Comportamento

Seus pais idosos não querem ir ao médico? Veja como agir

Getty Images
Filho deve proporcionar atentimento médico ao idoso, mas não obrigá-lo, se for lúcido imagem: Getty Images

Yannik D´Elboux

Do UOL, no Rio de Janeiro

Levar uma criança ao pediatra pode ser considerada uma tarefa bastante fácil se comparada a ter de convencer um idoso teimoso a ir ao médico. Muitos filhos enfrentam essa dificuldade com os pais em idade avançada. Mesmo precisando de mais atenção à saúde, alguns recusam tratamento e fogem até de uma simples consulta de rotina.

A recusa de certos idosos em receber cuidados médicos tem relação com suas experiências de vida e situações ocorridas no passado. "O receio do idoso muitas vezes é de ter que tomar muitos remédios, fazer exames, ficar internado. É preciso analisar de forma muito cautelosa de onde vem essa resistência", afirma o médico geriatra João Bastos Freire Neto, presidente da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).

É comum entre os mais velhos o medo de descobrir doenças e de ser obrigado a tomar medicamentos sem necessidade. Além de identificar a causa desses temores com base no histórico do paciente, cabe ao médico, segundo João Freire, fazer um atendimento personalizado e quebrar preconceitos que o idoso possa ter acerca da consulta.

Porém, nem sempre os filhos conseguem fazer com que os pais cheguem até o consultório. Para a psicóloga Geraldine Alves do Santos, especialista em Gerontologia Social, professora e coordenadora do projeto de extensão em Psicogerontologia da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo (RS), é importante mostrar para eles aos poucos a necessidade de ir ao médico. "Os filhos têm que ter muita sensibilidade no processo de convencimento para não impor isso aos pais", ressalta.

Geraldine acredita que uma boa estratégia consiste em contar com o apoio dos amigos e dos grupos de convivência para convencer o idoso. "Quando o filho fala, é como aquele pai que conversa com o adolescente. Quando o amigo diz, ele percebe de forma diferente", explica.

O presidente da SBGG também alerta para que o diálogo com os pais tenha informações consistentes, com razões específicas para procurar o atendimento médico. “Muitas vezes, o filho fica batendo na mesma tecla ou desiste fácil, o que só gera conflito. Não entra numa discussão mais esclarecida", diz.

Excesso de consultas e medicamentos

Em muitos casos, os idosos fogem do médico por pura teimosia e receios infundados, entretanto, algumas vezes eles têm mesmo razão em reclamar. Segundo o geriatra e cardiologista Márcio Borges, que também ministra cursos para cuidadores de idosos e criou o site Cuidar de Idosos, com informações sobre o tema, é frequente o excesso de consultas e exames.

Por causa do hO acompanhamento com diversos especialistas ao mesmo tempo também resulta em vários tratamentos paralelos com uma quantidade muito grande de remédios. "Muitas vezes, existe um excesso de medicamentos. E quanto maior o número de medicamentos, menor é a adesão", diz João Freire.

O presidente da SBGG também acredita que a melhor solução para essa dificuldade é buscar um médico que conheça bem a saúde do idoso. "Se for só no especialista, ele acaba sendo visto apenas pela sua doença e não por sua condição global. O geriatra vai olhar o quanto cada doença repercute na vida daquela pessoa", explica.

Troca de papéis

É papel dos filhos possibilitar o acesso dos pais aos cuidados médicos necessários. Contudo, essa atuação, na opinião dos especialistas, tem limites. Se o idoso tiver autonomia e lucidez para tomar suas decisões, elas devem ser respeitadas. "A pessoa tem o direito de decidir", acredita o geriatra João Freire.

Para a psicóloga Geraldine dos Santos, não adianta tratar os pais como crianças. Ela diz que muitos idosos estão corretos em não aceitar essa troca de papéis, pois isso tira a autonomia deles.

O parâmetro para uma atitude um pouco mais autoritária, na visão da professora da Feevale, passa pela análise das consequências de não ir ao médico ou fazer os exames preventivos. "A pessoa está se colocando em uma situação de risco, está comprometendo a saúde?", questiona. Se a resposta for sim, o caminho para fazer o idoso mudar de ideia depende da personalidade de cada um, para que se mantenha o respeito sem se omitir.

Márcio Borges destaca que tudo depende da cumplicidade entre pais e filhos, além do grau de independência dos idosos. "Muitas vezes, uma boa conversa pode resolver tudo. É preciso saber ouvir a pessoa idosa", afirma.

Nos casos em que nada adianta, o jeito é aceitar o que não se pode mudar. Se mesmo depois de esclarecer a importância de recorrer ao médico, o idoso insiste em não ir, não há muito o que fazer se ele for lúcido e autônomo. "O filho não deve sofrer por coisas que não dependem dele. O papel dele é dar acesso, encontrar uma solução, mas não cabe a ele oprimir o idoso", diz o presidente da SBGG. 

Topo