Comportamento

Veja dez perguntas que você deve se fazer antes de pensar em adoção

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Casais heterossexuais e homossexuais podem sofrer preconceito por adotar um filho. Você está preparado para isso? imagem: Getty Images

Louise Vernier e Rita Trevisan

Do UOL, em São Paulo


A adoção deve acontecer no momento certo e ser tratada como um importante projeto de vida. É preciso que a família amadureça a ideia antes de receber a criança no lar, o que implica em refletir sobre questões centrais que envolvem a criação e a educação de um filho.

"É fundamental considerar que, embora a criança tenha sido gerada em outro ventre, ela será sempre um filho, com tudo de bom e com todas as responsabilidades que esse nome pode trazer", diz Cintia Liana Reis de Silva, psicóloga pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas, especialista em adoção.

Nesse processo, é interessante avaliar expectativas, crenças e, principalmente, a motivação para adotar. "O que vai garantir a saúde emocional da criança é um vínculo afetivo sadio com os pais. Essa criança precisa ser incluída na família como um filho, apenas isso", afirma a psicóloga Luciana Leis, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Saiba mais sobre o assunto, reflita e avalie se está preparado para dar esse importante passo.

1. Qual é a sua motivação para adotar?

Essa é uma das questões mais importantes sobre as quais você deve pensar. "A adoção não deve ser caridade, antes de tudo, deve-se ter o desejo de criar e educar um filho. Afinal, adotar significa se tornar mãe e pai para sempre, para as alegrias e para os momentos mais difíceis", afirma a psicóloga Lidia Weber, professora e pesquisadora da UFPR (Universidade Federal do Paraná), autora de 12 livros sobre relações familiares, entre eles "Pais e Filhos por Adoção no Brasil"” (editora Juruá).

Se os pais descobriram a infertilidade ou perderam um filho genético, é fundamental viver o luto e encontrar o equilíbrio emocional, antes de partir para a adoção. "A adoção nunca deve ser encarada como um último recurso e, sim, como mais um caminho para a chegada de um filho", diz Luciana.

2. Quais são as suas expectativas?

Fantasiar demais sobre a criança e o papel que ela terá na família é algo que tende a prejudicar a relação. É preciso dosar as expectativas, a começar pelo momento do primeiro encontro. "Pode ocorrer um momento mágico, em que os adotantes visitam um abrigo e a criança que vem falar com eles é aquela que eles foram conhecer, mas nem sempre é assim. Se a criança for pequena, pode estranhar, chorar, não querer ir no colo. Se for maior, também poderá se afastar", afirma Lidia.

É preciso ter em mente que a criação do vínculo emocional leva tempo e que até os pais biológicos passam por esse processo. "O amor nasce da convivência e não do parto. Toda relação de amor, para existir, precisa que as pessoas envolvidas se adotem", diz Cintia.

3. O que você sabe sobre adoção?

"Cuidar, educar, socializar e amar um filho é uma das tarefas mais difíceis e gratificantes que existe e todos que têm a pretensão de viver essa experiência, seja pele genética, seja pela adoção, devem se preparar", declara Lidia. Segundo a psicóloga, o cuidado vai além da habilitação formal, que os adotantes precisam obter nos Juizados. É interessante preparar-se tecnicamente: ouvir palestras, ler livros, conhecer histórias de quem já adotou e frequentar grupos de apoio à adoção.

"Não basta ter sido filho para saber criar um filho. No caso da adoção, é essencial se preparar para lidar com o fato de que a criança tem uma outra origem, de forma segura e leve", diz Lidia.

4. Como estão as suas emoções?

Antes de ter um filho, adotado ou não, o ideal é conhecer seus recursos e fraquezas, trabalhar as próprias carências e medos, aprimorando o autoconhecimento. "Outra questão importante é avaliar o modelo de educação recebido dos pais. E ir além da própria história de filiação: procurar não repetir erros e ainda desenvolver novas habilidades", recomenda Lidia.

5. Sua família já conhece o seu projeto?

É possível que nem todos os parentes estejam de acordo com a adoção, mas eles devem ser avisados com antecedência dos seus planos. Também vale a pena dizer que espera apoio e que não vai tolerar preconceitos e diferenças. Entre o casal, é essencial que haja um consenso sobre todas as questões que dizem respeito à adoção. "Se há alguma crise na família ou entre o casal, isso precisa ser resolvido antes da chegada da criança. Porque ela vai exigir muitos ajustes na rotina. Se já houver um problema de relacionamento, a tendência é aprofundá-lo", diz Luciana.

6. Você tem estrutura para criar um filho?

Isso implica em ter uma vida financeira equilibrada e estável, em ter espaço na casa para uma criança e em viabilizar, na rotina, alguns intervalos que possam ser dedicados exclusivamente ao filho.

"Os aspectos psicológicos também são importantes. Não basta desejar muito um filho, é necessário estar preparado para uma relação que vai durar a vida toda, estar pronto para enfrentar adversidades e também para curtir as alegrias associadas à experiência", afirma a psicóloga Lidia Weber. "Ter um filho não é igual ter uma boneca para enfeitar e mostrar aos outros: é construir uma história, é trabalho duro e exige energia, tolerância e disposição", completa a especialista.

7. Está preparado para lidar com os possíveis preconceitos?

A discriminação pode vir de quem menos se espera, de forma velada ou não. "Muitas pessoas vão apoiar, mas é muito comum que, ao anunciar a decisão de adotar, surjam comentários como: 'Nossa, que coragem!' ou 'Por que você vai fazer isso?'. O importante é que os pais se sintam absolutamente confortáveis com a decisão que tomaram. Além disso, aconselho treinar respostas adequadas para essas situações desafiadoras", diz Lidia.

Se quem adota

8. Você já sabe como vai contar à criança sobre a adoção?

Existe um consenso entre os especialistas de que a criança deve conhecer sua condição desde os primeiros dias no novo lar. "Seu filho tem o direito de conhecer a própria história de vida e deve se orgulhar dela, afinal, não há vergonha alguma em ter sido adotado. Além disso, é preciso considerar que é sempre melhor saber pelos próprios pais da adoção do que por meio de terceiros", diz a psicóloga Cintia Liana Reis de Silva.

Quando a criança começar a perguntar sobre a origem dos bebês, por volta dos três ou quatro anos de idade, os pais já devem introduzir a adoção como mais um caminho para a constituição da família.

9. Se seu filho pedir mais apoio emocional, como vai reagir?

A maioria das crianças que está na fila da adoção sofreu algum tipo de negligência, abandono ou maltrato em sua família de origem. Portanto, os pais adotivos deverão estar emocionalmente equilibrados para apoiar o filho sempre. "É possível que, em uma idade mais avançada, a criança, principalmente a institucionalizada, teste o vínculo. Ela tem medo de ser novamente abandonada, precisa se sentir amada e segura no novo lar", diz Luciana.

Isso não significa dizer que as crianças adotivas terão mais problemas de relacionamento com seus pais do que os filhos biológicos. "Geralmente, as crianças sabem que estão indo para uma condição muito melhor e estão prontas para se apegarem e estabelecerem laços de afeto com facilidade", afirma Lidia.

10. O que fará se, mais tarde, seu filho quiser conhecer os pais biológicos?

A psicóloga Lidia Weber, pesquisadora e autora de diversos livros sobre o assunto, afirma que, ao contrário do que se imagina, a maioria dos filhos adotivos não tem informações sobre sua família de origem nem deseja conhecê-la. "A maioria dos filhos adotivos que eu entrevisto diz que está feliz com sua família atual e tem a ideia de que a família de origem o abandonou mais por falta de condições financeiras do que por falta de amor", diz Lidia.

No entanto, se a criança quiser conhecer os pais biológicos, tem o direito de fazê-lo. "O ideal é que os pais adotivos expressem empatia pela família de origem da criança, que não mostrem raiva nem queiram apagar as experiências que ela viveu com os outros pais. Não é preciso ter medo de dividir o amor da criança com os pais biológicos, se eles forem encontrados. A filiação é garantida pela via emocional e não pela via biológica", afirma Lidia.

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