Relacionamento

Até que ponto vale a pena insistir em uma relação problemática?

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É preciso avaliar quando um parceiro está prejudicando a sua vida imagem: Miki/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Todos nós temos defeitos. E, para fazer uma relação afetiva dar certo, precisamos aprender a lidar com eles –os nossos e os do par. Alguns tipos de comportamento, porém, costumam não só testar os limites da paciência como transformam a rotina diária em um verdadeiro campo minado. As atitudes do parceiro problemático acabam prejudicando a vida do casal de uma forma que, em muitos casos, ela se torna insustentável.

Cabe à parte mais equilibrada emocionalmente decidir se segue ou não em frente com a história. Não estamos falando aqui de casos que envolvem problemas de saúde, como depressão e dependência química ou alcoólica, mas, sim, de questões como endividamento, consumismo, mania de grandeza, dependência excessiva dos pais. Perturbações que, em princípio, podem ser toleráveis, mas que, com a convivência, passam a envenenar os envolvidos. Muitos casos podem ser revertidos ou tratados, mas a pessoa precisa querer mudar.

Para a terapeuta de casal e psicopedagoga Mônica Hoehne Mendes, de São Paulo (SP), conviver com uma pessoa problemática é bastante complexo. "Sugiro, antes de mais nada, perguntar a si mesmo qual a disponibilidade e estrutura emocional que se tem para conviver com as questões do outro", diz. Como exemplo, ela cita alguém que tem dificuldade para se manter no emprego, pois está sempre sonhando alçar voos maiores: quem vive com essa pessoa tem ou quer ter condições e disposição para bancar a vida a dois?

Os problemas nem sempre causam incômodo no início do relacionamento, quando tudo é movido pela atração e pela emoção. Com o arrefecimento da paixão, a relação entra em uma rotina e os casais precisam encarar as mazelas do dia a dia. O encantamento some e cede lugar à realidade, revelando os defeitos. Ceder e aprender a lidar com parte menos bonita do par é primordial para a convivência, mas quando há questões como consumismo desenfreado e pavio curto, altas doses de abnegação, compreensão e doação serão exigidas.

A tolerância é elástica, ainda mais porque, de acordo com a psicóloga Heloisa Schauff, de São Paulo (SP), a maioria de nós busca por um par. “Preferimos fazer parte de um casal a estarmos sós. Por isso que, mesmo percebendo que a relação não está legal, muitos ficam unidos. As pessoas cultivam a fantasia de que seu amor e dedicação podem mudar o outro, e que, assim, conseguirão adaptá-lo ao seu mundo", fala.

Para a psicóloga e sexóloga Jussania Oliveira, de Americana (SP), o ser humano é extremamente adaptável e dotado de inteligência suficiente para ser capaz de reconhecer quando e por quais motivos precisa mudar. "Mas o maior empecilho é, na maioria das vezes, desejar de fato essa mudança. É necessário muita disciplina e determinação para conseguir o êxito", fala. 

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A psicóloga e psicodramatista Adelsa Cunha, co-organizadora do livro "Por Todas as Formas de Amor – O Psicodramatista Diante das Relações Amorosas" (Ed. Ágora), lembra que as pessoas mudam, sim, mas não de acordo com as expectativas alheias. "Elas podem melhorar, mas não se transformam em outras pessoas. O comportamento aprendido, o temperamento e a dinâmica emocional podem ser melhor administrados, mas não abandonados", explica.

O recomendável, quando o par problemático resolve passar por um processo de mudança, é apoiá-lo e aceitá-lo como ele é hoje, sem a ilusão de que mudará radicalmente. "Mas lembre sempre de se questionar: ‘eu quero que o outro mude, mas e eu? Qual é a minha parte nisso?’. Sua conduta também vai ter de ser modificada", diz Heloisa Schauff.

Segundo os especialistas, a pessoa deve investir até onde acreditar que pode dar certo. Esgotadas todas as possibilidades, talvez seja a hora de colocar o amor próprio em primeiro lugar e partir para outra. É importante considerar, por exemplo, o quanto o comportamento do outro vem prejudicando sua vida, os reais sentimentos e se, apesar de todos os seus esforços e sua compreensão, a pessoa não faz nada para mudar.

Esse rompimento, no entanto, deve ser gradual, de acordo com Mônica. “Se você entrou na relação e durante um tempo conviveu com um parceiro problemático, precisa ter consideração na hora de partir. É preciso explicar que tentou de todas as formas, que acreditava que poderia suportar as fragilidades alheias, mas que a convivência se tornou insustentável. Não simplesmente para fazer a mala e ir embora. A separação precisa ser construída, para que a pessoa que será deixada não fique ainda mais desestruturada", fala a terapeuta.

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