Equilíbrio

Fama de chatos nem sempre é justa com os sogros

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Tolerância é essencial em qualquer tipo de relação, isso inclui a com os sogros imagem: Getty Images

Marina Oliveira e Thaís Macena

Do UOL, em São Paulo

A secretária Paulla Oliveira, de 23 anos, do Rio de Janeiro, conheceu o marido quatro anos atrás, durante a Copa do Mundo. E bastaram apenas três dias para ela ser apresentada aos futuros sogros como a nova integrante da casa, já que o namorado morava com os pais. Após dois meses, eles já esperavam pelo primeiro filho. A mudança de vida repentina desagradou os pais de Paulla e foi nos sogros que ela encontrou o apoio de que precisava nessa fase.

“Durante a gravidez, eu fiquei muito carente e eles passaram a ser como meus pais”, conta. “Hoje, a união dos meus sogros comigo e meu marido é fundamental para a nossa relação dar certo. Eles nos ajudam muito”, diz Paulla, que atualmente é mãe de dois filhos.

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A história vai na contramão do estereótipo que existe há décadas, o de que sogros e sogras se portam como inimigos de genros e noras. O tema é tão popular que as piadas sobre o assunto se espalham pelo mundo afora.

“Esse é um preconceito que atinge muito mais a mulher, ou seja, a sogra”, diz a psiquiatra Azair Terezinha Vicente, sócia fundadora e professora do Instituto Familiae, que oferece cursos de formação em terapia familiar.

Ela explica que o reconhecimento do papel da mulher na sociedade é recente e que, antes, a figura feminina se limitava a cuidar do lar e da família. “A mulher era só a cuidadora, era isso o que ela tinha a oferecer. Então, quando chegava outra mulher que queria desempenhar o mesmo papel que ela, na vida do filho, a probabilidade de aparecerem conflitos entre elas crescia muito”, explica.

A má fama das sogras correu entre as gerações e, hoje, muitos jovens que iniciam um relacionamento ainda acreditam que, ao conhecer os pais do par, a vida do casal será transformada. Para pior, é claro.

“Quando você não rompe com esse sistema de crenças antigas, você se fecha para uma relação que pode facilitar a vida do casal, porque ninguém melhor do que os pais do cônjuge para dar dicas de como as coisas funcionam com ele”, diz a psicóloga Denise Pará Diniz, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Uma vez superado o preconceito, os sogros podem se tornar confidentes e aliados, até na hora de enfrentar problemas conjugais. “Sempre que estou chateada com algo na minha relação eu corro para minha sogra e desabafo. E o mais engraçado é que eles sempre ficam do meu lado, não importa o motivo da briga”, diz a secretária.

Arquivo pessoal
Fernanda Maldonado, na foto com o marido e os sogros imagem: Arquivo pessoal

No caso da publicitária Fernanda Maldonado Campanini Sacco, de 32 anos, de São Paulo, o vínculo construído com os sogros é tão intenso que hoje ela sente falta da convivência próxima que tinha com os pais do marido na época de sua juventude, quando o conheceu.

“Eu trabalho mais do que antes e tenho mais compromissos. Mesmo assim, dou um jeito de falar com eles, de almoçarmos ou jantarmos juntos durante a semana. E, claro, nas datas especiais, sempre comemoramos em família”, diz.

Nem tudo são flores

A dona de casa Keury Kuroda, de 21 anos, do Rio de Janeiro, também só tem a agradecer o bom relacionamento que construiu com os pais de seu marido. Contudo, ela lembra que, no início da relação, teve de superar alguns problemas de percurso. “Quando estávamos de casamento marcado, houve um conflito por conta da lista de convidados. Mas eu nunca tive medo de dizer até onde eles poderiam opinar ou não”, afirma.

Conflitos como esses são relativamente comuns e, não raro, noras e genros podem se sentir constrangidos por conta da tentativa dos sogros de influenciarem demais na vida do casal. Para piorar, quem se sente vítima, nesses casos, tende a responder com agressividade. “A relação é delicada porque o casal também está sendo construído e tem de administrar as diferenças de cultura familiar, além das outras que aparecem na convivência”, explica Azair.

Arquivo pessoal
Keury Kuroda adora os pais de seu marido imagem: Arquivo pessoal

Porém, quem consegue resistir à pressão, recorrer ao diálogo e impor limites sem perder a cabeça também está se preparando para tolerar situações novas que aparecerão no decorrer da vida do casal e até para negociar, pensando nos sentimentos de ambas as partes. “Vale a pena fazer isso por você mesmo, para aprender a se adaptar às novas circunstâncias que, inevitavelmente, vão surgir”, diz Denise.

Endurecer, sem perder a ternura

Isso não significa dizer que, em nome da boa convivência, se deva aceitar tudo. “Os limites têm de ser colocados logo no início da relação. Tudo aquilo que diz respeito ao casal tem de ser resolvido entre os dois. Os familiares não devem intervir”, afirma a psicóloga Letícia Guedes, mestre em Psicologia pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Goiás.

No entanto, quando genros e noras discordam da atitude dos sogros, a questão deve ser discutida de maneira respeitosa. “Se você parte do princípio de que o outro sempre quer ajudar, fica mais simples agradecer e dizer que prefere fazer de outra maneira. O ruim é quando você faz uma leitura negativa de todas as ações. Aí, é mais fácil sentir-se desqualificado pela outra pessoa e responder agressivamente”, diz Azair Terezinha Vicente.

Se, mesmo com um certo nível de esforço, a convivência ainda é difícil com os pais do par, pode-se optar por um distanciamento confortável para as duas partes, mas não sem antes conversar com o cônjuge e explicar a tomada de decisão. Dessa forma, você não precisará estar com eles todo o fim de semana, mas terá de se mostrar aberto para interações em algumas ocasiões.

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