Equilíbrio

Por que algumas pessoas mostram seu pior lado na internet?

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As pessoas têm a ilusão de que o computador oferece proteção e mostram seu pior lado imagem: Getty Images

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Em 1996, bem antes do sucesso das redes sociais, o psicólogo norte-americano John Suler, do Departamento de Psicologia do Centro de Ciências e Tecnologia da Rider University, nos Estados Unidos, ganhou destaque no meio acadêmico por causa de estudos em que analisava as diferenças entre relacionamentos reais e virtuais. Segundo seus relatos, as relações via texto --lembrando que na época os principais meios eram o ICQ e e-mails-- tendem a fazer com que as pessoas se abram mais e digam coisas que não diriam se estivessem cara a cara.

Em 2004, no artigo "O Efeito da Desinibição Online", Suler cunhou o termo "desinibição tóxica" para se referir à atitude de quem passou a usar a internet --em especial as redes sociais e a área destinada a comentários nos sites-- para destilar ódio, preconceitos, recalques, críticas pesadas à aparência ou opinião alheia. Mais de dez anos depois, é fácil notar o quanto essa desinibição se tornou ainda mais feroz. Um caso recente foi o dos ataques aos nordestinos após o resultado das últimas eleições presidenciais.

O que explica tanta truculência virtual? Para a psicóloga Ana Luiza Mano, membro do NPPI PUC-SP (Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), a falsa proteção que a tela do computador oferece não é mais o fator preponderante.

"Muita gente está dando a cara a bater e posta coisas terríveis sem apelar para o anonimato", comenta. "A agressividade sempre foi inerente ao ser humano. O que acontece, na internet, é que a pessoa que faz um comentário racista, por exemplo, não quer discutir ou saber o que o outro pensa. Ela quer simplesmente desabafar questões próprias. Depois de postar, desliga o computador ou guarda o celular e vai fazer outra coisa", diz.

Ainda segundo Ana Luiza, que também é coordenadora do site Psicólogos da Internet, nem sempre a pessoa é agressiva da mesma forma na vida real. "Muita gente aproveita a rede para explorar outros aspectos da personalidade que na vida presencial mantém ocultos, seja pela necessidade de aceitação social ou pela dificuldade de se abrir e expressar o que sente ou acredita", diz.

Para o consultor de mídias sociais Felipe Agne, de São Paulo (SP), a cultura do ódio é algo arraigado na história da humanidade, pois atravessamos gerações elegendo inimigos: pessoas de outra nacionalidade, etnia, crença, orientação política ou sexual.

"O que muda no ambiente virtual é a sensação de ser 'inatingível' e o aumento do alcance do que você publica. Você está longe dos olhares de reprovação, do tom das vozes, da visão do grupo que reprime esse tipo de comportamento", diz Felipe, que acredita que o tipo mais comum de agressão, hoje em dia, é aquele disfarçado de humor. "Apelidos, piadas, comparações com animais. O humor disfarça a agressão e acaba se tornando um instrumento da perversidade humana", conta.

Bia Granja, fundadora e curadora do You Pix, site sobre a cultura de internet que se transformou em festival em 2009, completa: "Na web, as coisas precisam ser exageradas para ter visibilidade. Então muitos acabam acentuando o tom de suas críticas e opiniões para aparecer. Embora as redes sociais tenham dado voz às pessoas, e isso cause deslumbramento, é comum achar que o que dizem fique apenas naquele espaço de comentários, ignorando que tudo é compartilhável e pode se espalhar."

Segundo Eric Messa, professor da Faculdade de Comunicação e Marketing e Coordenador do Núcleo de Inovação em Mídia Digital da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado), de São Paulo (SP), não há uma única causa para o comportamento hostil observado nas redes sociais.

"Trata-se de uma complexa gama de fatores socioculturais, dentre os quais podemos ressaltar a disposição pela exposição da sociedade. Antes mesmo do surgimento das redes sociais, já faziam sucesso na televisão os reality shows. Com o Facebook e o Twitter, por exemplo, essa disposição pela exposição foi infinitamente potencializada, pois com muita facilidade qualquer pessoa pode mostrar sua opinião", explica.

É impossível determinar se esse comportamento feroz já atingiu seu ápice, mas sem dúvida ele não se esgotou e há muito para acontecer. Eric Messa lembra que as redes sociais são espaços de interação ainda recentes e estamos vivendo uma época em que os limites éticos e morais estão em renegociação. Nem mesmo a noção do que é público ou privado está bem clara atualmente. De certa forma, somos vigiados e controlados pelos nossos próprios amigos. Todos sentem-se no direito de criticar o que o outro faz dentro das redes.

"É difícil prever quem fará parte da sua rede daqui a 40 anos e qual impacto pode causar nessa pessoa algo que você publicou hoje. Outro exemplo: daqui a 20 ou 30 anos haverá uma geração inteira de adolescentes que terão acesso a infinitas informações sobre o comportamento de seus pais na época em que eram adolescentes. Essa é uma cena curiosa que ainda não vimos acontecer e pouco podemos prever sobre suas consequências", observa o docente da FAAP.

De acordo com Claudete Pagotto, coordenadora do curso de Ciências Sociais da Umesp (Universidade Metodista de São Paulo), a expressão da liberdade de pensamento no campo virtual pode trazer resultados muito ruins para os que expõem sua vida e suas opiniões de modo inconsequente.

“Há o risco de a sociedade encontrar mecanismos de controle que podem utilizar as informações expostas para punir ou não selecionar para um emprego, como já acontece, ou, simplesmente, bloquear o acesso às redes. Ou seja, existe uma falsa ideia de liberdade", declara. "E também a falsa sensação de impunidade", completa Ana Luiza Mano.

"A educação para o uso da internet é uma questão séria e muito relevante, pois a consciência dos internautas a respeito das repercussões dos seus atos pode ajudá-los a compreender como os eventos do mundo online podem afetar diretamente suas vidas offline. A dica é: pense muito bem antes de postar", conclui a psicóloga Ana Luiza.

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