Equilíbrio

Animal de estimação não deve ser presente de Natal; veja motivos

Thais Carvalho Diniz

Do UOL, em São Paulo

O Natal está chegando e, junto com ele, a vontade de presentear quem amamos e convive conosco. Mas muitas pessoas têm dificuldade na hora de escolher o presente e, algumas vezes, acabam cometendo um grande erro: dar um animal de estimação.

Lindos e fofos, cães e gatos viram alternativa tanto para agradar crianças e adultos --do filho pequeno que pede um bicho para se divertir à avó que mora sozinha e precisa de companhia. O problema é que eles são seres vivos e não podem ser descartados ou trocados se o presenteado não gostar. Portanto, lembre-se, bicho não é presente.

Os motivos para não dar bichos de presente são diversos, afirma Juliana Bussab, fundadora da ONG Adote um Gatinho, de São Paulo. "Essa época é propícia para adoções impensadas. As pessoas adotam ou compram no calor das emoções do final do ano e se esquecem das responsabilidades que ter um bicho traz, que vão desde o tempo que você precisa dedicar a ele à condição financeira para consultas ao veterinário e alimentação. Eles não são brinquedos, que podem ser jogados fora quando ficam velhos", afirma.

De acordo com Juliana, as pessoas que adotam nesta época do ano são as mesmas que querem devolver o animal ao abrigo na época do Carnaval --ou até antes, em janeiro. "Os donos querem viajar nas férias ou no feriado e acabam se desfazendo deles. Quando você adota, tem como fazer isso --já que aceitamos todos de volta--, mas o problema é que lojas que vendem não vão devolver o dinheiro e ficar com o bicho. Afinal, é um negócio", explica.

Assim como acontece na ONG Adote um Gatinho, a Uipa (União Internacional Protetora dos Animais), também de São Paulo, toma providências para que adoções impensadas não aconteçam. Em ambas não é permitido que um animal seja levado do abrigo como presente. Além disso, as instituições fazem entrevistas com os futuros donos para esclarecer sobre as responsabilidades que o novo membro demanda.

"Alguns lugares empurram os animais para esvaziar abrigos. Nós fazemos o contrário. Além de conscientizarmos a pessoa sobre como o bicho pode mudar a sua vida, é preciso assinar um termo que ela está assumindo uma série de encargos. Fazemos isso pensando justamente no bem-estar dos animais, que vivem, em média, de dez a 15 anos", diz Vanice Orlandi, presidente e advogada da ONG.

Vanice acrescenta, ainda, que, no caso de famílias, é imprescindível que todos estejam de acordo e presentes na hora de escolher o cão ou gato. "É preciso ter empatia pelo animal. Quem vai conviver com ele deve estar no momento da escolha. Temos muitos casos de animais devolvidos depois do primeiro chinelo mordido".

Abandono aumenta nas férias

Os números do site "Procura-se Cachorro", referência para quem perdeu ou para quem achou um cão na rua, provam que nos meses de janeiro, julho e dezembro há uma alta nas ocorrências de abandono. Só no final de 2013 e início de 2014, por exemplo, foram registrados mais de 700 animais perdidos.

"Todo mundo que trabalha com isso sabe que o abandono aumenta nesta época. As pessoas saem da rotina, não têm com quem deixar o animal e aí largam o bicho na rua ou se descuidam e eles acabam fugindo. Por isso é uma irresponsabilidade dar uma vida de presente", fala Andrea Giusti, fundadora do site.

Para o presidente da ONG Arca Brasil, Marcio Ciampi, é uma percepção histórica que a rejeição aos animais de estimação aumenta durante o período de dezembro a fevereiro, e que se comprova no número de pessoas que procuram a organização para denunciar abandonos. Segundo Ciampi, nas férias de 2013/2014, houve um aumento de 50%.

“Essa circunstância [as férias] coloca os bichos em uma situação perigosa. Por exemplo: quando os donos simplesmente deixam uma bacia de água e outra de ração e ficam fora por dias. O bicho fica sozinho, não tem a quem recorrer e faz o possível para fugir e acaba ferido na rua. Adoção sem cautela é a principal causa do grande número de animais abandonados", alerta.

A ONG Proteção Animal Mundial, do Brasil, iniciou a campanha "Animal Não É Brinquedo" no Facebook, justamente para conscientizar as pessoas de que é uma péssima ideia dar de presente um bicho de estimação. Se você também quiser ajudar para que os números de adoções irresponsáveis diminuam, basta enviar uma foto do seu animal junto com a frase que dá nome à ação para contato@worldanimalprotection.org.br. 

O CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de São Paulo, cuja função é resgatar das ruas aqueles que apresentam risco à saúde pública, diz que não há como estimar um número de animais abandonados nos meses de férias, pois o centro só recolhe os doentes. Entretanto, segundo Gabriele Dietz, veterinária do centro, o local abriga, hoje, cerca de 500 bichos, entre cães, gatos e aqueles de interesse econômico, como equinos, bovinos e caprinos.

“Teoricamente temos capacidade para 500, mas tudo depende da espécie dos que chegam, além da idade e temperamento, que também são levados em consideração na hora de deixá-los uns com os outros. Se abrigarmos de qualquer maneira, constitui maus-tratos", conclui.

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