quando envolve a traição.

A começar pela motivação: embora a ideia de que a mulher só trai porque está apaixonada não corresponda mais à realidade, é fato que, atualmente, o sexo feminino dá vazão ao prazer com mais intensidade. “A mulher está mais exigente afetivamente e sexualmente. Se for preciso, busca fora do seu relacionamento outro parceiro sem remorso”, afirma a psicoterapeuta Sandra Samaritano, de São Paulo (SP).

"Os motivos vão desde insatisfação com o par até autoestima baixa, vingança por ter sido traída, não se sentir mais desejada pelo parceiro ou por falta de atenção, conversa, carinho, romance e intimidade”, conta a antropóloga Mirian Goldenberg, professora do curso de pós-graduação em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e autora de "Por Que Homens e Mulheres Traem?” (Ed. BestBolso).

O homem, desde a adolescência, é ensinado e até incentivado a separar sexo de amor. Segundo Mirian, muitos dizem que amam e desejam suas parceiras, mas não conseguem resistir à aventura sexual, à atração física, à vontade, à oportunidade, ao instinto e, sobretudo, à vocação. As velhas justificativas de que o sexo masculino precisa buscar mais parceiras por questões biológicas (assegurar um maior número de herdeiros) ainda vêm à tona na forma de frases como “ele é homem”, “homem é assim mesmo” ou “todo homem trai”.

Essas justificativas também encontram apoio no padrão cultural –a modernidade dos costumes ainda não venceu (e provavelmente ainda vai demorar a vencer) a barreira da tradição. É por isso que a infidelidade feminina é bem menos aceita do que a masculina. "Trata-se de um reflexo do pensamento machista de que o homem pode transar com várias mulheres, nunca o contrário, que muitos pais passam para os filhos até hoje", diz a psicoterapeuta Maura de Albanesi, também da capital paulista.

Sobre aceitar ou não uma traição, os gêneros também se diferenciam. Elas costumam relevar a infidelidade do par com maior facilidade do que eles. “Elas perdoam porque acreditam que o homem se deixou levar pelo momento e traiu. Ou seja, ele só queria sexo, não há amor envolvido. A mulher leva muito em consideração os próprios sentimentos e por isso tende a perdoar com mais facilidade”, diz Maura de Albanesi.

Segundo Sandra Samaritano, os valores femininos ligados à família e à manutenção do relacionamento ainda são muito arraigados, por isso muitas passam por cima do que aconteceu em nome da preservação da relação. “A mulher também leva em conta a história do casal, o lar que construíram... Algumas enxergam até a possibilidade de um crescimento pessoal e afetivo a partir da reconciliação, de uma nova fase para o casamento”, afirma a psicóloga Heloísa Schauff, de São Paulo (SP).

Varrer a sujeira para debaixo do tapete nJá os homens não se atêm muito às questões sentimentais. Para a maioria vítima da infidelidade feminina, o grande dilema não é a parceira ter ou não se apaixonado, mas ter transado com outro sujeito. A ferida é na própria masculinidade.

"Quando descobrem que foram traídos, não suportam a ideia de que são ‘cornos’, que os outros saibam que são 'cornos'. É mais um problema social, para eles”, comenta Mirian, que diz ainda que o medo de encarar a realidade e se sentir menos másculo faz com que alguns sejam acometidos por uma espécie de "cegueira voluntária". Eles preferem acreditar que as mulheres são fiéis, não querem saber a verdade nem que elas contem nada a respeito.

Uma nova postura masculina, entretanto, começa a se desenhar. “O homem tem dado muito mais vazão ao seu lado afetivo-emocional. Tem sentido-se mais vulnerável em relação aos conceitos que aprendeu e sobre o papel que a mulher tem exercido em sua vida”, conta Sandra.

A psicóloga Heloísa Schauff, que trabalha com terapia de casal, diz que os homens vêm se mostrando mais dispostos a perdoar a infidelidade e assumir sua cota de responsabilidade pelo o que aconteceu. Os que traem, por sua vez, têm experimentado sentimentos de culpa por quebrar a parceria com a mulher. “Isso vem acontecendo principalmente com a geração mais jovem, que já experimenta uma divisão maior de responsabilidades no relacionamento e no casamento”, comenta.

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